J. B. Oliveira

IMPROVISO!

 

J. B. Oliveira

Embora essa não seja uma palavra grande, é um PALAVRÃO para muitas pessoas

Ao longo desses muitos anos de convivência nos mais diversos meios sociais, acadêmicos, políticos, religiosos e culturais, tenho visto muita gente “boa” – isto é, culta, letrada, ilustre e ilustrada – “tremer na base” ao ser convidada para falar de improviso.

Parece-lhe, faltar tudo: a fala, o ar, o piso, a firmeza nos membros inferiores e superiores – pernas e mãos põem-se a tremer como vara verde... – e então lhes falta o principal: a inspiração!

Entretanto, questiono: haverá mesmo esse tal improviso? E o que quer dizer IMPROVISO? Um dos sentidos cabíveis nessa palavra é “sem provisão”.

Seria o caso de alguém que não tenha se provido do que deveria prover-se.
Na fábula da cigarra e da formiga, esta última recolheu alimentos durante todo o verão, provendo sua toca de enquanto a outra só cantava. Vindo o inverno, lá estava a formiga abrigada em sua toca, com estoque de alimentos providos por ela.

Ouve uma batida débil na porta e vai atender. É a faminta cigarra, pedindo-lhe abrigo e comida. - Você não cantou no verão? Agora dance no inverno, diz-lhe a formiga. Dificilmente a pessoa terá que proferir uma fala de improviso. Poderá ter que enfrentar uma fala imprevista, que é coisa totalmente diferente!

O que tudo isso quer dizer é que é pouco provável que se peça a alguém para falar de assunto que não seja de sua área de competência ou de sua esfera de conhecimento! Ninguém de bom senso vai pedir a um advogado que fale sobre Física Quântica ou Medicina Ortomolecular!

Se solicitado a falar, o assunto em questão será de sua esfera natural de conhecimento profissional, cultural ou social. Poderá ser, no máximo, uma fala imprevista, mas não de improviso.

Imagine esta situação: você recebe um telefonema de uma pessoa amiga que informa que está na cidade e virá fazer-lhe visita no fim de semana. Você sabe que ela gosta de bolo e resolve fazer um. Busca as provisões necessárias com antecedência, e o prepara. Quando a visita chegar daí a alguns dias, o bolo estará pronto para ser servido.

Imagine agora que a pessoa lhe telefone no próprio dia, é feriado, você não tem onde comprar os ingredientes, mas quer oferecer o bolo.

O que você faz? Abre a geladeira e lá estão os ovos, leite, manteiga e fermento. Vai à dispensa e encontra farinha, açúcar, chocolate e frutas secas! Eureca! Dá para fazer um bolo de chocolate ou de frutas ou de chocolate com frutas!

Você trabalhou com o imprevisto, mas não com o improviso. Você tinha provisão. Talvez nem soubesse, mas a necessidade fez com que você localizasse tudo aquilo de que precisava para fazer o bolo! Suponha agora que você continue a fuçar na despensa e encontre linguiça, pé de porco, paio, bacon, alho, cebola... e resolva pôr tudo isso no bolo!? Vai ser uma desgraça!

A esse risco está sujeito a discurso imprevisto, se não houver bom senso!
Então, convidado a falar numa situação como essa, respire fundo, busque os conhecimentos que se acham armazenados na mente, selecione-os por ordem de pertinência, de oportunidade e de importância, estabeleça a sequencia em tópicos e pronto!

Fale. Faça seu bolo! Mas sem acrescentar cebola, bacon, pé de porco...

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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