Uma palavra para ser usada... com cuidado!

A bem da verdade, TODAS as palavras deveriam ser usadas com cuidado!

E não sou quem o diz, mas alguns grandes pensadores e sábios. Para Rudyard Kipling “As palavras são a mais poderosa droga utilizada pela humanidade”. Um texto budista proclama: “Nem o veneno mortal nem a espada aguçada é tão fatal como a palavra maldosa”.  Em carta escrita a seu amigo Voltaire, Frederico II, o Grande, rei da Prússia, diz: “As palavras ferem mais do que punhais e o modo de dizê-las, mais do que as palavras”, ao passo que um provérbio árabe declara: “Pode-se curar a ferida feita por uma espada; jamais a feita por uma palavra”. Próximo de transferir o poder na Espanha ao jovem príncipe Juan Carlos, assim lhe fala o Generalíssimo Franco: “Sê senhor de teu silêncio para não seres escravo de tuas palavras”. Até Madre Tereza de Calcutá, hoje santa, dá sua contribuição: “Todas as nossas palavras serão inúteis se não brotarem do fundo do coração. As palavras que não dão luz aumentam a escuridão”. Jesus Cristo, porém, vai além, ao advertir: “Por tuas palavras serás justificado e por tuas palavras serás condenado”, “Eu vos digo que de toda a palavra ociosa que os homens disserem hão de dar conta no dia do juízo”.

 

Após essas considerações filosófico-literárias, vamos à tal palavra.

Entrevistada no programa Fantástico, do Globo, sobre a discutida questão da reforma do ensino, uma jovem estudante disse: “Eu estava numa escola pública, mas agora vou para uma privada”!

É verdade que, nas aulas redação, os professores – entre os quais me incluo – ensinam que, para tornar o texto mais leve, devem-se evitar as palavras supérfluas, facilmente entendíveis. Esse fenômeno tem até um nome: elipse, que a gramática define como “eliminação de um termo facilmente subentendível”. Fernando Henrique Cardoso, a esse respeito, lembra a expressão atribuída a Carlos Drummond de Andrade: “Escrever é cortar palavras”. “Atribuída”, pois o próprio poeta confessava não ser sua. É mais provável que tenha sido do escritor inglês John Ruskin, e presente na historieta, que fala do feirante de peixe que escreveu na lousa, em sua banca: HOJE VENDO PEIXE FRESCO, e pediu a opinião de um amigo. De imediato, este observou ser desnecessária a palavra HOJE, por óbvio. A sugestão foi acatada, e na lousa ficou apenas VENDO PEIXE FRESCO. O outro então asseverou que ninguém estava oferecendo peixe grátis, logo, o verbo era dispensável. Mais uma vez de acordo, o feirante apagou o termo, deixando somente PEIXE FRESCO. Aí, a ponderação foi que, numa feira, o peixe que se vende não é congelado, logo, só pode ser fresco, tornando dispensável o adjetivo. Em consequência, apenas a palavra PEIXE permaneceu na placa. E aí o amigo arrazoou, com clara lógica, que qualquer pessoa – mesmo cega – não teria a menor dificuldade em saber que era peixe que se vendia naquela banca... O feirante então apagou a última palavra, retirou a lousa e, nem por isso, deixou de vender todo seu estoque!

 

No caso da entrevistada, entretanto, a supressão do vocábulo não cheirou bem! Sua omissão criou uma frase cacofônica (de mau som). Para evitar o problema, se não quisesse repetir a palavra “escola”, ela deveria ter substituído o termo “privada” por “particular”, que tem o mesmo sentido: “Eu estava numa escola pública, mas agora vou para uma particular”. 

A história política brasileira registra o caso de um militar – aliás um extraordinário militar – Marechal do Exército Brasileiro, reconhecido por seus hábitos metódicos, respeito à hierarquia militar e ao governo constituído, que exerceu em duas ocasiões o cargo de ministro da Guerra. A primeira foi no governo de Café Filho (24/08/1954 – após o suicídio do presidente Getúlio Vargas, a 08/11/1961 – deposição de Café Filho). A segunda, no de Juscelino Kubistchek (1956 – 1961). Na campanha que se desenvolveu em 1960, para sucessão de JK, o Marechal foi candidato à presidência, concorrendo com Jânio Quadros. Mais habituado à caserna do que à vida político-social, não tinha muito pendor para o exercício oratório. Conta-se que, num discurso em Belo Horizonte, teria proclamado, em alto e bom som, este primor:

 

“Comprometo-me – se for eleito – a fazer na vida pública o que sempre fiz na privada”!

Não foi eleito! 

 

J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.

É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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