É PÁSCOA. ONDE ESTÃO O COELHINHO E OS OVOS?

 

J. B. Oliveira

 

Na realidade, são duas PÁSCOAS: a judaica e a cristã. Embora mantendo cada uma sua peculiaridade, acham-se intimamente interligadas.

O termo que a designa entre os judeus é “PESSACH”, palavra que significa “passagem”, e que rememora a cerimônia instituída no Egito, na véspera da saída do povo hebreu rumo à Terra Prometida. Representa, por um lado, a passagem da escravidão – que sofriam na terra dos faraós – para a liberdade. Por outro, lembra a passagem do anjo do Senhor que, em cumprimento à última praga, traria a morte a todos os primogênitos, menos àqueles cujas casas estivessem com suas portas marcadas por um sinal muito especial. Numa terceira acepção, pode simbolizar também a milagrosa passagem a seco pelo leito do mar Vermelho. O livro de Êxodo – o segundo na sequência bíblica – narra, no capítulo 12, o evento com detalhes, muitos dos quais bem conhecidos nossos. A começar pelo sinal já referido: o sangue de um cordeiro sem mácula, que seria sacrificado para assinalar e salvar aquela casa. O versículo 14 determina: “Este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo. ”

 

O termo páscoa chegou até nós através do latim PASCHA, vindo do grego PASKHA. Para o mundo cristão, traz igualmente o sentido de passagem. Da morte – como consequência do pecado – para a vida, pela salvação por intermédio de Cristo. A simbologia do sangue do cordeiro imaculado da “Pessach” encontra paralelo no sangue de Jesus, “Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (“Agnus dei qui tollis peccata mundi”) na expressão textual do Evangelho de João, capítulo 1, versículo 29. Por isso, disse Jesus na celebração da última ceia com seus discípulos, ao servir-lhes o vinho: “Isto é o meu sangue, o sangue do Novo Testamento (Nova Aliança) que é derramado por muitos, para remissão dos pecados” (Mateus, 26:28).

Páscoa traduz, também, a vitória de Jesus sobre a morte, pela ressurreição e a gênese do Cristianismo. Rui Barbosa dirá: “De uma palavra anunciada, um ‘surrexit’ emergiu o mundo cristão”!

 

E O COELHO DA PÁSCOA?

É “corpo estranho”, não pertencente a nenhuma dessas fontes. Surgiu com o sincretismo religioso, em que algumas datas e símbolos pagãos se incorporaram ao incipiente cristianismo, como forma de facilitar sua assimilação. “The American Book of Days”, a esse respeito, diz: “Não há dúvida de que a igreja, nos seus dias primitivos, adotou velhos costumes pagãos e lhes deu um significado cristão”.

Ocorre que a festa em homenagem a EOSTRE, deusa da fertilidade e do renascimento, de tradição anglo-saxônica, celebrava o início da primavera, com a volta do sol e das flores, dando NOVA VIDA à terra. Um dos símbolos integrantes de seu culto era a LEBRE (que acabou sendo trocada pelo coelho!). Essa origem se conserva no nome que a Páscoa tem em alemão: OSTERN e em inglês: EASTER. Ora, tradicionalmente, até em nossos dias, associa-se o coelho ou a lebre à ideia de FERTILIDADE, por sua rápida e fértil reprodução. Assim, ofertar um desses animais a alguém trazia implícito o sentido de desejar-lhe PROSPERIDADE. 

 

BEM, E O OVO DE CHOCOLATE?

Este, por fim, completa o quadro simbólico. O ovo é a representação da VIDA LATENTE, aquela que vai surgir, ou ressurgir, como as flores na primavera. A pessoa que o oferece a outrem, deseja-lhe a conservação da vida, a LONGEVIDADE.

No início, os ovos eram de galinha, cuidadosamente decorados. Em alguns países do leste europeu, o hábito ainda persiste. A Ucrânia, por exemplo, é famosa por seus PÊSSANKAS, ovos coloridos à mão, desde os tempos mais remotos. Era tradição, entre muitos povos daquela região europeia, dar-se a troca de ovos no Equinócio da Primavera (21 de março), que marcava o fim do inverno e o início da primavera. Para obter uma boa colheita, os agricultores enterravam ovos nas terras que cultivavam.

No Novo Mundo, o ovo de galinha passou a ser substituído pelo ovo de chocolate que – cá entre nós – é muito mais saboroso. E... muito, muito mais calórico!

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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