“AS EMPRESAS SE ADEQUAM ÀS NOVAS CONDIÇÕES”

Esse era o título de um artigo estampado em um jornal paulista, há algum tempo (por favor, apenas assim: algum tempo ou, se preferirem, algum tempo atrás mas nunca – como se vê e se ouve por aí – “ algum tempo atrás”, que constitui um pleonasmo inaceitável). Recortei a matéria e levei-a aos alunos do Programa de Reengenharia Gramatical que eu estava ministrando em uma organização. Perguntei-lhes como deveria ser pronunciada aquela flexão verbal: aquam ou adeam? (Os acentos aí estão apenas indicar a maneira como normalmente se ouve pronunciarem essa palavra...).

A questão gerou polêmica, com defensores de uma e de outra opção. Frente a isso, recorri ao velho processo democrático: submeti o assunto à votação plenária. Apurado o resultado do escrutínio, declarei que a forma vencedora – por ampla maioria – fora aquam. Nós a consideraríamos certa e se alguém menos avisado perguntasse “por quê?!” Nós responderíamos: “porque em votação democrática, em nossa classe, essa forma foi eleita por expressiva maioria de votos!”).

Como a “solução” democrática não convenceu (aliás, soluções democráticas nem sempre convencem mesmo...) fui obrigado a apelar para a solução gramatical.

A forma correta é... NENHUMA DAS DUAS!

Nenhuma das duas? Como? Quer dizer que isso é “tipo assim” “pegadinha”?

Sim e não. Não é “pegadinha” porque não se trata de brincadeira. É coisa séria. É Gramática Expositiva da Língua Portuguesa! Mas parece “pegadinha” porque deixa muita “gente boa” num “beco sem saída”!

Vamos procurar entender o que se passa. Os verbos em português classificam-se em: regulares, irregulares, anômalos, defectivos, abundantes e auxiliares.

Os defectivos são aqueles que apresentam defecção (eu disse defecção, não confundam com outra palavra muito semelhante na forma, mas diferente no sentido...). E defecção é o mesmo que falha, falta, defeito. Assim, verbo defectivo é aquele que é falho, que não possui todas as flexões.

Busquemos um exemplo. Suponhamos que eu diga a alguém: “Fulano, você pode colorir este desenho para mim? ”. E ele responda: “pois não, Professor, pode deixar que eu... coloro? coluro? colírio?

Outro exemplo: “Você pode ajudar-me a reaver meu livro de Português”. “Sim. Pode deixar que eu... reavo? reavejo? reavenho?

Perceberam? Esses verbos não possuem as flexões solicitadas, no caso, referentes à primeira pessoa do Presente do Indicativo.

Ora, o verbo adequar também é defectivo. Ele só é conjugado nas formas arrizotônicas! Entenderam agora? Ficou claro? Claro que não! Quem é que lembra o que é isso?

Então vamos lá. As formas podem ser rizotônicas ou arrizotônicas. Rizotônicas são as que têm a sílaba tônica no radical. (Radical vem de raiz. E raiz em grego é riza. Daí resulta que se a sílaba tônica está no radical, a forma é rizotônica. Caso contrário, ela será arrizotônica).

Agora só precisamos lembrar o que é Radical... É a parte que nos verbos regulares, não sofre alterações durante a conjugação. Para chegarmos ao radical, colocamos o verbo no Infinitivo e separamos as duas últimas letras. Elas constituem a parte chamada Terminação. O que “sobrou” é o radical. Observem como é simples:

 

RADICAL       TERMINAÇÃO

ADEQU           AR                  

 

Então vamos conjugar verbo defectivo ADEQUAR no Presente do Indicativo:

 

RADICAL      TERMINAÇÃO         

                   Eu                                            ADEQU        O

                   Tu                                            ADEQU        AS

                   Ele                                            ADEQU        A

                   Nós                                           ADEQU        AMOS

                   Vós                                           ADEQU        AIS

                   Eles                                          ADEQU        AM

 

Bingo! O verbo adequar, no Presente do Indicativo, só pode ser conjugado nas formas ADEQUAMOS E ADEQUAIS!

E as outras formas?

– NÃO EXISTEM!

– E “tipo assim” como fazemos então?

– Usamos verbos sinônimos – que têm significado igual ou semelhante – ou construímos a frase de forma diferente:

 

“As empresas se adaptam às novas condições”.

“As empresas terão de se adequar”.

“As empresas vão se adequar” etc.

 

Em caso de dúvida, não é necessário nem consultar a Gramática. Basta ir a um bom Dicionário como o Aurélio, por exemplo – e ler com atenção o verbete:

 

adequar. {Do lat. Adaequare} V. t. d. e i. 1. Tornar próprio, conveniente, oportuno; apropriar, adaptar: Adequou o provérbio à ocasião. 2. Amoldar, acomodar, ajustar, apropriar. P. 3. Adaptar-se; amoldar-se; acomodar-se, ajustar-se. {Defec. Us. Só nas formas arrizotônicas: adequamos, adequais, adequava; adequei; etc.)

A conclusão é bastante óbvia: precisamos estar sempre atentos ao que escrevemos e ao que falamos. Há muitos outros verbos “defeituosos” e, ao usá-los de forma incorreta, defeituosa também passa a ser a nossa comunicação! E, parodiando o “Velho Guerreiro” Chacrinha:

 

“Quem não se comunica BEM, se trumbica TAMBÉM”! idth: 0px;">J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.


É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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