SAUDOSISMO... E CIVISMO!

 

J. B. Oliveira

Observando, com tristeza e certo desalento, o que vem ocorrendo na sociedade brasileira de nossos dias,  envolveu-me um profundo sentimento de saudosismo, de recordação nostálgica dos velhos tempos. Isso não significa, de forma alguma, negar o mérito da era atual, marcada por avanços tecnológicos, científicos e culturais incontestáveis. Aí estão a TV, a internet, o smartphone, o notebook, o tablet, o  “sabe-tudo” Google e os robôs, entre outros tantos aparatos que tornam o dia a dia das pessoas mais fácil. Entretanto, na medida em que a ciência avançou, os valores morais e humanos decresceram... vivemos uma época em que as máquinas estão cada vez mais semelhantes aos humanos, e os humanos cada vez mais parecidos com máquinas: sem sensibilidade, praticando atos de violência e desumanidade!

Estamos falhando na base da formação humana: na ESCOLA! Por isso, pincei parte de um texto mais amplo por mim redigido, que reproduzo a seguir.

 

“A ESCOLA ANTIGA. É imperioso lembrar aqui os versos do poeta português Acácio Antunes: “Antigamente a escola era risonha e franca/ Do velho professor as cãs, a barba branca/ Infundiam respeito, impunham simpatia”.  A escola era o templo do saber e, como em um templo, havia o máximo respeito. À entrada do professor, os alunos se postavam de pé, até que ele os mandasse sentar. Os estudantes mantinham respeito para com o mestre e trato cordial com os colegas. Nenhum sabia o que era droga e jamais se viu algum deles portando arma, de fogo ou branca. Os pais acompanhavam os boletins e, ao receber o comunicado do professor, compareciam à escola para tomar conhecimento de algum deslize do filho e o corrigiam. As aulas eram religiosamente ministradas. Os cadernos não tinham vistosas capas coloridas e plastificadas. Eram simples brochuras, de capa geralmente verde, mas lá estavam as letras dos hinos pátrios, que os alunos sabiam – e cantavam – de cor! Semanalmente havia o hasteamento da bandeira e, no dia 7 de setembro, desfilavam garbosamente em homenagem à Pátria.

 

OS LIVROS DAQUELE TEMPO merecem consideração especial. Os de língua portuguesa traziam, junto dos pontos de gramática, textos de autores brasileiros ou luso-brasileiros! À guisa de exemplo, o livro “Língua Pátria”, de Maximiano Augusto Gonçalves, para a primeira série ginasial, edição de 1966, traz nada menos que 37 textos, versando sobre vários assuntos, sem se descuidar do civismo, como: “Amo o Brasil”, de Bastos Tigre; “O futuro do Brasil”, de Afrânio Peixoto; “Minha terra”, de Maria Sabina; “Oração aos mestres”, de Othon Costa; “A nossa língua”, de Júlia Lopes de Almeida; “13 de maio de 1888”, de João Ribeiro”; “Deus”, de Olavo Bilac; e “Mandamentos cívicos”, de Coelho Neto. (Vale a pena citar alguns desses mandamentos de Coelho Neto. 1 – “Honra a Deus amando a Pátria sobre todas as coisas...” 2 – “Considera a bandeira como imagem viva da Pátria, prestando-lhe o culto do teu amor...” 3 – “Honra a Pátria no Passado; sobre os túmulos dos heróis; glorifica-a no Presente; com a virtude e o trabalho; impulsiona-a para o Futuro; com a dedicação, que é a Força da Fé”... 10 – “Ama a terra em que nasceste e à qual reverterás na morte. O que por ela fizeres, por ti mesmo farás, que és terra e a sua memória viverá na gratidão dos que te sucederem”).

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, por sua vez, era parte integrante e importante da EDUCAÇÃO.

“No passado remoto, na época da “escola risonha e franca”, ao ensinar as primeiras letras, os Mestres – figuras respeitosas e respeitadas – transmitiam também os princípios fundamentais do civismo, do amor e do respeito ao nosso país e aos nossos símbolos e tradições. Aprendia-se que além – e acima – de cada indivíduo paira um bem maior, uma comunidade mais ampla e mais importante chamada Pátria Brasileira”! O sete de setembro assinalava, em nossos corações, o compromisso de saudar e honrar a Pátria – a “família amplificada” na expressão bonita de Rui – com a reverência e o amor com que desfilávamos entoando, “de cor”, o Hino Nacional! Hoje essa data significa, só e puramente, um “um fim de semana prolongado”, destinado a viagens, lazer e recreação... Homenagear a Pátria em sua data máxima é ser cabotino, “quadrado” ou “careta”. A conclusão é óbvia: se perdemos a noção e o compromisso de amor ao bem maior – a Pátria Brasileira – resta-nos somente o amor anão, nanico, a nós mesmos! Por isso prospera e se alastra a pérfida “Lei de Gérson”, em que cada um busca vantagens – lícitas ou, mais das vezes, ilícitas – exclusivamente para si! Se queremos estancar esse flagelo, esse deplorável estado de coisas, temos que ir à origem: à educação infantil. – “É de pequenino que se torce o pepino”, diz a sabedoria popular. – “O menino é o pai do homem”, proclama Machado de Assis. – “Instrui o menino no caminho em que deve andar e até quando for velho não se desviará dele”, conclui Salomão. Lançando hoje no solo fértil e tenro dos corações em formação a semente escolhida do civismo, o país colherá, amanhã e sempre, o fruto sazonado do Patriotismo, do “amor febril pelo Brasil”. Gratificado e feliz verás – Brasil – que “um filho teu não foge à luta, nem teme – quem te adora – a própria morte”!     

                  <>(Texto “Repensando o civismo”, do livro “Mostrando a Língua”, de J. B. Oliveira).

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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