“...muitas pessoas que sofrem de depressão sentem-se melhores...” 

                                                                                                                                                     J. B. Oliveira

“TudoPorEmail” é o nome de um programa que publica regularmente, pela internet, mensagens sobre os mais variados assuntos. “O que há de interessante” – seu subtítulo – corresponde à realidade: os temas geralmente têm bom conteúdo de cunho informativo, jornalístico, científico e de amenidades, com algumas leves piadas de vez em quando...

Entretanto, o primor e cuidado gramaticais não são seu forte! Volta e meia, despontam erros de concordância, regência, colocação pronominal etc.

É o caso da frase-título deste artigo, em que o vocábulo MELHOR foi indevidamente usado no plural!

A forma correta é “... muitas pessoas que sofrem de depressão sentem-se MELHOR...”. Isso porque a palavra melhor está se referindo ao verbo sentir-se. Ora, palavra que modifica verbo é ADVÉRBIO e, como ensina a boa regra gramatical básica, “o advérbio não varia”!

Seria diferente se a frase fosse, por exemplo:  “Melhores remédios trazem melhores resultados para os pacientes de depressão”, caso em que o termo “melhores” refere-se aos substantivos “remédios” e “resultados”. Em consequência, como está modificando um substantivo, a palavra “melhores” aí é adjetivo. Logo, pela mesma regra elementar de concordância nominal “o adjetivo concorda com o substantivo a que se refere em gênero e número”... (Algumas pessoas exageram: “...gênero, número e grau!” Mas não é assim. A concordância com gênero e número é de rigor: menino bom, menina boa; o profissional dedicado, os profissionais dedicados. A concordância com grau, porém, não é obrigatória. Podemos usar o substantivo em um grau e o adjetivo em outro: atleta fortão; garotinha boa; garotão esforçado...).

E por que se dá a confusão com a bendita palavra melhor?

Porque o termo pode ser usado tanto como comparativo de superioridade de BOM, em que significa “mais bom”; como de BEM, em que o sentido é “mais bem”, como nestes exemplos:

“Nos menores frascos estão os melhores (“mais bons”) perfumes”. Aqui, como adjetivo, está elevando o valor do substantivo perfumes. Eles não são apenas bons, mas estão acima disso.

“O atleta brasileiro lutou melhor (“mais bem”) do que os outros e ganhou a medalha de ouro”. Já neste caso, melhor está amplificando o sentido de bem, para intensificar o valor da luta.

Quando, entretanto, o advérbio vier antes de um verbo no particípio, a boa norma gramatical não admite a forma “melhor”, mas apenas a “mais bem”: “Ele é mais bem-preparado do que ela”; “Era a mais bem-produzida de todas” (e não melhor preparado e melhor produzida). Observação: de acordo com a norma ortográfica em vigor, aplica-se o hífen nesses casos.

Cabe ainda chamar atenção para esta situação especial: quando se estiver fazendo comparação entre duas qualidades em um mesmo ser, a forma será “mais bom” e não melhor, como neste caso: “Pedro é mais bom do que inteligente”. “Maria é mais boa do que bonita”. Fica claro que não caberia dizer “Pedro é melhor do que inteligente” nem “Maria é melhor do que bonita”.

Lendo o texto do site em foco, lembrei-me de uma palestra que ouvi há muito tempo, em que o orador falava de uma mulher que, sentindo-se doente, teria dito ao médico: “Doutor, eu estou muito má”!

Também aí houve confusão entre o adjetivo – que varia para concordar com o ser a que se refere – e o advérbio, que permanece invariável. Ele não estava querendo dizer que a mulher não era boa, portanto, era má. O que ele queria expressar é que ela não estava bem, portanto, estava MAL!

Para ajudar a afastar essa pequena dúvida, basta fixar que o contrário de BOM, BOA (adjetivo) é MAU, MÁ, enquanto o contrário de BEM (advérbio) é MAL, caso em não que não há variação de gênero: o advérbio permanece inflexível.  

O bom patrão; a boa patroa.

O paciente está mal; a paciente continua mal; algumas vítimas do acidente sentem-se mal.

Continuarei lendo TudoPorEmail. Mas permanecendo atento aos seus lapsos gramaticais!

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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