Terra Arrasada

Até que ponto o que está sendo revelado interessa aos grupos de poder? Outra pergunta seria: a quem interessa que se conheça o território que se adentra?

Comentando como agiriam atores de táticas bélicas: interessa pouco que se conheçam as regras de um jogo, quando se sabe que o que se quer é só ganhar de um lado. Por isso, usam-se códigos, nomes cifrados, alcunhas e criptografias. Coisa de combate, de duelo, peleja ilegítima, de guerra suja, de quem não está se querendo outra coisa a não ser a manutenção de privilégios alcançados. Uma coisa é atingir por mérito, outra é por associação, amizade, indicação, coleguismo. O grupo fica todo comprometido com quem o cooptou.

A fachada de uma lealdade subserviente é antes de tudo o lema que empurra à luta. Não importa muito do que se pensa desde que nada mude aquelas circunstâncias de prerrogativas e vantagens. Afinal, o opositor, aquele que domina a situação não quer revelar seus segredos. Essa não seria uma atitude leal entre os desleais. Parece um campo minado. Para onde se pode caminhar há algo explosivo que pode estar enterrado.

Recordamos mais táticas, a da terra arrasada: utilizada pela Rússia em conflitos contra potências europeias como contra a França de Napoleão e a Alemanha de Hitler, onde com se efetuava a retirada civil e militar do território em conflito, destruindo tudo o que existe para que a tropa inimiga que adentrasse o território nada encontrasse. Quer dizer, ao vencedor não sobraria nem as batatas, seria um ambiente que teria que ser reconstruído.

Assim pensa-se, na destruição de documentos, de provas, gravações, o que for possível para contar como agiam aqueles que antes lá estavam. Não sobraria nada para contar a história ou que pudesse ser aproveitado. Numa guerra, os dois são inimigos, dependendo de que lado se está. E nunca se sabe: se quem está do seu lado possa ser amigo ou um infiltrado. Esse ambiente hostil não serve, não interessa a ninguém.

Entretanto, não estamos nesse pé de guerra, tão desorientados nessas condições de enfrentamento e descontrole. Há certa estabilidade, embora tensa, regulando o bom andamento das instituições. Não há um clima de desespero ao ponto de querer abandonar tudo. Ainda nos resta a clareza das ideias e do pensamento livre de opiniões apaixonadas no sentido da moral equilibrada e sã.

O que pode nos valer uma vitória é que sejam retirados do campo, de cena, esses criadores, idealizadores totalitários que só querem vantagens para o seu grupo especial e estruturado de selecionados. Não são confiáveis, não são dignos de estarem no jogo democrático de Direito. Pois subvertem e conspiram contra uma ordem justa e correta de valores.

O exemplo da terra arrasada é a metáfora do resultado sempre desvantajoso. Daquilo que acaba sendo plantando e que pouco ou quase nada se colhe. Fica sempre a perspectiva da sobra, de ter sempre que reconstruir o que foi devastado.

(*) - Escritor, Mestre em Direitos Humanos e Doutorando em Direito e Ciências Sociais. Site: (www.marioenzio.com.br).