A EDUCAÇÃO E A ÉTICA

 

J. B. Oliveira (*)

O problema da educação é dos mais sérios no Brasil. Mais do que isso, é fonte de muitas das mazelas que assolam o país. Temos maus políticos porque o brasileiro vota mal. Vota mal porque sua precária educação básica lhe impossibilita o acesso a estudos mais avançados, condenando-o a permanecer na zona cinzenta do subanalfabetismo ou, em termos mais comuns, do “analfabetismo funcional”, fenômeno que, como estatisticamente comprovado, vitima 74% de nossa população.

 

A este problema soma-se outro, nascido no mesmo berço da educação inferior: o subemprego, que lhe proporciona apenas um subsalário, condenando-o a viver numa submoradia, e a amargar uma subvida.  A essa altura, aqueles que não são dotados de caráter bem formado – formação de berço, evidentemente –, facilmente resvalarão para o submundo do crime, um “mercado de trabalho” sempre receptivo e que, por isso mesmo, cresce a cada dia que passa. Afinal, ali não se exigem formação escolar, testes, carta de recomendação, experiência anterior e – muito menos – “ficha limpa” ou atestado de bons antecedentes!

 

Esse curto raciocínio permite concluir que, se cuidarmos bem da educação, estancaremos uma hemorragia de problemas de natureza econômica, cultural, social e política. E a primeira medida há de ser solucionar a velha questão do MAGISTÉRIO. Os professores estão desmotivados. E com toda razão: recebem um salário tão insignificante que são obrigados a lecionar em várias escolas durante o dia e parte da noite para assim reunir aquilo de que necessitam para viver. Em consequência, falta-lhes tempo tanto para preparar suas aulas quanto para preparar a si mesmos. Reclamam, também, da falta de um plano de carreira consistente e coerente, que lhes permita ascender na atividade.

 

E então emerge uma questão ÉTICA.

 

Com cansativa frequência, as tardes têm sido caóticas na região nevrálgica da capital; professores desenvolvem passeata de protesto a partir da avenida Paulista, em direção ao centro, aumentando a confusão do já catastrófico tráfego da área.

 

Como professor, sou solidário à reivindicação – por todas as razões, justa – dos colegas. Compreendo que é uma das poucas formas que lhes restam para procurar sensibilizar o governo e a população, pois de outra maneira não serão ouvidos nem vistos. É oportuna, porém, uma ponderação. Pode até ser justificável lançar mão desse recurso extremo. Entretanto, prejudicar toda a população em nome de um pleito da categoria, será de boa ÉTICA? Dar um mau exemplo, pela perturbação da ordem pública e geração de tumulto, será, para seus próprios alunos, uma postura ÉTICA?

 

Condenado injustamente à morte, o filósofo Sócrates recebeu um grupo de discípulos em seu cárcere. Tinham vindo comunicar ao mestre que haviam montado para ele um plano de fuga, de modo que não fosse cumprida a pena indevida. Sócrates recusou veementemente, ainda uma vez ensinando:

 

“Devemos cumprir as leis, ainda que injustas, para não dar pretexto aos maus para descumprir as leis justas”!

 

Quando sua mulher Xantipa, questionou, indignada: “Você vai deixar-se matar sendo inocente? ”

 

ele respondeu com singeleza:  “E você preferia que eu fosse culpado?”

 

Não é fácil, na prática, aplicar o rigor dos princípios éticos. Mormente em situações tão críticas quanto esta enfrentada pelos professores, diante da renitente surdez e inércia de um poder público insensível e catatônico. Mas, nesse caso, os fins justificam os meios?

 

E se em vez de manifestar-se no dia “D” de cada semana, no horário de pico e nos pontos mais complicados para a população, os professores se dirigissem diretamente aos locais em que se encontram as autoridades a quem compete resolver a questão? Se, à semelhança de nossos vizinhos argentinos, eles se dispusessem a fazer um “panelaço” (final, a panela está vazia mesmo...) e um “buzinaço” em frente a seus respectivos gabinetes?

 

Um movimento cuidadosamente planejado, bem articulado, com faixas expressivas, cartazes de textos firmes e contundentes, caminhão de som, oradores bem preparados com discursos coerentes e eficazes – tudo isso precedido de ampla divulgação por toda a mídia – seria algo muito mais funcional junto às autoridades e bem mais simpático para com a sociedade. A imprensa, sem dúvida alguma, compareceria e daria destaque ao evento, tanto pelo conteúdo, como pela forma da reivindicação!

 

A atividade do magistério é importante demais para ser maculada por atos que esbarrem no descumprimento da ética. Não será ocioso lembrar o que se ouve repetidamente: “O magistério é um sacerdócio”. Ou o que declarou nosso Imperador D. Pedro II:

 

“Se eu não fora imperador, gostaria de ser mestre-escola”!

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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