A IMPORTÂNCIA DO LAZER

Em um exame vestibular ocorrido há alguns anos, esse era o tema da redação. Simples, não? Afinal, qualquer pessoa sabe que é cada vez mais intenso e frenético o ritmo de trabalho que nos é imposto pelos tempos modernos. “Tempos Modernos” é precisamente o título do excelente filme em que Charles Chaplin demonstra esta triste realidade: o ser humano “engolido” pelas máquinas da Produção, a ponto de se tornar neurótico, psicótico!

Um antigo padrão americano recomendava, como distribuição ideal do tempo, o “three eight” —  três oitos —  oito horas de trabalho; oito de descanso e oito de lazer! Só que, aqui no Brasil, “não pegou”: se não temos tempo sequer para o descanso, como falar em lazer?

Voltando à redação para o exame vestibular, eis o resultado: a maioria dos vestibulandos dissertaram (Opa! O certo não é dissertou? O sujeito não é maioria, um substantivo singular? E a regra geral de concordância não ensina que “o verbo concorda com o sujeito a que se refere”? Sim, está certo, porém {e há sempre um porém...}, quando o sujeito é representado por uma palavra desse tipo e que venha “acompanhada de expressão determinante pluralizada, ficará o verbo no singular ou no plural, indiferentemente”). Pois bem, a maioria dos vestibulandos dissertou — ou dissertaram — sobre o LASER!

Ora, laser não é palavra pertencente ao vocabulário da língua portuguesa. Tanto que sua pronúncia é “lêiser” e sua origem são as iniciais de light amplification by simulated emission of radiation. Um bom observador notaria que ela é grafada com “S” e não com “Z”. A par disso, por se tratar de palavra estranha ao vernáculo, deve ser escrita em itálico (assim, com letras inclinadas) ou entre aspas!

Confusões oriundas de palavras estrangeiras são tão comuns e antigas que uma velha expressão italiana já alertava: “traduttore traditore”, isto é: “tradutor traidor”! É muito comum encontrarmos absurdos em traduções e versões, principalmente em letras de música e em filmes!

Nos meus bons tempos de Escola Militar, uma música fazia sucesso: “Pretenda”. A letra, traduzida do inglês, dizia: “Pretenda sempre ser feliz, esqueça todo dissabor. Quem ama alguém a quem já quis, não pode, amor, viver feliz...”

A coisa fica meio sem sentido, não fica? Ora, quem é que não pretende ser feliz?

O que aconteceu foi que traduziram como “Pretender” o verbo “To pretend”, cujo sentido é “Fingir”. (O verbo inglês correspondente ao nosso “pretender” é “to intend”!). Aí, sim, passou a ter senso: “Finja sempre ser feliz...”

Alguns anos atrás (Importante: aplique uma destas duas formas: “Alguns anos atrás” ou “Há alguns anos”. Nunca: alguns anos atrás, porque a flexão verbal “há” nesse caso significa “faz”, e não tem cabimento dizer “Faz alguns anos atrás”. Isso seria pleonasmo... em todos os sentidos!), a TV Bandeirantes exibia um filme em série com um detetive gordo e carrancudo chamado CANON. A chamada nos jornais dizia: “Esta é a cara do mocinho. Imagine a do bandido!” Pois bem, em um dos episódios, Canon chega ao local em que se realiza um casamento e indaga:

Quem é o melhor homem aqui?

Eu sou o melhor homem, responde um dos convidados, levantando a mão.

Estranho, não? Um detetive grandalhão e mal-encarado procurando pelo melhor homem?!

Ocorre que a expressão usada em inglês foi “the best man”, que realmente significa, ao pé da letra, “o melhor homem”. Entretanto, possui também o sentido de PADRINHO, que era o caso naquela circunstância!

Em uma série ainda mais antiga, havia um xerife de origem indígena cujo nome era NAKIA. Diante de uma situação algo complicada, alguém lhe pergunta:

E agora, Deputado?

Não sendo um telespectador assíduo, não me lembrava de tê-lo visto candidatar-se a algum cargo parlamentar. Menos ainda ter sido eleito Deputado! Por que, então, recebia aquela saudação?

Simplesmente porque “Deputy” o termo usado em inglêstraduz-se por Deputado, mas também por DELEGADO, de acordo com a situação a que se refira.

Harrison Ford interpretou, em um filme pouco divulgado denominado “A Costa do Mosquito”, um pastor protestante. A certa altura, em um sermão sobre a escravidão dos hebreus no Egito, ele se refere a um tal de “senhor Farrow”. Como, por aquela época, Mia Farrow estava em bastante evidência, imaginei que poderia ser algum parente dela. Pensando melhor, porém, pareceu-me estranho haver um nome tipicamente anglo-saxônico como Farrow entre os antigos senhores egípcios. O senhor deles era o faraó!

Bingo! “PHARAOH”: “FARAÓ”, foi o que disse Ford!

Agora, um de bang-bang. Dois bandidos assaltam uma diligência, roubam um cofre, colocam-no sobre o cavalo e galopam até uma clareira. Jogam a caixa no chão e um dos assaltantes estoura o cadeado com um tiro, abre a tampa e exclama:

Empate!

O outro apeia de seu cavalo, examina o interior do cofre e confirma:

Empate!

Será, comecei a cogitar, que eles estavam apostando corrida, chegaram juntos e eu, em minha estúpida distração não atentei para esse detalhe?

Posso não ter atentado para o pormenor da corrida, mas prestei bastante atenção ao que foi dito, em bom e claro inglês:

― “EMPTY!”, ou seja: “VAZIO!” (Mas não tanto quanto o cérebro do perspicaz tradutor...)

Mais uma de filme? Pois vamos lá.

Em “Serenata Prateada”, película antiga ainda em branco e preto, e legendada o par romântico termina o jantar em um restaurante chinês, e recebe “biscoitos da sorte”. O galã abre o primeiro biscoito, e a tela mostra o texto inscrito no papelzinho que se encontrava em seu interior: “A wedding coming soon”. Embora, como disse, o filme fosse em branco e preto, a mensagem ficou só “em branco” — não apareceu a tradução —, que seria algo como: “Um casamento chegando em breve”

Ele abre então o segundo papelucho e lê: “Serás sempre um bacharel”.

Um colega, pensei! Mas o que tem a condição de bacharel, seja lá em que área for, a ver com essa situação? Exatamente o que você pensou: NADA!

O texto em inglês dizia: “You will be always a bachelor”.

Bacharel é sim, um dos significados de “bachelor”, mas não o único nem o mais comum, que é “solteirão”!

E por falar em solteirão, conta-se do solteirão argentino que, finalmente, se casa com uma jovem señorita porteña, isto é, de Buenos Aires. A seguir, seguem para Santiago do Chile em viagem de núpcias. O padrinho do noivo manda-lhe um telegrama perguntando como estão se dando “los dos”. A resposta não tarda:

— Yo loco, loco; ella loquita!!!

Maravilla! Belleza! Todo muy bien, pensa o padrinho, e se queda tranquilito.

Pouco tempo depois, voltam os nubentes cada qual tomando seu rumo, totalmente separados. Surpreso, o padrinho vai conversar seu afilhado.

Que passó? Dejiste “Yo loco, loco y ella loquita!!”

No. Yo dijo: “Yo lo coloco y ella lo quita!!!”

         (Em tempo: o verbo quitar significa tirar...)


J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.

É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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