Mario Enzio (*)

A ordem é abandonar o navio. Isso pode ser uma atitude de quem sabe cuidar de seu espaço. Precavidos, os ratos oportunistas, procuram ir aonde há terra firme.

O rato é sorrateiro e imprevisível. Suas ações – nem poderíamos pensar diferente – são instintivas, tem um comportamento de “desconfiança”. Se se sente ameaçado corre. Se se sente seguro fica. Age em turminha de ratos. Mas, são agressivos quando acuados. Ou seja, se alguém do grupo está sendo atacado pode se juntar para salvar alguns da ameaça.

Por outro lado há o caricato, mostra o quanto a publicidade é transformadora, que muda a opinião de quem pensa o contrário. Como a figura do rato herói – não sei se compactua – do Mickey. Há quem não aceitará essa deferência por ser um ícone americano do norte. Há o gato e o rato na figura do Tom e Jerry, que protagonizaram muitas manhãs de crianças relativamente felizes nos anos sessenta e setenta. Ainda fazem sucesso.

Há mais recentemente o ratinho que sabia cozinhar. Não havia ‘master-chef’ nem crítico gastronômico que dissesse que se tratava de um farsante. Ao contrário, o engano está em quem não sabe apreciar uma boa refeição. Não vou citar, mas há muitos outros personagens engraçadinhos ou queridinhos.

Podemos imaginar o que quisermos que ainda assim algum estúdio de criação terá mais criatividade para a figura de um ratinho. Desde uma carinhosa até a mais aterrorizante. Quem imagina é porque pensa além dos seus limites. Chega-se a sonhar que nada disso que se vive faça parte da realidade. Já que o que se lê se confunde com o que vê e ocorre. E, recorda-se de mais rato: o de laboratório, que testa medicamentos que iremos consumir. Afinal, se o rato nos usa, usamos o rato. Será que somos manipulados?

Quando se veem ratos abandonando um navio, o que se pensa? Que o navio irá afundar? Nem sempre. Ratos podem desembarcar no porto pela corda segura que mantém a embarcação presa ao cais. Ratos saem porque a rataria está repleta demais e precisam dar um tempo em outra embarcação ou mesmo em terra firme. Querem dar uma arejada. São muito espertos. O assunto deles é invadir. Nas áreas que se sintam seguros: casas, galinheiros, porões, banhados, despensas de comidas e pelos esgotos a fora.

Ratos são símbolos de doença e peste, criaturas que inspiram nojo e medo. Segundo especialistas os roedores são responsáveis pela transmissão de quarenta doenças. O rato é considerado o principal transmissor. Como na Idade Média quando o comércio ficou restrito em áreas concentradas, pelas trocas regionais, nos feudos, o rato ficou na sua.

Quando as trocas se iniciaram entre as nações, com a volta do comércio, os ratos foram responsáveis pela morte de milhões de pessoas, na Ásia e Europa, com a transmissão da peste bubônica. Na verdade, pela pulga através do rato preto. São umas pestes.

São essas pragas urbanas que – de vez em quando – associamos a quem não gostamos.

(*) - Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Site: (www.marioenzio.com.br).