“ESTOU CORRENDO ATRÁS DO PREJUĺZO…”

Tenho ouvido, com irritante frequência, a frase: “Estou correndo atrás do prejuízo!”.

Invariavelmente pergunto: “E quando alcançar o prejuízo, o que você vai fazer com ele?”

É claro que a pessoa não sabe o que responder!

A razão é simples: temos aqui mais uma dessas expressões que as pessoas ouvem e passam a repetir sem refletir sobre seu sentido.

Correr atrás do prejuízo para quê ? Para alcançá-lo?

Cá entre nós: quem de bom senso quer alcançar o prejuízo? Então por que correr atrás dele?

Devemos correr, isso sim,  atrás do lucro! Assim como atrás do sucesso, da prosperidade, do êxito e da felicidade, porque essas bênçãos  nós realmente queremos alcançar!

 

Na linguagem popular, isso se chama: “Ouvir o galo cantar e não saber onde”! (ONDE, viu? E não AONDE, em que o “A” se destina a indicar movimento: “vou AONDE quero”.)

 

Conta-se de certo repórter que foi designado para cobrir determinado evento. Esse, porém, foi adiado para uma data a ser marcada. Ė comum usar-se, para designar um dia não fixado, a expressão latina “sine die”. Baseando-se no que ouviu – e interpretou – o afoito jornalista escreveu: “A reunião de hoje foi adiada e será realizada futuramente no ‘Cine Dias’!”.

 

O mesmo “sine die” deu margem a outro “fora”, agora na comunicação oral. No jornal falado, deparando com uma expressão que lhe era estranha – e que parecia ser de língua inglesa – o locutor não teve dúvida, com voz muito bem impostada, largou um sonoro: “O evento foi adiado ‘saine dai’!

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Há ainda o caso do dentista, com muitos cursos no exterior e equipamentos sofisticados também lá de fora, que não conseguia ligar um aparelho. O texto da instrução não fazia o menor sentido. Ele lia: “paise no pidal” e não tinha idéia do que isso significava. Foi a faxineira que, vendo-o tão atrapalhado com algo tão simples, segredou-lhe: “Doutor, aí está escrito: “pise no pedal”!

 

No CURSO DE COMUNICAÇÃO ORAL – ORATÓRIA MODERNA, precisamente para mostrar o perigo de não saber “onde o galo cantou”, peço aos participantes que digam o que imaginam quando falo “William mastigou leite”!

As opiniões variam muito. Alguns dizem ser isso impossível: não se pode mastigar leite! Outros começam a procurar opções. Em pouco tempo surgem sugestões como coalhada, nata, iogurte, queijo, leite congelado, leite em pó…

Depois de longa e divertida divagação, projeto na tela a frase que, realmente, pronunciei:

 

“William must go late”!

E para aproveitar o ensejo do inglês, lembro do cidadão português que, abrindo escritório nos Estados Unidos, colocou na porta uma placa de indicação de seu nome: “Mr. PAIVA”.

Como em inglês o ditongo ‘AI’ tem som de ‘É’, as pessoas que o procuravam chamavam-no de “Mister PEVA”. Caprichoso, mandou substituir a indicação na placa por “Mr. PEVA”. Ocorre que ‘É’ soa como ‘I’ e, então, passaram a chamá-lo de “Mister PIVA”. Mais uma vez a placa foi trocada, agora  com a inscrição “Mr. PIVA” e aí, para surpresa sua, todos começaram a chamá-lo de “Mister PAIVA”!

 

Aos mais atentos ouvintes, telespectadores e leitores não passou despercebida (por falar em atento, note que a palavra para esse caso é despercebida, que significa “sem ser percebida”   e não como se vê e se ouve por aí afora: desapercebida, que quer dizer desprevenida!) uma alteração ocorrida de tempos para cá nos meios de comunicação. Agora as notícias dizem: “Fulano corre perigo de morte” e não, como antes, “Fulano corre perigo de vida”! Parece evidente que perigo de morte significa “perigo de chegar à morte”, “perigo de morrer”. Mas   “perigo de vida” o que quer dizer? Perigo de viver? Perigo de chegar à vida?

 

Ao saber de meu interesse pela causa política que, talvez, me leve a postular futuramente uma vaga na Câmara dos Deputados, em Braslia, perguntaram-me se eu sabia o que era “correlegionário”.

 

– Não sei, mas imagino que seja a ordem de um centurião romano a um dos membros   de sua legião para que corra!

– Que absurdo é esse que você está dizendo ? Correlegionário é apenas alguém que pertence à mesma corrente política ou ideológica que você ! E “colega de partido”, bolas!

 

– Ah! Então você se refere a correligionário.  Agora ficou mais fácil! Eu tive de imaginar uma imensa legião romana e o comandante da centúria ordenando a um soldado da tropa :

  

Corre, Legionário!

 

Brincadeira à parte, muitos erros seriam evitados com apenas um pouquinho de atenção em relação às palavras ou expressões que são semelhantes. Esse, aliás, era o grande problema da personagem Magda, do antigo programa “Sai de baixo”. Para ela, árvore genealógica era árvore “ginecológica” e médico pediatra era o especialista no tratamento dos pés…

 

O mais curioso é que mesmo pessoas cultas se envolvem nessas trapalhadas verbais. Foi uma advogada bastante experiente, dirigente de uma organização de mediação e arbitragem quem me afirmou, com tranquila seriedade:

 

– Nossa  instituição prisma pela ética e pela honestidade!

 

Não é de estranhar, portanto, que um leigo em assuntos juridicos diga que tem direito a uma propriedade por “uso campeão”(usocapião), enquanto outro se queixe de ter sido despedido sem ter recebido sequer o “aviso breve” (aviso prévio) e um terceiro venha dizer que quer fazer uma escritura de doação com “usos e frutos” (usufruto) em favor de seus pais…

 

Nao é raro, também, alguém dizer exatamente o contrário do que deseja.

Quando pequeno, meu filho Ricardo era muito “xereta” e vivia se intrometendo em todas as conversas a seu redor. Gisele, mais velha que ele, repreendia-o :

 

Ricardo, não se meta na conversa, que você não sabe de nada !

 

Muito bravo, ele respondia:

 

       

Eu sei de nada!

 

Igualmente digno de nota é o precioso registro lançado por zeloso secretário em uma ata de reunião:

 

“A sessão deixou de ser realizada por ‘falta de ausência’”!

J. B. Oliveira é Consultor de Empresas, Professor Universitário, Advogado e Jornalista.

É Autor do livro “Falar Bem é Bem Fácil”, e membro da Academia Cristã de Letras.

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