J. B. Oliveira

    

Duas fases da PALAVRA no grupo de Cristo

 

 

 

*J. B. Oliveira

 

 

 

 

 

Escolher pessoas para nosso relacionamento social ou profissional é, sem dúvida, uma grande dificuldade!

 

 

 

“Ninguém traz uma estrela na testa”, diz a sabedoria popular, reafirmando essa verdade. Quantas vezes enganamo-nos com a aparência externa de alguém para – só muito depois – percebermos a dura realidade? Mesmo nos dias atuais, em que há sofisticados processos de seleção de pessoal, contando com entrevistadores profissionais, psicotestes e tudo mais, o problema persiste: não é fácil “separar o joio do trigo”.

 

 

 

Enviado por Deus para ungir um novo rei para os hebreus, em substituição a Saul, Samuel escolhe logo o primeiro dos filhos de Jessé, Eliabe “...certamente está perante o Senhor o seu ungido” (I Samuel, 16:6). A escolha de Deus, porém, é outra “...porque o Senhor não vê como o homem vê, pois, o homem vê o que está diante dos olhos, porém o Senhor olha para o coração. ” (I Samuel, 16:7).

 

 

 

Jesus, como Filho de Deus, detinha essa capacidade de conhecer os corações. Poderia, portanto, ter escolhido pessoas perfeitas para integrarem seu reduzido grupo de apóstolos. Escolheu, chamou, apenas doze. Entretanto, não ficou livre do NEGADOR – Pedro (Lucas, 22:54 a 62); do TRAIDOR – Judas (Mateus, 26: 47 a 50); do INCRÉDULO – Tomé (João, 20:19 a 25); dos EGOCÊNTRICOS – Tiago e João, filhos de Zebedeu, que apenas queriam, no reino celestial, sentar-se “um à direita e outro à esquerda” de Cristo (Marcos, 10:35 a 37); e dos MEDROSOS – todos eles – pois fugiram na hora difícil da prisão: “Então, deixando-o ali, TODOS fugiram” (Marcos, 14:50). O medo que os invadiu foi tão intenso que um jovem, tendo apenas um lençol a envolver o corpo, quando se sentiu ameaçado, largou o lençol e fugiu nu! (Marcos, 14:51 a 52). Como esse registro se encontra apenas no Evangelho de Marcos, teria sido o próprio evangelista! (Assim o consideram a Bíblia de Jerusalém e a Bíblia em Edição Ecumênica).

 

 

 

Por muito tempo, fiquei a pensar “por que Cristo, que podia conhecer mentes, caracteres e corações, não escolheu pessoas perfeitas? Por que admitiu gente tão falha e com tantas mazelas? Sem dúvida, ele poderia ter selecionado melhor. Por que não o fez? ”.

 

 

 

Hoje sei a resposta!

 

 

 

Cristo, extraordinário mestre do ensino prático e direto, ainda aqui nos dá uma lição. Quis ele mostrar – por meio daquele pequeno grupo – as falhas que, inevitavelmente, marcam a humanidade. Ensinou-nos, então, a estarmos preparados para encontrar, entre os mais íntimos e queridos companheiros de jornada, quem nos negue; quem nos traia por umas poucas moedas; quem não creia em nós; quem busque usar-nos para beneficiar-se e – de modo geral – quem nos abandone nos momentos mais amargos... Assim, quando um desses tristes e decepcionantes episódios nos colher, podemos olhar para Cristo – uma vez mais – e recordar que também isso ele nos ensinou: “Lembrai-vos da palavra que vos disse: Não é o servo maior do que o seu senhor. Se a mim me perseguiram, também vos perseguirão a vós...” (João, 15:20),

 

 

 

Jesus, na verdade, tinha pleno conhecimento de tudo o que ocorreria. Já havia anunciado que Judas o havia de trair (João, 13:21 a 26); que todos os abandonariam: “... porque está escrito: ferirei o pastor, e as ovelhas se dispersarão” (Marcos, 14:27); e que Pedro o negaria: “... Em verdade te digo que, nesta noite, antes que o galo cante, três vezes me negarás” (Mateus, 26:40). Pedro, entretanto, demonstrando o abismo existente entre o querer e o fazer; o prometer e o cumprir; o falar e o praticar, responde, ousado: Ainda que me seja necessário morrer contigo, não te negarei. E todos os discípulos disseram o mesmo”! (Mateus, 26:35).

 

 

 

O mais extraordinário e impressionante, porém, no grupo de Cristo, é que – passado esse episódio, tendo continuado com o Mestre, TODOS, exceto Judas – MUDAM SEU MODO DE FALAR! Foram revestidos do PODER DE DEUS, conforme prometido em Lucas, 24:49 e Atos, 1:8, e cumprido em Atos, 2:4 “E todos foram cheios do Espírito Santo...”! A partir daí, tornaram-se ousados, decididos, corajosos e destemidos. O próprio Pedro, que negara Jesus diante de simples servos, brada com vigor, em discurso público no dia de Pentecostes: “... e esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo. ” (Atos, 2:36).

 

 

 

Diante do temível Sinédrio, advertidos para não falar a respeito de Jesus, Pedro e João não se intimidam e dizem ousadamente: “Julgai vós se é justo diante de Deus ouvir-vos antes a vós do que a Deus; porque não podemos deixar de falar do que temos visto e ouvido. ” (Atos, 4:9 e 20). Que diferença fantástica entre o antigo e o novo Pedro! Entre os antigos e os novos discípulos, todos corajosos e prontos, realmente, a morrer por Cristo! Todos dispostos a ser testemunhas de Jesus:

 

 

 

“Tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria, e até os confins da terra. ”

(Atos, 1:8).

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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