A Polissemia e o trágico fim do guia de turismo!

O grupo de turistas, visitando a Suécia, parou junto a um fiorde, contemplando a profundidade daquele abismo. Foi então que um deles disse:

 

 – Foi aqui que, no ano passado, meu guia de turismo caiu e se arrebentou todo lá embaixo!

 

– Que horror! E o que você fez? exclamou uma sensível participante do grupo.

 

– Eu nem liguei, porque ele já era muito velho... Aí o “oh!” foi geral. Todos que estavam junto ao abismo ficaram literalmente abismados! Alguns, até revoltados e irados contra o companheiro de excursão que então, tranquilamente, concluiu:

 

– Fui até à livraria e comprei um guia novo!

 

No caso acima, o guia foi vitimado pela POLISSEMIA, palavra, que tem todo jeitão de enfermidade viral grave, pois parece ligada a ENDEMIA, EPIDEMIA e PANDEMIA! Estas sim, muito danosas à saúde porque se referem a doenças. A última, então, é seriíssima: ela se aplica a uma epidemia generalizada, de que é exemplo a famosa “Gripe espanhola” que, entre 1918 e 1919, matou entre 50 e 100 milhões de pessoas em o mundo!

 

POLISSEMIA, porém, não é tão fatal. Ela apenas designa palavras que têm muitas significações. O mestre Said Ali, assim a define: “Quando um termo se usa com várias acepções, diz-se que há polissemia”. Nossa gloriosa língua portuguesa apresenta inúmeros casos, a começar pela própria palavra GUIA que, como já visto, pode se referir à pessoa que conduz turistas ou à publicação que contém orientações nesse mesmo sentido, ou, nos cultos afro-brasileiros, para indicar um patuá; ou à peça que dirige o movimento do êmbolo das máquinas a vapor, assim como à vara que assenta a empa da vinha; o documento que acompanha mercadorias; o meio-fio, entre a rua e o passeio; ou, por fim, o temível formulário usado para recolhimento de tributos... os DARFS da vida, vinculados à Receita. No caso, à Receita FederAal, mas o termo também se estende à indicação escrita de prescrição médica; à indicação minuciosa e à maneira de preparação de pratos salgados ou doces; à fórmula ou indicação especial para se alcançar um resultado; ao conjunto de rendimentos de um Estado, ou à quantia recebida, ou apurada ou arrecadada e por aí afora.

 

Nessa classificação de polissêmico, inclui-se termo FIO, que apresenta 13 acepções! Pode ser o nome dado à fibra que se extrai de plantas têxteis; à porção de metal muito flexível, de diâmetro muito reduzido; à tênue corrente de líquido que cai sem se desapegar; a eixo, alinhamento; a qualquer coisa sutil, tênue e, entre outras acepções, ao gume de instrumentos cortantes. “O fio da navalha”, por exemplo, tornou-se expressão repetida e relembrada por causa do filme com esse nome estrelado em 1946 por Tyrone Power e Gene Tierney e baseado na obra homônima de Somerset Maugham.

 

A relação vai longe, e abrange vocábulos como CABO, MANGA, MANGUEIRA, EFEITO, POSTO e PONTO – este com 44 acepções diferentes –, e tantos outros, presentes nessa nossa rica, versátil, maravilhosa e maviosa língua portuguesa, tão linda e tão especial que dela disse ninguém menos que o espanhol Cervantes: “O Português é a língua mais sonora e musical do mundo”!

 

A “campeã de audiência”, porém, é a palavrinha LINHA, com suas 46 possibilidades de sentido, espraiando-se por diversas áreas de utilização, das mais simples às mais requintadas. Ela designa o fio de fibras utilizado para coser e bordar; o fio com anzol para pescar; o sistema de fios ou de cabos que conduzem a energia elétrica; o serviço regular de comunicações telefônicas (nem sempre tão “regular” assim... principalmente quando se ouvem as abomináveis mensagens “No momento todas as linhas estão ocupadas”; “Por favor aguarde: em instante iremos atendê-lo”; ou “Não desligue. Sua ligação é muito importante para nós”...)

 

A sucessão traz outras referências, como: série de pessoas ou de objetos dispostos numa mesma direção; traço contínuo de uma só dimensão; traços que sulcam a palma da mão (linhas da vida, da riqueza, da saúde etc.); série de unidades militares em posições alinhadas, linha de defesa (como a famosa Linha Marginot, construída pela França entre 1930/1936, ao longo das fronteiras com a Alemanha e a Itália); processo, técnica, orientação àqueles que “seguem a mesma linha”; vestir-se elegantemente (estar “alinhado”) e muito, muito mais!

 

Outro sentido bastante comum é “andar na linha”, coisa que bem conhecem os usuários dos trens da CPTM,  que, com certa e indesejável frequência, apresentam panes e problemas e obrigam os passageiros, de forma literal, a “andar na linha”!


J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.

É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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