J. B. Oliveira

SAVOIR FAIRE: COMO AS ÉPOCAS MUDAM AS PALAVRAS...

Tenho plena convicção de que o século XIX assinalou o fim da era romântica, marcada por um mundo relativamente pacífico e, em comparação com o que viria depois, muito tranquilo.

 

1901, o primeiro ano do século XX, começa com o fim do reinado de quase 64 anos da rainha Vitória, do Reino Unido. À época, foi o mais longo reinado, daí decorrendo a designação desse período como “Era Vitoriana”. Seus 9 filhos e 22 de seus 42 netos casaram-se com membros da nobreza europeia, fazendo com que os laços familiares se ampliassem. Assim, nos primórdios do novo século, os monarcas das principais potências guardavam certo grau de parentesco: Era o caso do rei da Inglaterra Eduardo VII; do kaiser alemão Guilherme II; do czar russo Nicolau II e do imperador austríaco Francisco José, o decano dos soberanos (e viúvo da legendária imperatriz Sissi).

 

Então, em 28 de junho de 1914, Gavrilo Princip, estudante nacionalista sérvio, dispara dois certeiros tiros contra o arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa Sophie, matando-os e, com isso, pondo por terra a paz que, apenas na aparência, pairava sobre o velho mundo. Pela primeira vez em sua história, a humanidade vai conhecer uma Guerra Mundial que, estendendo-se de 1914 a 1918, deixará mais de 15 milhões de mortos! Seus efeitos serão tão terríveis que se tornarão o embrião do mais sangrento evento bélico de todos os tempos – ocorrido também no século XX – a segunda grande guerra!

 

É dentro desse contexto que sucumbe a era do romantismo francês, derrotado pelo pragmatismo anglo-americano! Até então, a França era a referência mundial, o eixo em torno do qual girava a terra. Paris era o centro de cultura e de negócios do mundo. Uma expressão da época comprova essa assertiva: “Tão feliz quanto Deus na França”!

 

Sempre se fala em “colonização cultural”, marcada especialmente pela predominância de uma língua, fenômeno observado em civilizações como, especialmente, a grega e a romana. No caso que estamos focando, também se dá a transição da língua universal, do francês para o inglês...

 

Mon Dieu foi substituído por my God.

 

Mon amour, por my love.

 

Mon ami, por my friend.

 

Souvenir, por keepsake ou recollection.

 

Monsieur, por mister.

 

Madame, por Miss.

 

Clair de lune, por moonlight.

 

Mesdames et Messieurs, por ladies and gentlemen.

 

E, por fim, substitui o poético e nostálgico SAVOIR FAIRE pelo direto, quase ríspido KNOW HOW. Em português, o significado de ambas as expressões é o mesmo: SABER COMO, ou SAIBA COMO. A sonoridade, porém, e o próprio sentido diferem.

Know how é meramente técnico, pedagógico, nada mais.

Savoir faire, não! É expressão suave, meiga, maviosa em que subjaz a conotação de elegância, de coisa chique e refinada, de finesse!

Além da modificação no campo comunicacional, as mudanças de épocas atingiram também – embora com menos vigor – a nobre área do Cerimonial e Protocolo. É sabido que os franceses elevaram os procedimentos cerimoniais e protocolares ao mais alto grau, transmitindo suas normas ao mundo. A célebre expressão “Noblesse oblige” – nobreza obriga – dá uma noção de quão grande importância atribuíam aos princípios da ordem de precedência e das pompas e circunstância! Como herança desse período, usamos ainda hoje, nos convites solenes, como pedido de confirmação de presença, o RSVP – Répondez s’il vou plaît! (Que eu, irreverentemente, já “traduzi” para “Responde Se Vem, Pô”!).


J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.

É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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