O xis da questão...

Além de ser uma letra do alfabeto, o X apresenta uma polivalência simplesmente incrível! Na álgebra, martiriza os estudantes como símbolo da incógnita nas equações; em aritmética, indica uma das quatro operações básicas; na gramática, está presente na classe dos numerais, equivalendo ao número 10 em algarismos romanos! Na formação do ser humano, é o cromossomo que vai caracterizar o sexo masculino (XY) ou o feminino (XX). Na gastronomia de lanchonete, está na frente do gostoso X-Burger... Nos laboratórios, é famoso no Raio X. Nos contos infanto-juvenis, faz-se presente para assinalar onde está enterrado o tesouro! Nesta mesma seara, nomeia um grupo de super-heróis: X-Men. Nas festas de fim de ano, se recebermos cartão de Natal do exterior, certamente trará votos de Merry Xmass.

Talvez por isso o ex-titular (olhe o xis aí, gente!) da 8ª posição entre os milionários do mundo, tenha inserido essa letrinha milagrosa na maioria das 14 empresas que integravam o grupo EBX, sigla composta por suas iniciais Eike Batista, mais o x, que, segundo ele: “representa a multiplicação e acelera a criação da riqueza”. E não é que ele deu ao livro que escreveu o sugestivo título de “O xis da questão” – “A trajetória do maior empreendedor do Brasil”, publicação da editora Primeira Pessoa?

“O Xis da Questão” é, ainda, o nome de um restaurante localizado na rua Lins de Vasconcelos, no Rio de Janeiro...

 

Quanto a seu uso, ah! esse deve ser o horror dos estrangeiros! Afinal, essa letrinha pode indicar cinco – na verdade, seis – situações fonéticas diferentes. Analisemos as mutações que aparecem nesta frase:

 

  O sexto xarope foi o máximo: exagerado, quase tóxico, mas excepcional.

 

  1. SEXTO: o som aqui é de S. A pronúncia é a mesma de CESTO. É o mesmo caso dos vocábulos texto, expectativa, têxtil (esta palavra é paroxítona, com acento na primeira sílaba...).

 

  1. XAROPE: aqui soa como CH, à semelhança de enxofre, vexame, xeque.

 

  1. MÁXIMO: o som é de SS, da mesma forma que em auxílio, próximo. Vale notar que em italiano a palavra equivalente é massimo. Temos em São Paulo um famoso chef de cozinha que pôs seu nome próprio, Massimo, no restaurante que manteve por muitos anos na alameda Santos.

 

  1. EXAGERADO: aqui o som é de Z, como ocorre em exausto, exame, inexorável. E ao chegar a essa palavra, paramos um pouquinho. Há muuuitas pessoas que pronunciam INECSORÁVEL, achando que é a forma certa. Não é! A origem da palavra é o verbo EXORAR, cuja pronúncia não causa dúvida: é EZORAR. Ora, como o termo derivado acompanha o primitivo, segue-se que a pronúncia correta da palavra que estamos focando é ineZorável.

Há uma composição de Flávio José, chamada “A natureza das coisas”, que a certa altura diz: “A natureza não tem pressa / segue seu compasso / inexoravelmente chega lá”. Um vídeo mostra o autor e outros dez cantores -  entre eles Elba Ramalho, Frank Aguiar e Cristina Amaral - interpretando esse forró e todos cometem o mesmo erro: cantam ineCSoravelmente...

 

  1. TÓXICO: aqui, sim, o som correto é CS, como em sexo, nexo, látex. E também aqui ocorre desvio de pronúncia. Não são poucos os que dizem TÓCHICO! O interessante é que outra palavra – de mesmo berço etimológico – é pronunciada corretamente: TOXINA!

 

  1. EXCEPCIONAL: esta é a sexta possibilidade: x não tem nenhuma função fonética. É como se não existisse, assim: ecepcional! O fenômeno se estende a outras palavras, como exceção, excesso, exceto.

 

Para fechar, vale a pena passar uma vista d’olhos em outros aspectos que envolvem o X e causam incorreções ou dúvidas.

Esterno é nome um osso do peito; externo é relativo ao exterior. Estrato é camada ou tipo de nuvem; extrato é o que se extraiu de alguma coisa, como extrato bancário. Chá é infusão de folhas; xá é o designativo dos soberanos da antiga Pérsia, atual Irã. Cheque é ordem de pagamento; xeque é jogada de xadrez. Tacha é mancha, defeito; Taxa é tributo. Chácara é propriedade rural (em Atibaia, por exemplo...); xácara é narrativa popular em versos. Espiar é espreitar; expiar é remir pagar. Daí vem a expressão “bode expiatório”, que tem origem no culto hebraico dos tempos históricos, descrito na Bíblia, no capítulo 16 de Levítico. Por ocasião do Yom Kipur – o Dia da Expiação – um bode, sobre cuja cabeça tinha o sacerdote confessado os pecados do povo, era tocado para o deserto levando simbolicamente todas suas culpas. Na linguagem figurada de nossos dias, bode expiatório é a pessoa sobre quem os outros fazer recair a culpa por algum erro. Nesse caso, no Brasil, temos verdadeiros rebanhos desses bodes!


J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.

É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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