PLEONASMOS: ESCRACHADOS, DISSIMULADOS E SUTIS... 

“pleonasmo sm (gr pleonasmós) Gram Repetição, no falar ou no escrever, de ideias ou palavras que tenham o mesmo sentido. É vício quando empregado por ignorância ou inconsciência: subir para cima; é figura quando propositado, para dar força à expressão: vi com meus próprios olhos.

 

Aí está a definição que o respeitado Michaelis Moderno Dicionário da Língua Portuguesa atribui a esse elemento linguístico “político” chamado pleonasmo. Político, porque fica “em cima do muro”: ora está de um lado, ora do outro. A própria definição lhe dá essa ambiguidade, ao “esclarecer” que ele pode ser vício ou figura de linguagem...   De minha parte, prefiro enquadrar os pleonasmos nas três categorias tomadas para título deste artigo: ESCRACHADOS, DISFARÇADOS E SUTIS.   O vocábulo escrachado é definido pelo já citado Michaelis nestas palavras : “Diz-se de indivíduo identificado criminalmente e cuja fotografia fica exposta em quadro na polícia, como aviso ao público, dada a periculosidade da pessoa”; e pelo Novo Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa nestas: “1. Que tem ficha na polícia. 2. Claro, patente, evidente, declarado, manifesto, desmascarado...   ESCRACHADOS, portanto, são os casos de redundâncias gritantes, horrorosas, totalmente dispensáveis, ao estilo de subir pra cima, descer pra baixo, sair pra fora, entrar pra dentro...   Quem é que não sabe que subir só pode ser para cima? Que não há como descer senão para baixo? Que não dá para sair para dentro nem entrar para fora?   Na mesma categoria também se incluem as variações sair fora do assunto, entrar dentro da sala e que tais. É impressionante o número de pessoas, mesmo aquelas de certa cultura, que incidem nesses erros. E isso justifica seu nome: VÍCIOS. São alguma coisa como maconha, cocaína, crack, LSD e outras drogas, que aprisionam e escravizam seus usuários...   DISSIMULADO é um adjetivo que recebe, de Aurélio, a seguinte conceituação: “1. Encoberto, disfarçado. 2. Que tem por hábito dissimular, astucioso, fingido, hipócrita, simulado.” Para Michaelis, seu significado é: “1. Que tem por costume dissimular; calado, fingido. 2. Oculto, coberto, disfarçado. 3. Astuto, manhoso, pérfido.”   Os DISSIMULADOS são mais difíceis de perceber, exatamente porque são... dissimulados! Quem fala, por exemplo, encarar de frente não se dá conta de que encarar é um vocábulo parassintético (???!), isto é, formado pela aglutinação simultânea de um prefixo e um sufixo à palavra primitiva CARA, assim: em + CARA + ar. Logo, enCARAr só pode ser de frente, isto é DE CARA! Na mesma linha, encontram-se frases como conviver junto – em que o prefixo com já deixa claro que se está falando em viver com, ou seja, junto –; monopólio exclusivo, uma vez que o prefixo mono quer dizer uno, único, portanto, exclusivo – e plebiscito popular em que o termo plebiscito já se traduz por manifestação do povo!   É muito comum ouvirmos pessoas dizerem “Um pequeno detalhe”, sem se dar conta de que mestre Aurélio ensina que detalhe é “1. Particularidade, minudência, minúcia, pormenor”. Logo, se é detalhe, é pequeno!   Nessa esteira seguem expressões desta ordem: goteira no teto (ela jamais poderia estar no piso...); estrelas no céu (onde mais elas poderiam estar?) e sorriso nos lábios (essa dispensa comentários...). E, para ficar por aqui, mais estas: cardume de peixes, enxame de abelhas e multidão de pessoas... Ora, cardume é coletivo de peixes, assim como enxame o é de abelhas e multidão de pessoas...   Os pleonasmos SUTIS, por fim, são aqueles quase imperceptíveis, que exigem “sintonia fina” para serem detectados. Quem já recebeu solicitação para comparecer pessoalmente a determinado local por certo não percebeu que aí está, escondidinho, um pleonasmo, pois não há outra forma de comparecer que não pessoalmente! A solicitação pode trazer até um limite extremo para isso, sem que ninguém perceba que se é limite, nada há além dele, logo ele é extremo! É isso acontece em todos os países do mundo (Ora, os países só podem ser do mundo...). Pode até tratar-se de um caso de roubo de objeto alheio (embora ninguém possa roubar qualquer objeto que seja seu...) e, nesse caso, algumas pessoas vão cochichar baixinho e outras, ao contrário, vão gritar bem alto. Claro, porque não há meios de cochichar alto nem de gritar baixinho...   Desse tipo requintado de pleonasmo, nem a área do Direito escapa! Vez por outra, deparamos com frases como: acordo amigável e lugar incerto e não sabido! (Jamais vi um caso de acordo litigioso. Se é acordo, é amigável. Por outro lado, haverá algum lugar incerto que seja sabido?). Pois é, nem mesmo a Constituição se safou dessa! Seu Artigo 1° declara que a República Federativa do Brasil “constitui-se em Estado Democrático de Direito”! Pergunto: é possível haver um Estado de Direito que não seja Democrático e vice-versa?  

 

*

J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista. É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras. - www.jboliveira.com.br – O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo..">O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo..

PLEONASMOS: ESCRACHADOS, DISSIMULADOS E SUTIS...