Quando o PLURAL não é o plural do SINGULAR...!

Um amigo contou, já há algum tempo, que a organização religiosa para a qual trabalhava realizava anualmente uma Assembleia em que se discutiam os principais acontecimentos e eventos do período. Os trabalhos eram então resumidos em um documento que recebia o pomposo nome de “ANAIS DA ... ASSEMBLEIA ANUAL DA...”

Até aí, tudo bem. Afinal, por dezenas e dezenas de anos esse ritual vinha se repetindo, sem qualquer problema. Até vir a presidi-la um americano, bastante crítico e inovador. Além de tudo, achava-se pleno conhecedor de nosso idioma. E o que fez? Entendendo que, como se tratava de UM documento apenas, e não de vários, o título estava incorreto! Em sua “abalizada” opinião deveria ser ANAL DA...ASSEMBLEIA ANUAL DA...” (E quase foi impresso assim...).

Foi muito difícil demovê-lo de sua ideia e mostrar-lhe que havia “muito mais coisa ente ANAL e ANAIS do que sonhava sua vã filosofia” ...

O problema todo foi que ele deparou com uma questão gramatical delicada, que herdamos do Latim, chamada “PLURALIA TANTUM”: palavras que só existem no plural ou que – em alguns casos – têm significado diferente, conforme estejam em uma ou outra situação.

<p >É bom que se diga que isso não é exclusividade nossa, pois o caso ocorre também em outras línguas. Em inglês, por exemplo, são “pluralia tantum”: clothes (roupa); scissors (tesoura) e trousers (calça). Em russo, dinheiro é den’gi; e em holandês, cérebro é hersenen.

 

“Meu óculos” é uma expressão tão corriqueira, que muitas são as pessoas que a usam sem se dar conta da discordância: o pronome substantivo possessivo no singular e o substantivo no plural. Então, arrazoaria alguém, poderíamos dizer “MEU ÓCULO”! Sim, poderíamos. Se estivéssemos nos referindo a um “orifício circular ou ovalado em parede”; ou “elemento de arquitetura, sendo uma abertura na fachada ou no interior, geralmente redonda ou ovalada”; ou, na linguagem da Marinha, “abertura por onde sai a boca do canhão”.

Resulta, portanto, que a forma gramatical (meio pedante, é verdade, é meus óculos...).

O momento político vivido pelo Brasil é marcado, intensa e reiteradamente, pelo anúncio de casos e mais casos de corrupção, nos mais diversos e inusitados setores. Figurões da alta cúpula governamental, empresarial e política estão sendo desnudados, denunciados, processados e presos, “como nunca antes na história deste país” – para usar uma frase cansativamente repetida em um dos governos recentes do Brasil... – faz até lembrar um antigo samba de Bezerra da Silva, com seu estribilho – que então parecia debochado, mas hoje é a pura expressão da verdade – “Se gritar pega ladrão, não fica um, meu irmão”...

E isso nos remete a um outro caso em que o plural não é o plural do singular: é a triste constatação de que nem sempre as pessoas de BENS são pessoas de BEM!

Há também a considerar, nessa esteira, o fato de serem muitos os bons brasileiros que, trabalhadores dedicados e honestos, conseguem – cada vez com mais dificuldade – obter o ganho para o sustento seu e da família. É a contrapartida por seu esforço árduo e, não raro, mal recompensado. Se é empregado, esse ganho se chama salário. Se, porém, trabalha em atividade própria, chama-se FÉRIA, assim, no singular. O lamentável é que é bem diferente da forma plural FÉRIAS, um período de descanso anual que nem todos podem usufruir.

Uma das homenagens criadas, nas disputas olímpicas do passado, era atribuir ao vencedor, como reconhecimento de seu triunfo, uma coroa de LOUROS. No século XX, mais precisamente em 1936, nos Jogos Olímpicos de Verão, na Alemanha, Hitler esperava que seus atletas superassem todos os demais, pois, no seu conceito, eram representantes de uma raça superior... E foi então que um atleta negro americano, Jesse Owens, ganhou nada menos que quatro medalhas de ouro, nos 100 e 200 metros rasos, no salto a distância e no revezamento 4 x 100 metros, provando que somos todos iguais, que não existe nenhum “übermensch”! Foi ele que ficou com a coroa de LOUROS e não o atleta LOURO do Führer!

Por fim, vale lembrar o caso do fiel que, orando humildemente a Deus, rogava: “Senhor, aumenta as nossas FEZES!” 


J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.

É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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