PLEONASMO NOS OLHOS

A bela jovem (de cabelos platinados) encontra a amiga que, notando seus olhos vermelhos, indaga preocupada:

<p >— O que você tem?

—Bem, eu disse a meu chefe que era conjuntivite nos olhos, aí ele me respondeu que isso é pleonasmo. Então o que tenho é pleonasmo nos olhos. E como dói!

E dói mesmo!

Não só doem os olhos – quando lemos – mas também os ouvidos, quando escutamos os clamorosos pleonasmos: repetição desnecessária de termos, expressões ou mesmo ideias já presentes – explícita ou implicitamente – na mensagem.

Somos, por natureza, redundantes – que é o mesmo que dizer pleonásticos. Na linguagem popular, a todo instante surgem frases como subir pra cima; descer pra baixo; sair pra fora; entrar pra dentro...

O fenômeno não fica restrito às camadas mais humildes da população. Não há muito, li em um grande cartaz afixado na Estação Sé do Metrô: “ENCARE O FUTURO DE FRENTE”! De imediato pensei: há outra forma de encarar que não seja de cara? Portanto, de frente?

Mas há exemplos mais sutis, em que o pleonasmo fica tão pouco evidente que quase não é notado. Ocorre quando ele lá escondido, porém presente, ativo! É quando disparamos frases ao estilo de “GOTEIRA NO TETO”; “SORRISO NOS LÁBIOS”; “FATOS REAIS” ou “VINTE HORAS DA NOITE”... Não nos detemos para pensar – antes de falar – que não há qualquer possibilidade de existir uma goteira no chão: só pode ser no teto! De igual forma, o sorriso só pode estar nos lábios, e jamais na testa! Por sua vez, fato há de ser real. Caso contrário seria boato! Por fim, se falamos vinte horas, só pode ser da noite, já que em nosso sistema de pontuar as horas, seguimos de zero até 24 horas. Podemos dizer, se assim quisermos, oito horas da manhã e oito horas da noite...

É muito comum alguém falar em fazer “PROJETOS PARA O FUTURO” como se fosse possível fazer projetos para o passado! E quando áreas do governo se propõem a “CRIAR EMPREGOS NOVOS” pergunta-se: pode-se criar algo velho? Criar não traz consigo, obrigatoriamente, o sentido de novo?

E o que dizer de tantas “promoções inteligentes” que proclamam “GANHE GRÁTIS” isto ou aquilo? Será que imaginam que se possa ganhar pagando? Tenho ouvido com incômoda frequência a expressão “HÁ ANOS ATRÁS”, ofendendo a gramática e a razão. Ocorre que o verbo haver tem, nessa construção, o sentido de fazer. Ora, ninguém com um pouco de lucidez diria FAZ ANOS ATRÁS. A norma gramatical e o bom senso indicam optar por uma destas formas: “HÁ ANOS” ou “ANOS ATRÁS”. Em consequência, a frase seria: HÁ ANOS, eu li essa obra” ou ANOS ATRÁS, eu li essa obra”.

O folheto promocional de um hotel-fazenda, próximo de São Paulo, ao alardear as maravilhas que oferece aos hóspedes, cita que o preço da DIÁRIA é por dia! Isso me fez lembrar da secretária que insistia em dizer que ia “ANEXAR JUNTO” determinado documento! Imaginem quão difícil seria anexar separado !...

Que não se percam, também, casos de “personalidades” que se dispõem a escrever “SUA PRÓPRIA AUTOBIOGRAFIA”, longe – muito longe – de observar que “Auto” vem do grego “Autós”: “por si próprio”; “de si mesmo”...

Foi pelas “ondas hertzianas” da ZYR-84, Rádio Liberdade de Guaratinguetá, que apresentei meu primeiro programa radiofônico, lá por mil novecentos e não interessa quanto, em plena era romântica do rádio. Lembro-me bem que o programa líder de audiência tinha um título muito sonoro e nostálgico: “RECORDANDO O PASSADO”! Ora, e poderia alguém recordar o futuro? E aí, não deixei por menos: coloquei em meu programa todo integrado por alunos da Escola de Militar da Força Aérea Brasileira – o nome de “AERONÁUTICA NO AR”!

E por falar em nomenclatura militar, não é que há quem insista em dizer “ALMIRANTE DA MARINHA”? e “BRIGADEIRO DA AERONÁUTICA”? Onde mais temos Almirante? e Brigadeiro? (Não vale pensar em brigadeiro de chocolate, como você fez agora!).

Conheço um líder classista – e sua categoria é de grau universitário – de quem ouvi essa pérola: “EM MINHA ÓTICA DE VISÃO, tudo isso está errado”.

O problema é de tal monta que nem mesmo a área jurídica dele escapa! Que tal a expressão “A VIÚVA DO FALECIDO”? Ora, onde encontrar viúva de quem esteja vivo? É também muito comum ouvir-se falar em “ACORDO AMIGÁVEL” o que nos levaria à conclusão de que em algum foro, Brasil afora, possa haver algum tipo de acordo litigioso!

Nesse contexto jurídico, não pode passar despercebida a expressão tão reiteradamente citada que já ganhou até sigla: “LINS: LUGAR INCERTO E NÃO SABIDO”! É caso de se indagar: que lugar no mundo poderia ser incerto e sabido? Ou certo e não sabido?

Mas, cá entre nós, às vezes é bem gostoso sairmos com um pleonasmo bem redundante e até retumbante, como já o fizeram os clássicos da língua! E aí, para que tudo ficasse em paz e ordem, criou-se a distinção: PLEONASMO VICIOSO – que os meros mortais usam – e que é VÍCIO DE LINGUAGEM; e PLEONASMO VIRTUOSO – habilmente manejado pelos Mestres – e que é consagrado como FIGURA DE LINGUAGEM! Nessa classificação, insere-se a frase “FOI O QUE VI ONTEM COM MEUS PRÓPRIOS OLHOS”, que, analisada friamente, é de extrema redundância: se vi, só pode ter sido com os olhos; e se fui eu que vi, não há como não ter sido com os meus olhos; e se eles são meus, segue-se que são próprios, isto é, de minha propriedade! Só que é uma frase de Antonio Calado!

A história política de São Paulo, entre tantas figuras típicas, teve um vice-governador, oriundo da classe militar, que – segundo contam os mais vividos – fazia absoluta questão de deixar clara sua posição frente à população:

— Meu lugar nunca foi na RETAGUARDA DE TRÁS, mas sim na VANGUARDA DA FRENTE!


J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.

É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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