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J. B. Oliveira

“A comunicação nos universos masculino e feminino” é o título de uma palestra que venho ministrando já há um bom tempo nos mais diversos ambientes – especialmente naqueles em que os ouvintes são homens e mulheres...

O próprio nome da palestra já leva automaticamente a uma pergunta: Homem e mulher não falam a mesma língua?

E a resposta, óbvia por sinal, é: “Sim, falam a mesma língua, entretanto, os modos de a falar – que eu chamo de “dialetos” – são tão diferentes que às vezes até se tornam incompreensíveis!

Para início de conversa, é necessário considerar que qualquer comunicação pode ser literal, palavra que herdamos da expressão latina ad litteram – e que popularmente designamos como “ao pé da letra” – ou figurada, isto é, que não se prende tanto à forma e sim ao sentido. A essa modalidade de comunicação os latinos denominavam ad sensum, ou seja: a compreensão deve ser feita pelo sentido e não pela letra.

O homem usa a linguagem literal, direta, em que letra e sentido se identificam, dizem a mesma coisa. Particularmente, chamo esse estilo de “hominês”. A mulher usa a linguagem figurada, descompromissada, em que o sentido não tem muito a ver com a letra, podendo significar algo totalmente distinto. Dou a esse fenômeno o nome de “mulherês”.

Se, por exemplo, dois homens estão viajando de carro, um deles diz: “pare naquele posto, que serve um lanche excelente”! O amigo que está dirigindo para, tomam seu lanche e seguem viagem tranquilamente. Se for uma mulher, ela dirá: “A lanchonete daquele posto tem um lanche tão gostoso...”! O homem vai no máximo murmurar um “hã, hã” e seguir em frente. E ela? Vai ficar fula da vida porque ele não parou! Se, no cinema ela diz ao namorado “Está frio aqui, não? ” ele, num gesto de cavalheirismo e proteção, tirará o paletó e o colocará sobre os ombros dela, que agradecerá com um sorriso de leve desencanto... ela estava “dizendo” a ele que a abraçasse ...

 

Estão os dois numa festa, frente a frente, e ela diz: “Olhe quem chegou! ” O homem olha. E leva um cutucão na costela: “Não é pra olhar assim! ”. O que houve aqui? Simplesmente isto: ele entendeu em hominês, em que “olhe” é o imperativo afirmativo do verbo olhar; significa apenas: “Volte os olhos para”. Mas ela falou em mulheres. E aí “olhe” não é imperativo, afirmativo, negativo o que quer que seja. Aliás, não é nem mesmo verbo! É uma mera interjeição, do mesmo tipo de “Imagine! ”; “Puxa!”... E como quando ela fala “Imagine”, ele não precisa imaginar nada; e quando fala “Puxa!” ele não precisa puxar nada, também quando ela fala “Olhe!”, não é para ele olhar NADA! Deve ficar imóvel, estático e apenas ampliar a capacidade auditiva, porque ela só está avisando que vai tecer considerações aleatórias sobre alguém (de seu mesmo sexo, é claro...) que acaba de adentrar o recinto... Por isso, as que “manjam” hominês, têm o cuidado de falar “Não olhe agora!

 

A razão desse distanciamento está no uso que cada um faz dos hemisférios que compõem seu cérebro. O homem privilegia o hemisfério esquerdo, da lógica, da coerência, da razão pura. A mulher, o direito: da emoção, da sensibilidade, da criatividade, da intuição. Nos dias atuais, e graças a equipamentos sofisticados, de tecnologia de ponta, como RM – Ressonância Magnética e TC – Tomografia Computadorizada, as neurociências comprovam essa antiga assertiva.

 

De tudo isso, se conclui que para haver harmonia no relacionamento entre os sexos, ele deve compreender a sutileza do mulherês e não levar ao pé da letra tudo o que ela diz. Principalmente nos momentos em que a emoção prevalece, em razão de os ânimos estarem exaltados. É só considerar as tantas vezes em que ela disse: “Estou MORTA de cansaço”! “Já lhe disse isso UM MILHÃO de vezes”! . Ela, por sua vez, deve procurar, ao falar com ele, ser mais objetiva, concisa, direta, fugindo de simbologias, divagações e dos terríveis detalhes – tão detestados pelos homens – aproximando-se assim do “dialeto homines”! Ou, como dizia Odorico Paraguaçu: “Deixando os entretantos e indo para os finalmentes”!

O poema “O Homem e a Mulher”, poetizando sobre essa dualidade, diz: “O homem é a águia que voa; a mulher, o rouxinol que canta. Voar é dominar o espaço; cantar é conquistar a alma. O homem é o código; a mulher, o evangelho. O código corrige, o evangelho aperfeiçoa. O homem é capaz de todos os heroísmos; a mulher, de todos os martírios ...e finalizava: O homem, enfim, está colocado onde termina a Terra; a mulher, onde começa o Céu”!

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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