J. B. Oliveira

BRIGADO POR QUÊ?

Não dá para entender: você acaba de fazer algo em benefício de alguém e ele se diz BRIGADO!?

BRIGADO com o quê? E por que a BRIGA?

 

Se fôssemos explicar isso gramaticalmente – e complicar, é claro –, diríamos que ocorreu aí um metaplasmo, com o nome particular de aférese, que é a queda de um fonema no início da palavra. Como em ATÉ, que “no popular”, vira TÉ, ou NAMORAR, de veio de ENAMORAR...

A origem dessa tal aférese é o termo latino aphairesis, que significa cisão, corte, supressão.

Por outro lado – literalmente por outro lado – a palavra MUI pode ser usada em lugar de MUITO, ou seja, o corte se dá no final, e aí estamos falando de outro metaplasmo, a apócope. Outros exemplos são: METRÔ, de METROPOLITANO; PNEU, de PNEUMÁTICO e FOTO, de FOTOGRAFIA...

 

O fenômeno pode ocorrer ainda no meio da palavra e então se chamará síncope. É o caso de PRA, em vez de PARA e MOR, substituindo MAIOR. Cabem aqui alguns comentários paralelos: cargos de relevância, no passado, eram adjetivados com a forma mor: capitão-mor; guarda-mor etc. Na linguagem caipira ainda se ouve a expressão PRO MOR DE: “Fio, leve um guarda-chuva PRO MOR DE não se moiá”. Já na linguagem dos jovens, pode ser adjetivo – em construções como “MOR legal” – ou substantivo, nesse caso significando AMOR: “MOR, tá a fim de um cinema?”. Em se tratando de amor, o caso pode ser também de síncope médica: perda súbita e transitória da consciência e consequentemente da postura...!

Há que se considerar ainda, que POER era a forma antiga do verbo PÔR.

 

Feita essa introdução “esclarecedora”, vamos ao caso do BRIGADO (ou BRIGADUUU! Na versão do Fábio Júnior...).

OBRIGADO é uma forma peculiar da língua portuguesa para externar o agradecimento por um favor, por uma cortesia. Embora equivalente às formas usadas em outras línguas, apresenta conteúdo e extensão diferentes.

Nas nossas “línguas irmãs”, neolatinas – oriundas do berço comum do Lácio – por exemplo, o sentido é de gratidão. A pessoa favorecida manifesta seu agradecimento a quem a favoreceu.

 

Em espanhol, a expressão usada é GRACIAS, e em italiano GRAZIE, sendo ambas equivalentes ao francês MERCI. Com “reforço”, ficam assim: MUCHAS GRACIAS; GRAZIE TANTE e MERCI BEAUCOUP.

 

O inglês vale-se do bem conhecido THANK YOU, ou sua forma popular THANKS, formas reduzidas de “I thank you” – “Eu agradeço a você”, com a mesma conotação de gratidão, reconhecimento.

 

O alemão usa a forma reduzida DANKE ou as adjetivadas VIELEN DANKE, DANKE SCHÖN ou SEHER DANKE, cuja origem é o verbo DANKEN, que tem o mesmo significado de agradecer.

 

Em português, contudo, vamos além.

A quem queremos agradecer por algo, dizemos que nos sentimos não apenas agradecidos, mas OBRIGADOS a lhe retribuir o favor! Assumimos, assim, uma OBRIGAÇÃO (que nem sempre cumprimos, é bem verdade...!). O conteúdo de nossa resposta é, portanto, muito mais extenso e intenso que a mera gratidão por aquilo que nos foi ofertado ou dirigido.

O que importa destacar, entretanto, é que – na norma culta – deve haver concordância com a pessoa que agradece. Logo, um homem dirá OBRIGADO, enquanto uma mulher deverá dizer OBRIGADA, isto é: “EU ME SINTO OBRIGADA” em relação a você. Por essa mesma regra, é necessário usar a forma plural, OBRIGADOS ou OBRIGADAS quando se agradece em nome de várias pessoas! Na prática, porém, essa última forma nunca é seguida, mesmo em textos escritos.

 

Por fim, há os “modernistas” que justificam a forma OBRIGADO tanto para homens como para mulheres alegando que o vocábulo deixou de ser adjetivo para transformar-se em simples interjeição e – como tal – invariável!

Reputo ser preferível observar – pelo menos em relação ao gênero, masculino ou feminino – a norma culta!


J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.

É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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