PEÇO LICENÇA... Como dizem os nobres colegas advogados, “data vênia”, quero transcrever artigo de meu filho...

O QUE SE ESPERA DO ADVOGADO

Ricardo Fabrízio (*)

É interessante raciocinar sobre a expectativa que a sociedade, consensualmente, tem em relação aos profissionais do imenso universo das atividades humanas. De um médico, espera-se que seja um bom clínico ou especialista. Do engenheiro, que seja competente em engenharia. Do professor, que seja um bom mestre.
Do dentista, que tenha habilidade no trato bucal, e por aí afora...

Com o advogado, porém, a situação é peculiar: todos esperam que ele seja um exímio... COMUNICADOR! Que fale muito bem, com desinibição, coerência, pertinência, lógica e persuasão! E é aí que o “calo aperta”! Há advogados, juristas até, que são excelentes operadores do Direito, mas sofríveis oradores! São inibidos, articulam mal as palavras, tartamudeiam, gaguejam, não têm porte nem postura, perdem-se no curso da fala...

Ás vezes, trata-se até de um autor famoso, desses que produzem a doutrina jurídica e são citados em petições, sentenças e acórdãos. São excepcionais comunicadores... nos livros! Quando os ouvimos falar, procuramos a relação “cara-crachá”, e não a encontramos. Não parece que aquela sumidade literária que tanto admiramos é aquele orador inabilidoso, apagado que ali está...

Tenho o privilégio de ter, em família, um dos grandes oradores e professores de oratória, cujo trabalho acompanho há muitos anos: meu pai, Professor J. B. Oliveira. Tenho visto seu trabalho e esforço para fazer com que pessoas – especialmente colegas advogados – deixem o mundo cinzento da mediocridade comunicacional para se tornarem Comunicadores, assim com “C” maiúsculo! Nessas quatro décadas em que vem se dedicando a esse mister, pôde resgatar da inibição, do receio de falar em público e dos vícios oratórios milhares de pessoas...

E onde está “o pecado original” e “pedra de tropeço” do advogado? Naquilo que, particularmente, considero um erro crasso das escolas de Direito. Ora, se a comunicação é a principal e mais valiosa ferramenta do advogado, deveria merecer destaque entre as disciplinas ministradas em seu curso de formação! Se, por qualquer razão, Oratória não integrar a grade curricular convencional, que se insira como disciplina extracurricular, intercurricular, transversal, suplementar – não importa o nome – mas que não deixe de ser transmitida. Considero sua falta um “lesa-ensino”, com sérias consequências para a vida profissional do futuro operador do Direito.

E ensinar Oratória não é, de forma alguma, algo complexo. Afinal, apenas dois são os elementos que a compõem: Eloquência e Retórica. Eloquência significa verbosidade, fluência verbal, quantidade de palavras, que o orador coloca em uma sequência infinda, sem repetições, pausas injustificadas ou o emprego das horrorosas “muletas verbais”, como “né”, “tá”, “ok”, “certo”, “entendeu” e por aí afora. (Os advogados, a bem da verdade, nem sempre se fixam nessas “muletas pobres”. Preferem as mais elitizadas – mas que também são muletas – ao estilo de “E por assim dizer”; “digamos assim”...).

Obtém-se facilmente eloquência pela leitura de bons livros. Não a simples “passada d’olhos” pelo texto, mas a leitura atenta e cuidadosa, que proporciona tanto o enriquecimento do vocabulário como também a noção da construção frásica correta, com o encadeamento certo das palavras e o uso adequado de verbos, adjetivos, advérbios, preposições e que tais. Merece citação, nesse particular, as palavras do sempre mestre Rui Barbosa:

“De Atenas à Grã-Bretanha, de Roma à França, à Itália, à Hungria, à Alemanha, a eloquência tem vibrado e dardejado nos lábios dos maiores homens de governo, os construtores de nacionalidades, os unificadores de impérios, os salvadores de Constituições, os condutores de Repúblicas e democracias, sem lhes desmerecer jamais a eles a valia de estadistas. Péricles, Cícero, Mirabeau, Pitt, Gladstone, Cavour, Lincoln, Bismarck, Daek, Thiers, Gambetta, que foram todos esses titãs do pensamento e da ação militante senão prodigiosas encarnações da palavra ao serviço do gênio político?

Vede a livre Grécia, a Inglaterra livre, a livre América do Norte, a França livre: outras tantas criações, antigas ou modernas, da tribuna. Sob essa potência eterna se fez a mãe das artes, a mãe dos parlamentos, a mãe das atuais democracias, a mãe das maiores reivindicações liberais. Na idade hodierna, todas as grandes expansões do direito, todos os grandes movimentos populares, todas as grandes transformações internacionais são maravilhas de sua influência universal. O próprio Brasil, o Brasil parlamentar, o Brasil abolicionista, o Brasil republicano, que outra coisa é, senão a obra de seus homens de Estado, os quais eram, ao mesmo tempo, os seus jurisconsultos e os seus oradores?”
(Discurso pronunciado em 18 de maio de 1911 no Instituto dos Advogados do Rio de Janeiro)

Retórica, por sua vez, é “a arte de conduzir as palavras”. Isso significa que não basta apenas emiti-las: é necessário direcioná-las rumo ao alvo pretendido. A retórica envolve: palavra, timbre e inflexão de voz, gesticulação, expressão fisionômica, porte e postura. Um interessante estudo desenvolvido por dois pesquisadores americanos, Mehrabian e Ferris, demonstrou que, em uma comunicação verbal, estes três elementos concorrem, com as devidas pontuações: palavra: 7%; inflexão de voz: 38% e linguagem corporal: 55%! Comunicar-se de forma incorreta, expressando-se em tom monocórdio, monótono e abafado, equivale a usar apenas 7% do potencial comunicativo! Por isso, disse o escritor Joseph Conrad: “Deem-me a palavra certa, no tom de voz exato, e eu moverei o mundo”!

Há que se considerar, ainda, o fator concisão, que se traduz por “falar pouco e dizer muito”. Jesus já recomendava isso: “... não useis de vãs repetições, como fazem os gentios, que pensam que pelo muito falar serão ouvidos”.

A história comprova essa assertiva. Em 19 de novembro de 1863, no cemitério de Gettysburg, o orador oficial, advogado Edward Everett falou por mais de duas horas. A seguir, Lincoln usou só dois minutos e seu pronunciamento se tornou inesquecível e referência nos Estados Unidos.

Para encerrar, valho-me da advertência usada pelo professor J. B. Oliveira em suas palestras e cursos para advogados e acadêmicos de Direito: “Em um tribunal, acham vocês que quem está sendo julgado é o acusado? Ledo engano! O réu é secundário. Quem está de fato sob julgamento dos juízes de direito ou de fato – os jurados – é o Advogado! De seu desempenho, de sua capacidade comunicacional, decorrerá a sentença absolutória ou condenatória! Um bom advogado absolverá ou atenuará a pena até de um culpado; um advogado sem competência poderá levar à condenação mesmo um inocente!

(*) - Graduado em Direito, é Jornalista, Consultor Empresarial e Educacional. É Superintendente do Instituto JBOliveira de Educação e Capacitação Profissional.

 

*Dr. J. B. Oliveira, Consultor Empresarial e Educacional, é

Advogado, Professor e Jornalista. Pertence à Academia Cristã

de Letras e ao Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo

www.jboliveira.com.br

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