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A redação da filhinha do ministro de Brasília...

 

 

                                                                                                                                                           * J. B. Oliveira

 

 

 Na escolinha lá do Distrito Federal – também conhecido pela alcunha de Brasília, a Ilha da Fantasia – a professora, em alta e profunda sintonia com os problemas econômicos dos brasileiros, deu como tarefa a seus aluninhos uma redação sobre o tema “Uma família pobre”.

Então a filhinha do ministro, que lá estudava, escreveu:

 

“Era uma família pobre. O pai era pobre. A mãe era pobre. Os filhos eram pobres. O mordomo era pobre. A governanta era pobre. A cozinheira era pobre. As babás eram pobres. O motorista era pobre. O jardineiro era pobre. Os seguranças eram pobres. Enfim, era uma família pobre”.

 

A que propósito vem essa historinha sem propósito, todos já sabem: tem por pano de fundo o aumento que os senhores ministros do Supremo Tribunal Federal “se deram”, para o exercício de 2019, de 16,38%, passando dos atuais R$ 33,700,00 para mais de R$ 39.000,00! O impacto sobre o orçamento federal será de R$ 2.870.000,00! Mas não fica só nisso: considerando que o salário dos ministros do STF serve como teto de ganho para todos os magistrados do país, acarretará o famoso “efeito cascata”, implicando em aumento da mesma ordem para toda a categoria. De acordo com dados divulgados pelo próprio Supremo, o impacto total será da ordem de R$ 717.100.000,00. Isso mesmo: setecentos e dezessete milhões e cem mil reais. Quase um bilhão! Somente um “aumentozinho” para o Poder Judiciário.

Dos 11 ministros que compõem a suprema Corte, 4 votaram contra o aumento: Cármen Lúcia, Celso de Mello, Rosa Weber e Edson Fachin. Foram, porém, abafados por praticamente o dobro de votantes favoráveis ao “ajuste”: Ricardo Lewandowski, Luís Roberto Barroso, Marco Aurélio Mello, Dias Toffoli, Luiz Fux, Alexandre de Moraes. Ah! E Gilmar Mendes...

Enquanto isso, o salário mínimo de 2018 representa a assombrosa soma pecuniária de R$ 954,00, tendo recebido – em relação ao ano anterior, que era de R$ 937,00 – colossais 1,81% de aumento! Ainda bem que, em 2019, o aumento a ser concedido é muito maior! Será de incríveis 4,61%, elevando o ganho para vultosos R$ 998,00!

 

E assim, a filhinha do ministro continuará sem entender o que, de fato, é “uma família pobre”, porque não consegue conceber a mínima ideia do que uma família tem de fazer para viver com menos de mil reais por mês! Os atuais R$ 33.700,00 mensais percebidos por suas excelências equivalem a 35,32 salários mínimos: ganho do trabalhador ao longo de, praticamente 3 anos!

Essa diferença, além de iníqua, é extremamente cruel. E também perigosa. Causa revolta no pai de família – que recebe subsalário – e ódio nos filhos, sempre humilhados e discriminados, que se vêm obrigados a viver em submoradias, com subalimentação, subsaúde e subvida, não sendo de estranhar que aqueles que não dispõem de sólida formação moral e religiosa ingressem no submundo do crime! A própria agressividade que demonstram quando, em assaltos e roubos, matam impiedosamente suas vítimas, mesmo sem que reajam, são um indício dessa triste e crescente realidade! Não é sem razão que o Mestre disse, no Sermão Profético, registrado pelo Evangelho de Mateus, no capítulo 24: “E por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará”!

 

Na França do século XVIII, tão grande era a disparidade vigente entre as classes nobres e o povo, que este chegou a não ter o mínimo para comer. Conta-se (mas não há prova disso) que Maria Antonieta, a frívola esposa de Luís XVI, ao ouvir de seu cocheiro que o povo não tinha para comer, teria respondido: “Que comam brioches”! (“Qui’ls mangent de la brioche”). Tenha ela dito a nefasta frase ou não, a verdade histórica é que, em 16 de outubro de 1793, a bela rainha francesa, nascida no Palácio de Viena em 1755, foi guilhotinada, aos 38 anos de idade, na explosão de fúria e ódio de uma população faminta e maltrapilha...!

 

No Brasil do século XXI, com uma crise que mantém no desemprego mais de 13 milhões de pessoas – e muitas mais no subemprego – o povo não está tendo pão...

Que se cuidem as Marias Antonietas!

 *J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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