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Corrida maluca

Ele entrou para correr com os outros pilotos no famoso autódromo. Era tão bom de competição que  tinha sido apelidado pela torcida de Pintacuda.

Uma homenagem ao corredor italiano que tinha vencido o grande prêmio de automobilismo da Gávea. Antes de se aventurar na pista tinha treinado dirigindo ônibus da empresa municipal de transporte coletivo. No momento que alinhou sua velha carreteira ao lado de possantes carros, entendeu que a corrida tinha sido perdida. Não tinha as mesmas condições de competir com os demais.

Talvez por isso corrida de carros e outros veículos nunca foram incluídos nas olimpíadas. Não basta o treino, esforço pessoal, dedicação, objetivo. É preciso ter o melhor equipamento. Ganha quem tiver mais dinheiro para investir em novas máquinas, engenheiros, desenhistas, mecânicos, assessorias de marketing e imprensa, além de um ótimo piloto, é claro.

O fato é que é em uma competição como essa que fica clara a disparidade entre os concorrentes. Vai vencer que tiver mais recursos e não habilidade. Com isso não há condições de novos pilotos se projetarem. Os desafios para os novatos são enormes, como se corressem uma maratona com uma bola de ferro presa nos pés. Essa é, mais ou menos, a situação dos novos candidatos aos cargos eletivos no nosso pais.

Usar a “maquina” a favor da reeleição dos candidatos é visto como uma ação natural e que não impacta o conceito de república, onde todos são iguais perante a lei. Os que detém os controles da máquina usam-nas com a maior naturalidade, sem que sejam incomodados nem pela justiça eleitoral, nem pelos cidadãos pagadores de impostos.

Poucos são os indignados com isso. O vice governador esperou quatro ou oito anos para chegar sua vez de usar a máquina. Esperou por dever de fidelidade com o titular. Este deixa o governo estadual para disputar outro cargo. O vice assume no seu lugar e imediatamente começa a campanha para a sua eleição. Se der tudo certo pode ficar até oito anos no governo estadual. Abre espaços na máquina administrativa para os seus acólitos, afasta os anteriores, desloca verbas para projetos que podem ajudar na eleição, usa tudo o que pode para se mostrar aos eleitores. Com isso os demais candidatos ficam em desvantagem.

Mesmo se surgir um Pintacuda. Quem pode contra a máquina do estado que têm nos cofres os trocados que os prefeitos humildemente pedem de pires nas mãos? Nessa competição tem duas largadas: a primeira para o dono da máquina que dispara bem antes do sinal ser dado para os demais. Por que os outros candidatos não desistem dessa competição desigual ainda não foi objeto de estudos científicos.

É a regra do jogo. Quem pode mais chora menos. É o que diz a legislação eleitoral assenhorada pelos caciques donos dos partidos. Eles vão usar o fundo partidário e o fundo eleitoral, coisa de uns 3 bilhões de reais para se reeleger. Vão destinar essa dinheirama tungada do bolso do contribuinte para continuar usufruindo eternamente das benesses dos cargos que ocupam no senado, câmara ou assembleia legislativa.

Muitos estão no meio de seus mandatos, mas arriscam uma eleição para um degrau acima. Se perder, não ficam pendurados na brocha, continuam no cargo anterior. Por isso vereador se arrisca a concorrer ao senado. A máquina, novamente ela, partidária está a serviço dos caciques. Vão ter material de propaganda á vontade, espaço no horário eleitoral no rádio e tevê, publicar anúncios em jornais, contratar marqueteiros, marcar carreatas e contratar um batalhão de cabos eleitorais de toda espécie.

Outros que entram nessa competição usam a máquina de sindicatos, centrais sindicais, organizações de toda ordem para poder acelerar na saída e se elegerem. Mais uma vez as portas se fecham para a renovação, para as caras novas, para novas lideranças.
É como entrar na corrida de fórmula um pilotando um velho ônibus da companhia municipal.

(*) - É editor chefe e âncora do Jornal da Record News, também nas plataformas digitais.

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