J. B. Oliveira

Recordar é viver...

 

J. B. Oliveira

Em 2009, o amigo, colega e irmão LUIZ FLÁVIO BORGES D’URSO, então presidente da OAB, seção de São Paulo, concorria à reeleição. A luta foi acirrada e, como soe acontecer em campanhas eleitorais, em alguns arraiais os ânimos se exaltaram. Menos no do D’Urso, que se manteve equilibrado e respeitador, com a serena convivção de que a boa administração que desenvolvera seria reconhecida pela classe. Membro do Conselho Estadual da Ordem, apoiando clara e francamente o presidente D’Urso, eu observava a marcha dos acontecimentos e, ao final, no dia da proclamação do resultado das urnas, escrevi a crônica abaixo, que agora trago a todos meus leitores.

ESSA ELEIÇÃO FOI PODA!
Os caipiras – como eu – estão habituados a esta realidade: em determinada época, é necessário aplicar a PODA às árvores frutíferas para que deem mais e melhores frutos. Podar é cortar galhos estéreis, ramos inúteis e partes improdutivas que apenas se nutrem da seiva da árvore e não lhe trazem nenhum benefício...


Por isso, essa eleição foi poda!
No nosso caso, temos que considerar que muitos bons colegas – nem estéreis, nem inúteis, nem improdutivos – se foram. Em política isso se chama DEFECÇÃO, fenômeno pelo qual, pela porta da frente, antigos correligionários se transferem para outro grupo . É um ato legítimo, livremente praticado no império da democracia. Companheiros saem com dignidade e ética, de forma tal que a amizade, o companheirismo e a convivência sadia não sofrem abalo, pois a opção política – que é efêmera – não compromete o respeito mútuo – que é perene. Tornam-se adversários políticos, jamais inimigos pessoais. São como aquele operador do Direito com quem deparamos no exercício de nossa atividade jurídica: ex-adverso sim, mas colega, digno de respeito!

Como já dito, os que agem com essa transparência e lealdade, saem pela frente!

O lamentável, porém, é que, nesta campanha, uns poucos colegas optaram, livremente, por queimar os valores maiores da honra e da amizade pessoais na fogueira sandia da calúnia e da maledicência. Não mostraram qualquer escrúpulo em lançar mão de mentiras e de fraudes, às vezes menos com o objetivo de ganhar votos e mais com o de ofender, injuriar, enxovalhar, macular, ferir...
Ao ouvir o D’Urso, que não se valeu dessas vilezas em nenhum momento, contra quem quer que fosse, falar a respeito desses colegas – alguns até há pouco tempo dentro do nosso Conselho e do círculo de sadia amizade – lembrava-me desta triste expressão: “Ao ser ferida pelo machado, a árvore vê, com tristeza, que o cabo é de madeira!”, assim como do lamento do Apóstolo São João: “Saíram de nós, mas não eram de nós; porque se fossem de nós ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós.” (I Carta, capítulo 2, versículo 19).

Trago à colação, também, as palavras do poema de Drumond: “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? E agora, você? ...”

Em discurso após a proclamação dos resultados que o consagraram vencedor do pleito com 7.209 votos sobre o segundo colocado; 34.520 sobre o terceiro e 42.240 sobre o quarto, Luiz Flávio Borges D’Urso disse, uma vez mais, que é presidente de todos os advogados do Estado de São Paulo e assim vai agir – como sempre o fez. Lá dentro, porém, vinha-me à mente uma outra expressão: “Podemos arrancar todos os pregos que foram cravados numa tábua, mas o furos ficam.”! Não é o caso do D’Urso,sempre tolerante, mas não pude deixar de lembrar da frase de John Kennedy: “Perdoe seus inimigos. Mas anote seus nomes”!

Volto a dizer que não é o caso de nosso Luiz Flávio, que preside sem revanchismo, e tratará bem a todos: os que ficaram a seu lado e os que partiram para campos adversos. Sentir-se-ão à vontade para continuar mantendo os mesmos vínculos de amizade e camaradagem de sempre, os que, por razões de foro íntimo, apoiaram outro candidato, – com ética e respeito. Praticaram a democrática DEFECÇÃO e saíram pela frente!

Inevitável constrangimento sentirão aqueles que não souberam fazer a mais nobre das políticas – a de classe – com decência, paz, honestidade e respeito ao concorrente e à advocacia. A maneira como saíram e agiram, não pode ser chamada DEFECÇÃO, mas DEFECAÇÃO. E, obviamente, não saíram pela frente!

Em 19.11.09.

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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