AFILANDO AS FILAS!

 

J. B. Oliveira (*)

Fila no banco.
Uma sequência de homens vai se estendendo, um religiosamente atrás do outro. Depois de uns quarenta minutos de espera (embora um avisozinho postado discretamente em algum ponto na agência diga que a demora não pode ultrapassar alguns minutos...), um deles olha irritado para o relógio e diz para o vizinho mais próximo:

– “Tá demorando, né?” – “Tá”, responde ou outro, e o assunto morre aí.
Quando saem, cada qual para seu lado, um não sabe “nadica de nada” do outro. Seguem sendo ilustres desconhecidos...

Fila no banco. Ou no ponto de ônibus. Ou no supermercado. Ou no açougue...

Uma sequência de mulheres, umas atrás – e a maioria, ao lado – das outras, vai se alongando. Após no máximo quinze minutos (se tanto) uma estrila: – “Tá demorando esta porcaria, não?!” A mais exaltada, não necessariamente a mais próxima, responde: “Aqui é sempre assim, minha filha. É um desrespeito! Você tinha que ver na semana passada: perdi quase minha manhã toda por causa disso”!

O que ocorre a seguir, parece cena de sessão do parlamento nacional: muitas põem-se a falar ao mesmo tempo, sem direito a apartes, réplicas ou tréplicas! Depois de algum tempo, os ânimos se acalmam e o burburinho se converte “grupos de debate”: as que mais se identificaram na primeira fase, passam a conversar em diálogo ou triálogo, narrando suas experiências nesse ou qualquer outro assunto – pertinente ou não!

Ao sair, algumas vão juntas. É que descobriram, durante o bate-papo, que têm algo a fazer – na manicure, na cabeleireira ou na costureira – na mesma direção, e nada melhor do que irem, fazendo o quê?
Prosseguindo a conversa. Afinal, são as mais novas “amigas de infância” uma da outra! Já sabem quantos filhos cada uma tem, onde moram, o que fazem os maridos, de que gostam de fazer e por aí afora!

A esse respeito, meu irmão Waldemar contava um inusitado caso real. Um seu conhecido, nordestino, então morando em Santo Anastácio, fundão da Alta Sorocabana, desembarcou do trem aqui na capital, entrou num táxi, e pediu simples e candidamente que o motorista o levasse à “casa de Rosa, ‘mulé’ de Nestô”! E o mais incrível: ele foi levado lá! Como?

Rosa, mulher de Nestor, tivera seu parto no mesmo hospital em que também nascera o filho do taxista, e durante o período de internação as duas parturientes se tornaram “velhas amigas”!

 *J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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