“AMANHÃ EU VÔ NUM VIM TRABALHÁ....”

Foi com essas palavras que certo funcionário “justificou”, por antecipação, sua ausência ao trabalho. Pelo visto, esse certo funcionário não era um funcionário certo. (Notou como a posição do adjetivo modifica o sentido do substantivo? É por isso que se diz que “as mulheres de certa idade não têm idade certa”!)

Voltando ao funcionário, ele não poderia ter tido apenas: “amanhã eu não virei trabalhar”? Ou, se achasse essa forma construída com o Futuro do Presente muito pomposa, não poderia recorrer ao Presente do Indicativo e falar somente: “amanhã eu não venho trabalhar”? (O emprego do presente com idéia de futuro é muito freqüente na linguagem usual, e dá sentido de maior intensidade ao verbo. Como muitos outros comunicadores de rádio e TV, apreciado jornalista alvinegro (sim, Corintiano! Afinal, ninguém é perfeito!) Heródoto Barbeiro anuncia os intervalos comerciais de seu programa com um sonoro: voltamos em seguida” ou voltamos logo”, e isso soa melhor do que voltaremos em seguida”!)

Basta prestar um pouco de atenção para ouvirmos pessoas dizerem algo como: “Aí ele foi e pegou e disse: ‘eu disconcordo de tudo isso que vocês concordaram”’. A verdade é que ele não foi a lugar algum nem pegou coisa alguma! Apenas disse: (ou poderia ter dito) “Eu discordo de tudo.”

Nas vezes em que, como vice-presidente, assumi a direção das reuniões do sindicato patronal a que pertencia, pedi ao secretário que simplificasse a expressão largamente usada para introduzir as falas dos diretores. “Fazendo uso da palavra, o diretor Fulano de Tal falou...”. Ora, bolas, como poderia alguém falar sem fazer uso da palavra? Por sinais?

Recebi de uma querida colega jornalista de Araraquara — Angélica Bombarda — há algum tempo uma relação de “pérolas do jornalismo” (sim, também jornalistas podem “usar” “colar de pérolas”...). Algumas lembram um célebre bordão da TV: “Isto é incrível!”:

“No corredor do hospital psiquiátrico, os doentes corriam como loucos.”

“Este ano, as festas do 4 de setembro coincidem exatamente com a data de 4 de setembro, que é a data exata, pois o 4 de setembro é um domingo.”

“Quatro hectares de trigo foram queimados. A princípio, trata-se de um incêndio.”

É digno de “respeito” o texto abaixo, inserto (inserto, assim, com “s” é o particípio irregular, reduzido do verbo inserir, e equivale à forma regular inserido) na  revista Veja de 29 de julho de 1998, página 38:

“Conspícuo diretor:

abroquelado em extrema necessidade, epigrafando direito irremovível na ritualidade e sem quiproquó de pergaminho autorizativo, solicito liberação do título cheque, supedâneo da documentação anexa.”

Aristóteles Ferreira, secretário jurídico do

município de Jaboatão dos Guararapes (PE),

em ofício ao secretário das Finanças.

 

Em meu livro “Falar bem é bem fácil”, transcrevo texto do notável jornalista e ex-deputado Sebastião Nery, inscrito em seu livro “Folclore Político”:

“Virgílio Távora, governador, recebeu telegrama do prefeito do Crato:

‘Senhor governador, solicito V. Exa. recursos enfrentar seca município.

Cordiais  saudações.’

 

Virgílio respondeu:

‘Senhor prefeito, aguarde, 19 de março, passagem Equinócio.

Cordiais saudações.’

 

Dia 20 de março, o prefeito telegrafa de novo:

‘Senhor governador, apesar banquete e homenagens preparamos receber condignamente enviado V. Exa., até agora Dr. Equinócio não apareceu.

Cordiais saudações. ’ ’’

 

Um dos fatores de complicação, é a mania de se pluralizar o singular! Há quem cante — e não são poucos — o Hino Nacional Brasileiro assim:

“Se o penhor dessa igualdade conseguimos conquistar com ‘BRAÇOS FORTES’’’

 

 Osório Duque Estrada, ao redigir a letra do Hino, ficou no singular: “BRAÇO FORTE”!

 

E como irá fazer, quem canta “braços fortes”, para fechar a rima, na outra estrofe:

“Desafia o nosso peito as PRÓPRIAS MORTES’?


J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.

É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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