DUAS PERGUNTAS PERTINENTES. E PREOCUPANTES

 

*J. B. Oliveira

 

A primeira das interrogações refere-se a uma frase que tem sido repetida à exaustão: “Que mundo vamos dar aos nossos filhos? ”

 

De fato, ao contemplar o que está acontecendo em nossos dias, preocupa-nos pensar em que mundo viverão nossos filhos. Os últimos tempos têm trazido um incrível amontoado de dificuldades e problemas que comprometem a qualidade de vida e a própria vida. Até o final do século XIX, a tônica era a tranquilidade e o mundo respirava paz e romantismo. Mal iniciado o século XX, porém, a humanidade foi abalada – pela primeira vez em sua história – por uma guerra mundial, fenômeno até então desconhecido e que vitimou milhões de seres no período de 1914 a 1918. Apenas alguns anos depois, ocorre a segunda conflagração mundial, muito pior que a primeira, pois trouxe, em seu bojo, a monstruosidade do genocídio, representado pelos campos de extermínio e pelas bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, que dizimaram, em instantes, muitos milhares de vidas humanas e deixaram terríveis sequelas, que perduram até hoje.

 

Mais que isso, além da violência nos campos de batalha, instalou-se a guerra no mundo civil, presente nos assaltos, roubos, sequestros, chacinas, guerrilha urbana e rural, as ações abusadas do crime organizado e, enfim, a violência generalizada como jamais se vira ou sequer se imaginara.

 

Por outro lado, as respostas da “mãe natureza” às agressões que tem sofrido, começam a gerar sérias consequências! O degelo da calota polar significa problemas de proporções crescentes e contínuas: áreas à beira-mar correm o risco de desaparecer! Outro fenômeno, a progressiva diminuição da camada de ozônio, representa grave ameaça, uma vez que a incidência direta dos raios ultravioleta sobre a Terra pode torná-la estéril e inabitável! Se acrescentarmos a isso a degradação do meio ambiente, vinda da constante poluição do ar e da água, teremos o retrato do caos em “preto e preto”! Se não adotarmos medidas urgentes e enérgicas, esse é o mundo que vamos dar aos nossos filhos!

 

A outra interrogação – menos ou nunca feita – é esta: “Que filhos vamos dar ao nosso mundo? ”

 

Se o mundo, nesse período, sofreu tanto desgaste e deterioração, não foi diferente o que ocorreu no seio da primeira instituição humana: a família! A antiga conversa no lar, após a refeição, cedeu lugar à comunicação televisiva. De início, ainda havia certo convívio: como era um só aparelho, reuniam-se todos a seu redor e, pelo menos nos intervalos, podiam falar alguma coisa. Depois, com a popularização da TV, cada membro da família passou a assistir a SEU programa em SEU aparelho, isolando-se dos demais. A seguir, a “irmã mais nova e mais cruel” da TV – a Internet – assumiu o comando. A partir de então, adolescentes e crianças deixaram de conversar com os pais e de brincar com os amigos. Abandonaram o hábito da convivência e se fecharam cada vez mais em seus próprios “feudos”: chats, comunidades whatsApp, Messenger, blogs, e-mails e que tais. E os pais sequer imaginam o que eles estão vendo, com quem e o que estão falando... Os resultados mostram que não tem sido a melhor opção. Desvirtuamento de conduta, comportamento agressivo e até assassino, pedofilia, induzimento ao suicídio e à bulimia são alguns dos “ensinamentos” colhidos. Em consequência do isolamento, os jovens se tornaram mais insensíveis, individualistas e frios. Passamos a conviver com situações antes inimagináveis, como fatos episódicos – já se tornando comuns - de jovens assassinando pais, irmãos, avós e outros membros de sua família!

 

Paralelamente, os vícios ganham cada vez mais espaço. Bebida e cigarro, que tanto preocupavam no passado, passaram a ser “café pequeno”, ultrapassados que foram pelos muitos tipos de drogas, cada uma mais terrível e letal que as outras. As estatísticas mostram que, em larga escala, os crimes mais violentos são praticados por bandidos sob efeito de drogas. Outra constatação é que, também em grande proporção, são delinquentes jovens. Há outro fato a ser considerado: a delinquência juvenil deixou de ser “privilégio” das camadas sociais mais humildes, de baixa renda. Jovens de classe média, média alta e até alta classe vêm figurando no rol de crimes. Muitos são universitários, pertencem a famílias abastadas e não precisariam recorrer à prática criminosa para ter dinheiro e bens.

 

Seria possível detectar que fatores teriam levado nossos jovens a essa drástica transformação?

 

Reconhecendo que poderá haver outras, ouso apontar uma causa, bem característica de nossa época. É o alheamento dos pais – especialmente da mãe – em relação aos filhos. O pai mantém-se ausente porque sua luta pelo “pão de cada dia” ocupa cada vez mais seu tempo. A mãe viu-se obrigada a trabalhar fora para ajudar a equilibrar o orçamento familiar e, tal qual o marido, sai pela manhã e retorna à noite... Ambos extenuados. Tiveram, então, de terceirizar a tarefa de cuidar dos filhos...

Ocorre que, entre “funções indelegáveis” destaca-se a da paternidade! Não há pai substituto. E muito menos mãe! A ausência de um deles ou de ambos cria um “vácuo emocional” que o filho buscará preencher, de uma forma ou de outra. E essa busca poderá levá-lo, em sua inexperiência, ao vício, à violência, às drogas ou à bebida. E qualquer dessas opções é meio caminho para o crime!

 

Esse verdadeiro círculo vicioso precisa ser quebrado, pois somente dando bons filhos ao nosso mundo, poderemos dar bom mundo aos nossos filhos!

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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