J. B. Oliveira

No princípio era o Verbo

 

                                                                                                                                                    J. B. Oliveira

O excelente programa “A cara do povo”, da Rádio Capital AM, é apresentado todos os sábados, das 10 às 12 horas pelos amigos Andrea Matarazzo e Luís Ribeiro. Vez por outra estou por lá, para falar sobre nossa gloriosa Língua Portuguesa. Recentemente, durante a entrevista, pediu-me o Andrea que falasse sobre o verbo e suas características...

Comecei por falar da enorme diferença entre o verbo e todas as outras classes de palavras. Aquelas, de modo geral, representam a coisa no espaço. O verbo a representa também no tempo. Além disso, enquanto as demais palavras têm, no máximo, três flexões: gênero, número e grau, o verbo tem seis: modo, tempo, pessoa, número, voz e formas nominais! Por isso, se alguém for a um país cuja língua não domine, procure conhecer os verbos, e terá como atender as necessidades básicas! To eat, essen, manger, mangiare são verbos que se traduzem por comer em inglês, alemão, francês e italiano respectivamente. Da mesma forma que to drink, trinken, boire e bere significam beber...

 

O Evangelho de São João se abre com estas palavras: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”. A palavra verbo aqui tomada em sentido teológico, é tradução de logos, forma usada no original grego (koiné). Refere-se ao fato de Deus – apenas pela palavra – ter criado o mundo (E disse Deus...). No caso específico da gramática, o termo verbo vem do substantivo latino, neutro, da segunda declinação verbum, verbi, que significa palavra e, como vimos, é a mais rica e flexível das classes de palavras, que são: substantivo, adjetivo, artigo, numeral, pronome, verbo, advérbio, preposição, conjunção e interjeição (e a “agregada” palavra denotativa!).

 

Aproveitei para fazer um rápido comparativo entre o Inglês – língua sintética, concisa por excelência – e o Português, que é analítica, detalhista. Em Inglês, só há DOIS tipos de verbo: regular e irregular. No caso do regular – que representa a maioria – toma-se o Infinitivo e se acrescenta ED para formar o

Pretérito e o Particípio. Assim To walk, walked, walked; To love, loved, loved, to kiss, kissed, kissed. Se for irregular, aí sim, é necessário conhecer os dois outros tempos primitivos, como em To go, went, gone; To be, was been; to see, saw, seen.

 

Já em nossa língua tupiniquim, temos nada menos que seis tipos de verbo: regular, irregular, anômalo, defectivo, abundante e auxiliar! É fácil imaginar quantos erros gramaticais se devem a esse detalhe... Que tal “um passeio” por esse universo, para recordar um pouquinho essa matéria?

 

Regular é o verbo que não sofre alteração em seu radical durante toda a conjugação. O verbo vender, por exemplo, tem como radical vend, e assim se conjuga: eu vendo; tu vendes; ele vende; nós vendemos; vós vendeis; eles vendem. Vendia; vendias; vendia; vendíamos; vendíeis; vendiam. Vendi; vendeste; vendeu; vendemos; vendestes; venderam. Venderei; venderás; venderá; venderemos; vendereis; venderão etc.

Irregular, o verbo fazer tem por radical faz, e esta é sua conjugação: eu faço; tu fazes; ele faz; nós fazemos; vós fazeis; eles fazem. Fazia; fazias; fazia; fazíamos; fazíeis; faziam. Fiz; fizeste; fez; fizemos; fizestes; fizeram. Farei; farás; fará; faremos; fareis; farão...

Anômalo apresenta problema um pouco mais sério: sua irregularidade é profunda, uma anomalia. É o caso do verbo ser. Logo de início, seu radical é apenas s! Sua conjugação é um desastre: eu sou; tu és; ele é; nós somos; vós sois; eles são. Era; eras; era; éramos; éreis; eram. Fui; foste; foi; fomos; fostes; foram. Serei; serás; será; seremos; sereis, serão...

Defectivo, por sua vez – como o nome sugere – é o que apresenta um defeito, uma falha, ou seja; não possui todas as flexões. Casos típicos são os verbos colorir (eu coloro? coluro?); reaver (eu reavo? reavejo?); falir (falo? falejo?) entre outros.

Abundante é o seu oposto: possui mais de uma forma para a mesma flexão. Isso se verifica mais facilmente no Particípio, como nestes exemplos: pegado e pego; pagado e pago; fritado e frito; secado e seco; extinguido e extinto; exaurido e exausto etc. Convém lembrar, porém, que essa dualidade correta não se aplica a todos os verbos: apenas aos abundantes. Por isso é absolutamente errado dizer “Ele já tinha chego”!  

Auxiliar, por fim, cumpre aquilo que seu nome diz: auxilia a conjugação de outros verbos. Em Português, temos quatro auxiliares essenciais: ser, estar, ter e haver. Na maioria das outras línguas, são apenas dois: To be e to have; Sein e haben; Être e avoir ; Essere e avere, respectivamente em Inglês, Alemão, Francês e Italiano.

Não somente em outros idiomas, mas também em Português, ampliar o conhecimento do verbo traz, como consequência natural, a melhoria da comunicação, a extinção de dúvidas e a eliminação de erros gramaticais primários ou graves, mas sempre desagradáveis...

 

Afinal, “No princípio, era o Verbo...”!

J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista. É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras. -
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