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Uma frase mal...dita!

 

                                                                                                                                                              * J. B. Oliveira

 

Não, não me refiro à palavra maldita, vocábulo que traduz a ideia de maldição, danação, imprecação, esconjuro, anátema etc.
Aqui o sentido é: palavra dita de má forma, forma incorreta, inoportuna, fora, enfim, do objetivo contextual a que se destinava...
Como pode ocorrer um descalabro desses?
Por diversos modos. Especialmente por se recorrer – sem muito cuidado ou atenção – a uma lei, que chamarei aqui de “Lei da Conservação da Comunicação”, formulada pelo famoso filósofo Abelardo Chacrinha Barbosa! Ela tem muito a ver com outra norma, criada pelo Pai da Química Moderna, Antoine Laurent de Lavoisier, e mundialmente conhecida como “Lei da Conservação da Matéria”. O enunciado desta última todos que estudaram química recordam: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”...
A outra, bem tupiniquim, e repetida “n” vezes por Chacrinha, diz “Na comunicação, nada se cria, tudo se copia”!
Isto posto, vamos à origem da tal frase mal dita.
Aproximava-se o 15 de maio de 2018, quando o governo Temer completaria dois anos.
Era necessário criar um slogan – uma frase de efeito – para valorizar o convite a ser feito pelo cerimonial da Presidência. O especialista em marketing – o mesmo que sugeriu a visita o presidente Michel Temer ao edifício vitimado por incêndio no dia 1º de maio – talvez tenha entendido que seria oportuno inserir uma frase plena de euforia popular. Ora, sinônimo de euforia popular autêntica é futebol! Aí ela é tão autêntica e espontânea que até se canta o Hino Nacional! (coisa que nem nas escolas se faz mais...).
E nesse campo – literalmente, campo de futebol –, quando um time está se fortalecendo, criando musculatura, seus torcedores se esgoelam cantando, a pleno pulmão: “Ô, o campeão voltou! O campeão voltou! O campeão voltou!”
Para completar, numa vista d’olhos nas páginas da história pátria contemporânea, o que se vê? Um dos últimos líderes políticos de apelo popular, com fama e aura de governante realizador, de administração revolucionária e desenvolvimentista que, em sua campanha, prometia fazer “cinquenta anos em cinco”!
Pronto! Estava encontrada a receita perfeita para o bolo do segundo aniversário! Então, numa composição que parecia ideal, mas que se revelou “frankenstêmica”, assim ficou a frase de efeito: “O Brasil voltou, 20 anos em 2”!
Logo, logo opositores, críticos e até correligionários suprimiram a vírgula, substituindo o sentido positivo, ufanista da frase tão burilada pelo negativo, indicativo de retroatividade:
“O Brasil voltou 20 anos em 2”!
Até “alguém” – que recebeu tantas críticas no passado recente também em razão de suas frases – e que estava à espera de uma chance dessas, não deixou por menos: “Agora, o governo golpista de Michel Temer lança com pompa e circunstância a farsa ‘O Brasil voltou 20 anos em 2’. Pelo ato falho a vírgula merece ser retirada”! Foi o que disse a ex-presidente Dilma Rousseff em seu perfil na rede social Twitter. (Que retirou também a vírgula que seria de rigor em sua própria expressão “Pelo ato falho, a vírgula merece ser retirada”. Ocorre que temos aí uma oração indireta, isto é, não iniciada pelo sujeito...).
A verdade é que o risco que corre uma frase de efeito, é que ela pode ter efeito...contrário!
Não foi exatamente o que aconteceu?!

 

*Dr. J. B. Oliveira, Consultor Empresarial e Educacional, é

Advogado, Professor e Jornalista. Pertence à Academia Cristã

de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo

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