Recordar é viver...

 

Há 28 anos, a edição de março de 1990 da Tribuna da Magistratura, órgão oficial da Associação Paulista de Magistrados – então presidida pelo desembargador Francis Davis – publicava, em sua página 14, o artigo abaixo, que redigi nos albores do governo Collor de Mello.

                                 O turismo descollorido

J. B. Oliveira

O choque causado pelo plano econômico do governo Collor de Mello, lembrou-me de imediato – pasmem-se – uma expressão do Evangelho. Acha-se ela inserida no sermão profético, registrado por São Mateus no capítulo 24 de seu livro, a partir do versículo 38. Ali, diz Jesus: “Porquanto, assim como, nos dias anteriores ao dilúvio, comiam, bebiam, casavam e até davam-se em casamento, até ao dia em que Noé entrou na arca, e não o perceberam, até que veio o dilúvio e os levou a todos...’

Pois é, aí está a metáfora.

No Brasil, nos dias anteriores ao plano, todos comiam e bebiam, compravam e vendiam, depositavam e sacavam, aplicavam e resgatavam, especulavam e lucravam, dolarizavam e cruzadavam sem maiores preocupações, mesmo quando se anunciava um novo plano econômico a partir da posse do novo governo.

Gatos escaldados – embora em água morna – os brasileiros preparavam-se para “tirar de letra” mais uma investida do poder central. Afinal, já haviam enfrentado os planos Cruzado, Bresser e Verão e, a não ser por alguns arranhões, tinham saídos ilesos. Que viesse o tal plano. Não seria muito diferente dos outros: no alcance, no efeito e na duração. Cabe aqui uma piadinha sociológico-restrospectiva.

É a que retrata a conversa de dois caboclos – na época do governo Goulart – sobre a situação política.

– É, compadre, parece que agora o “tar” de consumismo vem “memo” pro Brasil, né?!

– “Dêxa vim” compadre. “Dêxa vim” que “nóis avacaia” ele!

Não falada, embora, esta era a disposição intima de todos.

Aí como Noé entrou na arca, Collor de Mello entrou no governo. Então “veio o dilúvio e os levou a todos”. E foi todos mesmo.

Collor havia dito, reiteradas vezes, que afligiria pesadamente as “elites”, o que deixava muita gente de fora, supondo que o “facão” iria voltar-se somente contra as grandes fortunas, as contas elevadas, as notórias especulações etc., poupando os poupadores de caderneta...

Ledo engano. A partir de CINQUENTA MIL todos foram atingidos!

Daí aparecer, primeiro em Brasília e já agora por todo o país, a frase tragicômica: “no tempo do Sarney eu era elite e não sabia”.

Mexendo com toda a economia, vez que enxugou – de pronto – 80% do meio circulante nacional, o plano é extremamente drástico para o setor de turismo. Viagens internacionais hoje, nem pensar. Embora tenha o dólar desabado espetacularmente, não há cruzeiros para comprá-lo.

As viagens domésticas, por seu turno, encolheram-se a ponto de, praticamente, desaparecer. Afinal, sobre os preços já elevados incidiu, junto à posse do novo governo, um aumento de tarifas superior a 50%! Vôos cancelados, aviões semi-vazios, aeroportos às moscas redundam – na outra ponta – em agências paralisadas e vazias.

Entretanto – embora momentaneamente descolloridas – as Agências estão confiantes e esperançosas.

O drástico plano Brasil Novo foi o remédio amargo para cortar de vez um mal insidioso e letal que minava o corpo debilitado de nossa economia. E o fazia sutilmente, como certas moléstias, que só se manifestam em fase terminal, quando já nada se pode fazer.

Nossa deteriorada e desprestigiada moeda era uma batata quente que ninguém queria ter nas mãos. Todos procuravam trocá-la, literalmente, por qualquer coisa: dólar, ouro, títulos, veículos, imóveis, eletrodomésticos, gaiola sem fundo, óculos sem lente... Para os Agentes era insustentável e vexatória a situação. Os negócios, se não fossem concluídos no ato, em dinheiro vivo, e repassados imediatamente às Operadoras ou Transportadoras, não gozavam de qualquer firmeza ou garantia de manutenção de preço, frente à instabilidade do cruzado.

Hoje tudo está mudando. A partir do respeito que passou a merecer o cruzeiro.

Sabemos todos que temos uma árdua tarefa pela frente, que é a reconstrução da nossa economia. Não desconhecemos a necessidade de dar, cada um, sua cota de sacrifício.

Mas estamos convencidos de que vale a pena: O Brasil precisa e merece isto.

Afinal, como ensinava um tranquilo mineiro a seu filho, “no fim dá tudo certo”. E, ante a expressão algo incrédula do jovem, acrescentava: “se ainda não deu certo, é porque ainda não é o fim”.

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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