Desespero

Sabe quando não se tem alternativa a não ser ceder para o seu pior inimigo? O que passa é o desenho de uma situação, numa negociação de um cidadão comum, em que tem que ceder para conseguir o que quer.

Isso pode ocorrer em algumas circunstâncias, das piores às melhores situações. Desde como na procura de um emprego. Em que a pessoa está precisando arranjar uma atividade, já que sua conta está negativa, seus filhos precisam se alimentar e há mais alguns problemas conexos. E alguém lhe oferece uma vaga de emprego por um salário que vale a metade do que está pedindo. Não é o seu pior inimigo, mas até parece que não está lhe ajudando. Mas, no fundo está. Pois vai lhe ajudar a ficar menos negativo em todos os sentidos.

E para completar e tentar melhorar essa situação, que ainda está fora de controle, esse cidadão quer vender um objeto, que pode estar fora de moda, ou um carro que anda, está bem conservado, mas não querem lhe pagar o preço justo e correto pelas suas coisas. Também, não são seus inimigos, pois além de estarem comprando em um período de crise estão lhe auxiliando a se ver livre do que hoje não lhe serve mais. E, já que a conta ainda continua negativa, isso irá ajudar a diminuir a conta de juros.

Não tendo mais onde buscar soluções, é chegado o momento de ir ao banco tentar parcelar sua dívida. Pode ser que perca o crédito depois que tudo estiver acertado. Mas, agora o que precisa verificar é se as prestações irão caber no seu novo orçamento. Não há muito que se tentar debater ou ponderar com esses novos gerentes que aí estão.

Nada contra, apenas que seguem regras muito mais rígidas do que gerentes de banco de uns trinta anos atrás. A inflação era alta e havia mais margens para acertos. No final, todos saiam perdendo um pouco ou ganhando um pouco. Ficava-se na ilusão de que estávamos fazendo um bom negócio.

Agora, a conta fica mais a favor do banco. Nem vou citar a taxa anual de juros de um cartão de crédito. É obscena para ser escrita, quando mais negociá-la. Chega a ser impagável, se ficar liquidando só o mínimo mensal.

Ao sair do banco, quase desanimado, o cidadão pode ter a certeza de que tudo está começando a melhorar. Aí se depara com duas notícias, ao ler as manchetes numa banca, já que nem dinheiro para o jornal lhe sobrou.

Pasmo descobre que aumentos no Judiciário irão acrescentar 53 bilhões de reais no Orçamento em três anos, que se não tivessem aumento poderiam prejudicar o funcionamento dessa máquina. A questão é que quando se fala em cortes de despesas, como aceitar esse acréscimo, apesar de serem justificáveis? E mais: que até o final do ano vão mexer na aposentadoria e na CLT – Consolidação das Leis do Trabalho.

Claro que isso pode não lhe afetar mais do que já está lhe afetando. Mas, dá uma sensação de desespero, de frio na barriga, de que essas situações não desatem os nós, isso dá.

(*) - Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Site: (www.marioenzio.com.br).