A QUADRA QUE ENQUADRA...

Professor de Oratória, criador de um método próprio para transmitir essa disciplina (Método J. B. Oliveira de Comunicação Integral), venho lecionando Comunicação Oral há longos anos. Os locais e públicos são os mais diversos: Universidades Empresas, Associações de Classe, Sindicatos e por aí afora.

Com frequência perguntam-me:

— Dá para ensinar Oratória em um dia?!

— Sim, tranquilamente, porque o mais difícil eu não preciso fazer, que é ensinar a falar! As pessoas já falam! Eu preciso apenas ensiná-las a falar bem! pois a grande verdade é que a maioria das pessoas fala mal!

— “Peraí”, o certo é a maioria das pessoas fala ou a maioria das pessoas falam?

— Ambas as formas estão corretas, porque temos aí um caso de Concordância Especial. Com expressões como maioria, metade, parte e outras formas de coletivo inespecífico, o verbo pode concordar com o termo-sujeito a maioria e ficar no singular, ou estabelecer concordância com a expressão pluralizada das pessoas e ir para o plural.

Voltando ao tema anterior, a indiscutível verdade é que a maioria das pessoas fala mal, sem aplicar os três grandes balizadores da boa comunicação: Clareza, Coerência e Concisão. Ensinar Oratória é muito mais simples do que parece, e não é questão de quantidade, mas sim de qualidade. As barreiras e bloqueios à boa comunicação oral podem ser resumidos nos versos singelos desta trova, a que dou o nome de “A quadra que enquadra”:

         Tenho somente dois filhos

         Dizia um pai infeliz

         Mas um NÃO DIZ O QUE SABE,

         E outro NÃO SABE O QUE DIZ!

Aí está: o primeiro padece do mal da maioria: a INIBIÇÃO! Embora tenha bons conhecimentos, não consegue verbalizá-los, exteriorizá-los, comunicá-los a terceiros. Quantas vezes lemos obras notáveis, produzidas por famosos escritores e aguardamos, com ansiedade, uma oportunidade de conhecê-los “ao vivo e em cores”, de ouvir seu pronunciamento. Então, surge a chance: uma palestra sua, e lá vamos nós, realizar nosso sonho... e, em alguns casos, o que temos é uma triste decepção: o escritor fabuloso, pródigo em expressões bonitas e bem colocadas, expressa-se mal, apresenta vícios de linguagem, gagueja...! Saímos com uma dúvida cruel na mente: será o orador que ouvimos o mesmo escritor que lemos? Uma coisa é certa, dentro da trova, ele aquele que não diz o que sabe...

O outro filho, o que não sabe o que diz, sofre de um destes dois problemas: DESCONEXÃO verbal ou emocional ou PROLIXIDADE.

A Desconexão verbal ocorre quando a pessoa, no meio da fala, perde “o rumo”, o “fio da meada”! Simplesmente não sabe para onde ir! Repete-se, perde-se num vai-e-vem monótono; avança, retroage, consulta anotações — mas não encontra o que procura... e vai por aí afora, sofrendo e, o que é pior, fazendo sofrer os ouvintes. Na Desconexão emocional, o comunicador se descontrola mental, emocional e até fisicamente! Sua mente vira geleia: por mais que ele queira dali extrair alguma coisa, nada consegue: está tudo em “estado pastoso” — se não “gasoso”! O emocional e o físico “já foram pro brejo”: a garganta insiste em permanecer seca, por mais água que se tome; o coração dispara e parece querer sair pela boca...!

O terceiro problema, Prolixidade, define-se como “o excesso de palavras para transmitir uma idéia”. Aliás, é bom saber que, normalmente, O excesso de palavras presume escassez de ideias! Destaque-se que se a pessoa usa muitas palavras, mas comunica igualmente muitas ideias e informações não é prolixa. Está usando todos os vocábulos necessários para transmitir o que deve ser dito.

A prolixidade ocorre quando a pessoa “fala e fala e NÃO DIZ NADA”! E isso se dá, comumente, quando tal pessoa leva sua comunicação ao nível de detalhes. (Podemos dizer ao nível de — concordando “nível”, que é um substantivo masculino, com “ao”, que é combinação da preposição “a”, mais o artigo masculino singular “o”. O que não podemos jamais dizer é “a nível de”!).

O comunicador que começa por dizer: “Ontem, exatamente às sete horas, quinze minutos e trinta e dois segundos, minto, deveria ser sete horas, dez minutos e trinta e alguns segundos...”

Grifei “minto” porque essa é a primeira pista para identificação do prolixo: significa que ele vai refazer, ainda com mais palavras, aquilo que já disse! Pessoas que falam demais “entopem” logo os ouvidos dos interlocutores, e aí, nada mais é escutado. Então ele passa a falar sozinho... E ficará muito decepcionado se perguntar: “Sobre o que eu estava falando? ” porque ninguém saberá! Em muitos casos, nem ele próprio!

Pois bem, é apenas sobre isso, que temos que desenvolver o CURSO DE COMUNICAÇÃO ORAL. Nada mais do que orientar para o cuidado de usar a FALA, bênção maravilhosa que Deus concedeu só aos seres humanos com CLAREZA, COERÊNCIA e CONCISÃO!


J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.

É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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