COMO É QUE É MESMO?

Em uma das turmas de Oratória, observei que um dos alunos − dos mais participativos, aliás, − referia-se com frequência aos valores e encantos do sexo feminino. A certa altura, perguntei-lhe, em tom de brincadeira:

− Você gosta de mulher?

− E como! − Foi sua pronta e entusiástica resposta!

Vi-me então obrigado a pedir esclarecimento:

− COMO É QUE É MESMO? Esse “como” é conjunção subordinativa comparativa ou verbo?

E foi no Treinamento em Comunicação Oral que ministrei para a Prefeitura de Águas de Lindóia, que recebi uma notável contribuição da então Secretária de Educação Sheilla Katzer Bovo. Contou ela que, em resposta à questão “Qual é o objetivo do Conselho de Fisioterapia” uma aluna escreveu:

− O “bejetivo” do Conselho de Fisioterapia é traçar as “meretrizes” da profissão!

(Aqui também, aliás, caberia esclarecer em que sentido foi usado o verbo “traçar”...)

“A linguagem atrapalha” é a expressão usada por Antoine de Saint-Exupéry, mostrando que – em várias circunstâncias – a comunicação em vez de ajudar, complica. De fato, muitas vezes ficamos pensando: “O que é que essa pessoa quis dizer ?”

Exemplo contundente é aquele – largamente explorado pela imprensa – em que, eleito presidente da Câmara Federal, o Deputado Severino Cavalcante, dedo em riste, proclama: “A Câmara dos Deputados não vai ser apenas o supositório do Poder Executivo! ” Indo além das palavras, parece que o que ele pretendeu dizer foi REPOSITÓRIO, que significa “1. Lugar onde se guardam coisas; reservatório, depósito. 2. Coleção de leis ou peças literárias. 3. Soma de conhecimentos. ”

Ainda no campo do Legislativo Federal, um então senador, Presidente da CPI dos Correios revoltado com insinuações a respeito de seu comportamento, declarou alto e bom som:

− Quero demonstrar minha INDIGNIDADE...

Não. Não era bem isso que ele tencionava dizer. Indignidade é “falta de dignidade”. O que o Senador quis expressar foi INDIGNAÇÃO: “estado de desprezo ou cólera inspirado pelo que é indigno”.

Numa das campanhas políticas, houve um debate de candidatos tendo bela apresentador de TV como moderadora. De repente, o “clima” esquentou entre os debatedores, contagiando a platéia. Enérgica, ela advertiu:

− Mantenham a ordem, ou eu mandarei evacuar o recinto!

Depois de uma pequena trégua, a confusão voltou a reinar, e ela não teve dúvida − bradou:

− Já avisei: eu vou evacuar!

Um amigo – na ocasião presidente de um sindicato patronal – fazia confusões terríveis em suas falas. Havia duas palavras, em especial, que somente ele utilizava. Uma delas era ”DEVASADO”, que ele usava ora querendo dizer defasado, isto é: “que apresenta diferença de fase”; ora com a intenção de expressar devassado, ou seja: “local aberto ou franqueado à vista de todos”.  A outra palavra era “DESLUMBRAR”. Com frequência, ele dizia algo como “Quando eu deslumbrei a possibilidade de resolver o problema...”. Ora, deslumbrar é “ofuscar a vista pela ação de muita ou repentina luz. Causar deslumbramento. Causar assombro. ” O termo que ele queria usar era “vislumbrar”, cujo sentido é “entrever, ver indistintamente, começar a surgir”.   

Estávamos em uma reunião, com o orador em plena tribuna, quando uma jovem senhora adentrou o salão. Simpático, o orador referiu-se a ela dizendo que “vinha envolta em uma grande “áurea””... Pois é, pode ter sido simpático, mas foi mais uma “bola trocada”. “ÁUREA” significa “de ouro. Da cor de ouro”. O que ele pensou dizer foi “AURA”, que é “segundo os ocultistas, emanação fluídica que rodeia o corpo humano como uma luz ou fosforescência, observável principalmente ao redor da cabeça”.

AURA liga-se, por sentido, à palavra AURÉOLA, “Círculo de luz com que se orna a cabeça dos santos” e que muitas pessoas confundem com OURELA, que significa “orla, margem, guarnição, cercadura”.

Um novo rico contava numa roda de amigos sua viagem à Europa, dando grande destaque à Itália. Tinha visitado Veneza, Florença, Nápoles, Roma e, é claro, o Vaticano. Os amigos quiseram saber o que, dentre todas as belezas da Cidade Santa, lhe agradara mais. Sem sequer pestanejar, ele respondeu: “Ah! A cópula de São Pedro”!

 “A pressa é má conselheira”, diz a sabedoria popular. Não só má conselheira, mas também péssima companhia para a comunicação. Não raro, ela cria − ou no mínimo amplia − problemas comunicacionais.

Entrando apressada na agência bancária, a moça “bem proporcionada” solicita ao caixa:

− Moço, por favor, veja meus fundos que eu quero ver se eu saco!


J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.

É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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COMO É QUE É MESMO?