Afinal, é Este ou Esse?

 

J. B. Oliveira

                                                                                                                                                             

Essa (ou esta?) é uma fonte de dúvidas frequentes e renitentes. Quando usar um ou outro desses Pronomes Demonstrativos?

É bom lembrar que o assunto é tratado em Morfologia, uma das três divisões da Gramática Expositiva da Língua Portuguesa – as outras duas são Fonética e Sintaxe – na subdivisão “Classes de Palavras”. É ali que se encontram alinhadas, pretensamente, TODAS AS PALAVRAS do vernáculo.

A NGB – Nomenclatura Gramatical Brasileira (Portaria n° 36, de 28 de janeiro de 1959), reuniu em dez categorias todos os nossos vocábulos. Só para recordar, essas categorias ou classes de palavras são: Substantivo, Adjetivo, Artigo, Numeral, Pronome, Verbo, Advérbio, Preposição, Conjunção e Interjeição.

Já aqui há uma controvérsia. Nessa mesma NGB, na segunda parte, inciso VII, após explicitar o Advérbio, a nota b), de rodapé, diz: “Certas palavras, por não se poderem enquadrar entre os advérbios, terão classificação à parte. São palavras que denotam exclusão, inclusão, situação, designação, retificação, realce, afetividade etc.”

Ora, ao dizer “terão classificação à parte”, o próprio texto faz concluir, obrigatoriamente, que essas palavras constituem uma nova classe: a DÉCIMA PRIMEIRA das DEZ classes de palavras!

Por DENOTAREM circunstâncias e situações, são chamadas de “PALAVRAS DENOTATIVAS”...

 

Voltando aos Pronomes Demonstrativos, esta é sua “família”:

Este, esta, isto. Esse, essa, isso. Aquele, aquela, aquilo. Aqueloutro, aqueloutra. Mesmo, mesma. Próprio, própria. Tal. Semelhante. O, a. Considerem-se aqui também as flexões plurais.

Sua função é indicar a posição dos seres com referência, em princípio, às três pessoas do discurso: a primeira, aquela que fala (eu/nós); a segunda, aquela com quem se fala (tu/vós) e a terceira, aquela de quem se fala (ele/eles ou ela/elas). Vamos ao seu uso na prática.

 

ESTE, com “T”, é usado em referência a algo próximo da pessoa que fala: eu ou nós.

 

            – Este livro, que tenho em minhas mãos, foi presente de meus alunos.

 

ESSE, com “S”, relaciona-se ao que está perto da pessoa com quem se fala: tu ou vós.

 

            – Essa revista Apólice que está com você tem excelentes artigos.

 

AQUELE, refere-se a algo distante dos dois ou junto da pessoa de quem se fala: ele, eles ou ela, elas.

 

                 – Aquele carro, que está perto do Pedro, já foi meu.

 

Os casos acima fazem referência à localização de algo ou alguém no espaço: junto (este), próximo (esse) ou distante (aquele). Entretanto, há que se considerar, numa narrativa, também a referência que se faz a fatos anteriores – quando se usa ESSE – e a fatos posteriores – quando se aplica ESTE.

A título de ilustração, o início deste artigo admitiria as duas formas, feitas as devidas adequações.

 

ESSA é uma fonte de dúvidas frequentes e renitentes. Quando usar um ou outro desses Pronomes Demonstrativos?

Aqui a referência está sendo feita ao título, isto é, a algo anterior à frase. Outra construção seria:

 

ESTA é uma fonte de dúvidas frequentes e renitentes: quando usar um ou outro desses Pronomes Demonstrativos?

Já aqui, o Pronome se refere à frase explicativa que vem a seguir. Portanto, fato posterior.

 

Os mesmos princípios vistos até aqui, aplicam-se às formas derivadas desses termos, como: deste, desta, disto; desse, dessa disso; daquele, daquela, daquilo. Neste, nesta, nisto; nesse, nessa, nisso; naquele, naquela, naquilo.

Uma informação complementar importante é que as formas O, A, OS, AS classificam-se como Pronomes Demonstrativos quando equivalem a isto, aquilo, aquele, aquela, aqueles, aquelas.

 

O momento permite registrar uma curiosidade. Algumas línguas, como o Inglês e o Alemão, por exemplo, possuem o neutro, como flexão de gênero.

Em Inglês, os pronomes são: HE para o masculino singular; SHE para o feminino e IT para referir-se a animais e coisas. “He is a man”; She loves books”; “It is a wonderful world”. “It’s a dangerous dog”.

 

Em alemão, as formas são ER para o masculino; SIE para o feminino e ES para o neutro. E os artigos correspondentes são DER, DIE e DAS.

Há um livro famoso, cujo autor – Galsan Tschinag – curiosamente é mongol. Nascido em 1944, em Bayan-Ölgiy, no oeste da Mongólia, estudou alemão na Universidade Karl Marx, de Leipzig, e escreve nesse idioma. Além de escritor, é também professor, ator, xamã e chefe tribal. Uma de suas obras mais conhecidas chama-se “Der Mann, die Frau, das Schaf, das Kind” – “O homem, a mulher, a ovelha e a criança”.

 

E aqui vai mais uma curiosidade: na língua alemã, criança é neutro! Outra: todos os substantivos são escritos com inicial maiúscula.

 

No latim antigo, havia também o neutro, que se conservou no Adjetivo. Quem passou pelo estudo dessa língua, deve lembrar-se bem do “Bonus, bona, bonum”, que simplificávamos para “Bonus,a,um”!

Bonus, bom; bona, boa e bonum, bom ou boa, aplicável a coisas ou animais...

 

Em português, não temos o neutro.... Entretanto, um resquício dele está presente nos Pronomes Demonstrativos vistos acima: Este, esta, ISTO; esse, essa, ISSO; aquele, aquela, AQUILO!

Por isso aquela sogra – maldosa como boa parte delas – assim apresentava a família: “Esta é minha filha; este é meu neto; e ... ISTO é meu genro”! 

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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