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Onde, mesmo, começa a comunicação?

 

 

                                                                                                                                                           * J. B. Oliveira

 

 

A essa pergunta, não faltará quem responda, singelamente: na boca!

Para muitos é ai que nasce a comunicação. Basta abrir a boca, expelir o ar, modulando-o e pronto! A pessoa já está a falar...

A falar, sim. A comunicar-se, não!

Falar é ato espontâneo, solto, desassociado de responsabilidades como lógica, pertinência e coerência. Em situações especiais, pode até ser comunicação, se não houver necessidade de comprometimento mais sério com as palavras proferidas, como em um bate-papo ao estilo de “happy hour” – aqui na capital – ou “prosa de beira de fogueira”, no interior. Ou nos casos de paixão amorosa! Afinal, como há muito tempo alguém já disse: “O primeiro sintoma de amor é o último bom-senso!”

(Por isso, para os mais românticos, a comunicação começa no coração!).

Comunicação, para merecer esse nome, exige mais do que falar: demanda dizer!

Que falar e dizer são coisas diferentes, a prática do dia a dia nos mostra. Em épocas de campanha política, é comum ouvir este comentário acerca de algum candidato: “Fulano de tal fala e fala, e não diz nada”!

Em sua poesia, o próprio “rei” Roberto Carlos deixa clara a distinção entre os dois vocábulos:

 

“Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer...”

 

Aí estão presentes: a emoção, que fala, se exterioriza com facilidade fluidez; e a razão, que se interioriza, vai ao cérebro, e busca termos coerentes para se exprimir.

 

O que ambos os verbos têm em comum é o berço, a área de articulação!

 

No passado, seus pontos de origem eram considerados distintos e distantes: a razão teria por sede a mente, no alto da estrutura física do ser humano. Respondia pelas ações e decisões pensadas, raciocinadas. Em uma palavra: “cerebrinas”.

A emoção – dona dos sentimentos, da sensibilidade e da percepção extra-sensorial – ocuparia um espaço mais abaixo, “no lado esquerdo do peito”, como canta Milton Nascimento. Assim, portanto, era entendido o “Triângulo das Bermudas humano”: boca, mente e coração! A mente, lá em cima, raciocinava; o coração registrava as emoções e a boca verbalizava o resultado dessa operação!

 

Só que não!

 

A partir do surgimento e desenvolvimento das neurociências, em associação com a implantação de equipamentos de alta tecnologia computacional, como ressonância magnética e tomografia computadorizada, tornou-se possível aprofundar o estudo do cérebro humano. O resultado disso foi a constatação de que o coração estava, há séculos, “usurpando” uma função do cérebro, quando lhe competia apenas e tão-somente bombear o sangue para o organismo!

Os anos 1960 foram marcantes nessa área, pelo surgimento da International Brain Research Orgnization, voltada à pesquisa e estudo da matéria. Dezesseis anos depois, em 1976, foi criada aqui a Sociedade Brasileira de Neurociências e Comportamento, registrando o interesse entre nossos cientistas. Por volta de 1962, o neurobiologista e fisiologista Roger Sperry demonstrou que se localizam no cérebro tanto a razão quanto a emoção! Seu trabalho científico permitiu demonstrar a separação e identificação das funções dos hemisférios esquerdo e direito como hoje conhecemos: razão e emoção, respectivamente, acabando de vez com a “função emocional do coração”!

O mundo científico atribuiu a ele o prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia em 1981. Inicialmente inserida no campo da Biologia, a neurociência hoje se classifica como ciência interdisciplinar, e colabora com ramos como Educação, Química, Ciência da Computação, Engenharia, Antropologia, Linguística, Medicina e disciplinas afins: Filosofia, Física, Psicologia e Comunicação!

Ao analisar tudo isso, pode-se perceber quão grande é a responsabilidade de um comunicador. E se Chacrinha alertou: “Quem não se comunica se trumbica”, é prudente acrescentar: Às vezes, quem se comunica também!

 *J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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