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Barreira na fronteira

Sem documento não passa na fronteira. As autoridades são irredutíveis, contra qualquer pessoa que queira entrar no país sem passaporte.

Não levam em consideração se o recém chegado está ou não vivendo em estado de penúria. A magreza do homem, sua pele esturricada pelo sol, quase sem cabelo, não comovem os que têm como missão de fiscalizar todos que chegam. Se o governo de onde vem o homem é uma democracia ou não, se condena opositores à morte, se reprime com violência as manifeatações populares e se os chefes atuais tem o apoio do exército, nada disso interessa. Nada justifica a chegada do homem.

Ainda que o governo local tenha aberto as portas à ele e divulgado que é do interesse do páis que ele seja recebido e abrigado em um lugar de honra na capital. O imigrante não se mexe. Não foi de sua iniciativa a viagem e por isso não se incomoda o que falem dele. Para ele nada importa, nem a opinião dos burocratas sobre sua origem e sua documentação. Afinal há muito tempo não faz outra coisa se não observar os rostos e escutar os comentários que fazem sobre ele e seu povo.

O movimento de imigrantes ganhou contornos políticos. Os partidos de direita, contrários a dar abrigo a eles se fortaleceram. O recém chegado vem da África. Mais uma razão para se fazer uma checagem rigorosa de sua vida e saber se já tem passagem garantida para voltar para lá. Ao contrário de milhares de patrícios que vieram por mar, uma boa parte morreu afogada, o homem chegou de avião.

Quem pagou a passagem uma vez que sua aparência é de um velhíssimo mendigo, com roupas em farrapos e um ar de desespero? Os burocratas não entendem porque já se formam filas para comprar ingressos para vê-lo. Só podem ser defensores dos direitos humanos, gente que não se cansa de desviar dinheiro do governo para socorrer imigrantes doentes e abatidos que procuram o páis para fugir da fome e do terror.

Uma verificação mais acurada descobre que o recém chegado tinha bens como vasos e outros objetos de ouro e prata e na sua declaração de bens consta até mesmo uma carruagem. Consta que era poligâmico e que suas mulheres haviam sido enterradas vivas ao lado de seus animais de estimação. Ainda assim ele foi recebido com pompa e circunstãncia pelo presidente. Os burocratas não se conformavam.
Mais do que a recepção de um imigrante, o governo preparou uma grande parada militar , uma vez que é desta forma que se recebe um chefe de estado convidado. Sim, ele foi convidado e não veio de livre e exponstânea vontade. No seu passaporte consta o nome Ramsés II, nacionalidade egípcia, data do nascimento 1303 a.C, filiação família real; profissão rei de um império africano.

O recém chegado foi levado para a França para tratamento de saúde. Afinal tinha 90 anos de idade quando foi diagnosticado com má circulação. Um exame mais apurado identificou várias fraturas mal curadas e a ameaça de um ataque de bactérias que poderia comprometer todo o corpo de Ramsés II. Bom estão está explicado responderam os mal humorados burocratas da imigração.

Não era um qualquer que chega cheio de trapos e pendurado de filhos para usufruir da rede de saúde e educação paga pelos cidadãos do páis. Por isso foi recebido com pompa e circunstância quando desembarcou no aeroporto de le Bourget e foi levado em carro blindado até as salas frias do museu francês.

Afinal a amizade entre os dois povos era tão antiga, desde quando um general francês obsevou as pirâmides egípcias e disse: “Do alto dessas pirâmides, 40 séculos vos contemplam”. Foi Napoleão Bonaparte.

(*) - É editor-chefe e âncora do Jornal da Record News , tv aberta em multiplataforma.

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