J. B. Oliveira

Codificação e decodificação

J. B. Oliveira

 

O chamado “Processo da Comunicação” é das primeiras coisas que são ensinadas a todos os estudantes desse universo mágico no qual os seres humanos procuram se entender. Desde que o Homo Sapiens (e, como diria alguém, até há pouco tempo “ocupante” do Palácio do Planalto, também a mulher sapiens...) elevou-se à privilegiada condição de Home Loquens, busca-se uma forma de estabelecer esse entendimento. A moderna pedagogia comunicacional criou então um esquema bem simples, representado por um gráfico. De um lado, está o Comunicador; do outro, o Receptor e entre eles a Mensagem. O detalhe é que a mensagem é formada por códigos. Assim, o Comunicador codifica sua mensagem e a transmite ao Receptor, que deve percorrer o caminho inverso, isto é, deve decodificá-la e entendê-la!

E é “aí que mora o perigo”: não é raro ocorrerem os assim denominados “desvios da comunicação”, também chamados “ruídos”, que criam as mais inimagináveis confusões, ora cômicas, ora dramáticas, mas geralmente traumáticas. Diariamente, ao redor do mundo, Comunicadores dizem – ou julgam dizer – uma coisa e Receptores entendem outra, e agem de conformidade com o que captaram. É o que está demonstrado a seguir.

A AMEÇA DA CUT

Em 27 de novembro de 1996, noticiaram os jornais da época, ocorreu um fato inusitado no bairro de Alto de Pinheiros, em São Paulo.

Um tumulto estava se formando próximo à casa de um ministro da República. Um dos empregados da casa foi ver o que era, e voltou com a informação: “É a CUT”!

Preocupado, o encarregado da segurança ligou para o ministro, em Brasília. Este, não menos preocupado, telefonou para o governador Mário Covas que, ato contínuo, ligou para o secretário da Segurança Pública, à época o Professor José Afonso da Silva, que, por sua vez, contatou o Coronel Claudionor Lisboa, que desempenhava a função de Comandante-Geral da Polícia Militar. Imediatamente foi enviado ao local um forte contingente daquela Corporação, para prevenir e debelar eventuais perturbações à ordem pública.

Só então é que se ficou sabendo que não se tratava de nenhum movimento da CUT. Era apenas e tão somente uma empresa que estava promovendo distribuição de amostras grátis de Yakult! Nos dias seguintes, não poucas emissoras de FM “deitaram e rolaram” sobre o ocorrido... principalmente porque a casa em questão era a de ninguém menos que o então ministro das Comunicações, Sérgio Motta!

AS EMERGÊNCIAS AÉREAS

Mais ou menos nessa mesma época, li em jornal de grande circulação da capital que um Boeing 737 havia pousado, em emergência, no aeroporto de Poá. Fiquei surpreso: a simpática Poá é, na realidade, um dos menores municípios de São Paulo, e não consta que tenha sequer um aeródromo! Por outro lado, se um Boeing 737 pousasse em Poá, em emergência, teria de abrir as portas traseira e dianteira ­­­­­­­– como ocorre em pousos dessa natureza. Só que quem saísse pela porta da frente desceria em Suzano, e, pela porta de trás, em Ferraz de Vasconcelos!

O que de fato ocorreu?

Um Boeing 737 realmente havia pousado em emergência... mas no aeroporto de Porto Alegre, cuja sigla, na aviação comercial, é POA, assim como Guarulhos é GRU; Miami é MIA; Pampulha é PLU etc.!

Outra notícia alardeava que um avião Globemaster havia derrapado e estava inclinado na cabeceira da pista 16, em Congonhas. Essa eu – como antigo Controlador de Voo daquele aeroporto – precisava confirmar. Afinal essa aeronave de transporte militar tem 52 metros de envergadura e 53 de comprimento! Na verdade, o avião acidentado não era um Globemaster, mas um Gloster Meteor – avião inglês de caça, com apenas 11.32 metros de envergadura e 13,59 de comprimento!

Ainda falando em imprensa, vale lembrar o episódio registrado pelo professor Brenno Silveira, em seu excelente (e antigo) livro A Arte de Traduzir, sobre manchete estampada em um jornal de São Paulo:

“Violenta tempestade de azoto sobre a Argentina”

Como tal fenômeno é simplesmente impossível – azoto é outro nome para nitrogênio, que é um elemento químico gasoso – procurou ele saber o que aquilo de fato significava. Sua curiosidade e interesse pelo inusitado acontecimento atmosférico foi recompensado: descobriu que a notícia original fazia referência a uma tempestade forte, porém comum, e cuja chamada – em espanhol – era:

“Violenta tempestade azotó la Argentina”, ou, em bom português:

“Violenta tempestade açoitou a Argentina”!

OS “CAUSOS” DO SEBASTIÃO NERY

O jornalista e ex-deputado Sebastião Nery, a quem Joel Silveira apresentou como “o cronista por excelência – talvez o maior deles – da nossa “petite histore”, a história dos tempos atuais, ao mesmo tempo pequenina e atroz, casuística e ordinária, uma história de h minúsculo, feita de emergências e circunstâncias”, escreveu uma série de livros intitulados “Folclore Político”, (guardo, como preciosidades, os tomos 3 e 4) em que narra, como graça e espontaneidade, centenas de “causos” pitorescos de nossa política recente, “pero no mucho”, ou seja, das décadas de 1980, 1990. Este é um deles:

“Virgílio Távora, governador, recebeu telegrama do prefeito do Crato:

‘Senhor governador, solicito V. Exa. Recursos enfrentar seca município. Cordiais saudações. ’

Virgílio respondeu:

‘Senhor prefeito, aguarde, 19 de março, passagem Equinócio. Cordiais saudações.

Dia 20 de março, o prefeito telegrafa de novo:

‘Senhor governador, apesar banquete e homenagens preparamos receber condignamente enviado V. Exa., até agora Dr. Equinócio não apareceu.

Cordiais saudações. ’ “

Este é outro:

“O general Figueiredo foi ao Recife. Na hora de fazer os convites para o jantar, telefonaram para a casa do senador Aderbal Jurema:

– ´E da casa do biônico Aderbal Jurema?

– Respeite o senador. Aqui é uma casa de família.

E desligou. Era a empregada. ”

Com sabedoria e razão, portanto, disse Antoine de Saint-Exupéry: ”A linguagem é uma fonte de mal-entendidos”!

 

*J. B. Oliveira, consultor de empresas, é advogado, jornalista, professor e escritor.

É membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Cristã de Letras.

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