J. B. Oliveira

“20% das mais de 18 milhões de moedas...”

J. B. Oliveira

Era uma tranquila manhã de domingo, e eu assistia ao ótimo programa “Pequenas Empresas Grandes Negócios” pela Globo. A certa altura, o assunto passou a ser a escassez de moedas no mercado. Foi então que despontou esta frase: “20% das mais de 18 milhões de moedas produzidas depois do Plano Real não estão em circulação...”

Embora de folga – afinal era dia de “descanso da tropa” – os neurônios reagiram: como é que é? “...das mais de 18 milhões de moedas”?  O artigo definido feminino plural “as” (aí na ilustre companhia da preposição “d”, dando origem à contração “das”), está vinculado a que palavra? Moedas?

NÃO! A referência não é feita a moedas e sim a milhões: são 18 milhões... a palavra moedas é apenas de natureza complementar. E como milhões é substantivo masculino, é óbvio que o adjetivo tem de ser também do gênero masculino. É princípio rudimentar e lógico de concordância nominal! (Os adjuntos adnominais – que podem ser artigo: o, a, os, as; adjetivo: bom, boa, bonito, bonita; numeral: um, uma, primeiro, primeira; pronome possessivo: meu, minha, seu, sua; pronome demonstrativo: este, esta, aquele, aquela – concordam em gênero e número com o substantivo a que se refiram).

A frase correta, então, seria: “20% dos mais de 18 milhões de moedas produzidas após o Plano Real não estão em circulação”.

Não é a primeira nem a segunda vez que observo uma ocorrência dessa natureza. No caso em questão, ela se deveu à ênfase que o comunicador deu ao termo moeda. Isso o fez confundir o foco do assunto – moedas – com o foco, com o núcleo da frase, que era milhões. A verdade gramatical é que a forma “de moedas” era mero complemento secundário, chamado adjunto nominal, do vocábulo milhões, que é um numeral.

Por oportuno, é bom ressaltar que outro numeral – MILHAR – é também do gênero masculino, embora frequentemente confundido com feminino. Não se diga, portanto, “As milhares de pessoas que visitaram o Rio de Janeiro ficaram encantadas com a Cidade Maravilhosa”, e sim “Os milhares de pessoas...”.

O hábito de usar essa palavra como feminina deve-se ao Jogo do Bicho, que assim a popularizou.

Já não é o que acontece com CENTENA, cuja classificação quanto ao gênero não traz nenhuma dúvida: é palavra feminina.

Voltemos ao numeral relembrando que, de acordo com a NGB – Nomenclatura Gramatical Brasileira, todas as palavras da Língua Portuguesa acham-se classificadas em dez categorias: substantivo, adjetivo, artigo, numeral, pronome, verbo, advérbio, preposição, conjunção e interjeição. Os numerais, por sua vez, dividem-se em: cardinais: um, dois, três...; ordinais: primeiro, segundo, terceiro...; multiplicativos: duplo, triplo, cêntuplo...; fracionários: um terço; um quarto, um centésimo...; e coletivos: dúzia, dezena, centena, milhar...  Os cardinais um e dois e os ordinais a partir de duzentos, admitem flexões masculina e feminina: um, uma; dois, duas; duzentos, duzentas, trezentos, trezentas etc.

Merece menção especial também este último grupo: o numeral coletivo. Trata-se de uma palavra que, mesmo estando no singular, dá ideia de plural. No exemplo seguinte, qual seria a forma gramaticalmente correta?

 

Um milhão de pessoas compareceram à manifestação política; ou

Um milhão de pessoas compareceu à manifestação política.

 

Resposta: AMBAS!

Isso porque, nessa situação, a concordância verbal pode ser feita de duas formas: a regular, em que o verbo concorda com o sujeito a que se refere, ou a concordância especial, irregular, na qual o verbo passa a compor-se com o complemento plural.

Assim, na primeira hipótese, o verbo concorda com o sujeito singular: MILHÃO. Na segunda, com o modificativo plural PESSOAS!

 

Por isso meu amigo poliglota Giulio Cesare – que fala italiano, espanhol, inglês, alemão e português, repete sempre que, para ele, a mais complexa é a Língua Portuguesa!

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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