A febre amarela e Oswaldo Cruz, o doutor mata mosquito

Graças ao compartilhamento digital, é possível encher ou esvaziar os postos de saúde. Cuidado com a difusão de informações deve ser muito maior.

Tomar uma injeção com a doença diluída na ampola era impensável. No entanto a doença retomou com força e várias pessoas infectadas foram localizadas. Algumas mortes foram registradas. O governo foi duramente criticado por não se preocupar com o povo, como sempre, abandonado a sua própria sorte. O contágio se espalhava por todo o país, mas principalmente no Rio de Janeiro. Os navios temiam atracar lá pelo perigo da febre amarela e principalmente pela varíola.
Era preciso liquidar com os vetores da doença e os mosquitos lideravam a lista dos perturbadores da saúde pública. Oswaldo Cruz, o sanitarista, propôs uma ação de matar os mosquitos e vacinar a população. Nada mais lógico. Nem tanto. O povo reagiu com temor dos efeitos da vacina, da invasão das casas para liquidar os focos dos voadores e aplicar a vacina em todos. Até mesmo nas mulheres que teriam que mostrar as nádegas para os agentes do “doutor mata mosquito.”
Daí para uma rebelião geral foi um passo. A oposição não perdeu tempo e criou a Liga Contra a Vacina Obrigatória, com o apoio dos jornais da oposição e as armas dos alunos da Escola Militar. Houve ameaça de um levante geral no Rio de Janeiro. O governo, por causa da reação à vacina, impôs o estado de sítio. Depois de 30 mortos, 110 feridos, centenas de presos e exilados para o Acre, destruição de parte da cidade, a população concordou em se submeter pacificamente à vacinação.
Parte da mídia, sem nenhum conhecimento de causa, encontrou o mais novo vilão da contaminação da população pela febre amarela. Os macacos que habitam o pouco do que sobrou da Mata Atlântica próxima as cidades. Os simpáticos macaquitos, que apareciam no telhado ou nos quintais para pegar uma fruta ou o que sobrou da ração do cachorro, foram guindados à condição de inimigos públicos número um. Centenas de animais foram aniquilados.
A ignorância e a má fé desviaram a atenção dos jornalistas das verdadeiras causas do contágio: incompetência dos responsáveis municipais, estaduais e federais pela gestão da saúde. Afinal de cada R$ 15 pagos pelo contribuinte, apenas um ou dois chegam até a ponta no posto de saúde. Houve uma corrida em busca da vacina contra a febre amarela. Filas imensas se formaram nas ruas e nos noticiários, a oposição acusou o governo e, em ano de eleição para presidente, qualquer perna de grilo dá churrasco. Imagine diante da ameaça de uma epidemia.
Para variar, os estoques de vacina contra a febre amarela se esgotaram. Em época de ação criativa, foi inventado o fracionamento da vacina, dividiram as doses, mais fracas, mas que podiam acalmar o povo. Repentinamente os postos de saúde ficaram às moscas, ou melhor, aos mosquitos. A mídia repercutiu o medo da população da reação à vacina. Ela contém o mesmo vírus que provoca a doença. Os candidatos potenciais à Presidência se movimentaram. O bom senso foi trocado pela ignorância.
O efeito manada é um fenômeno mais antigo do que as notícias publicadas na mídia de papel e tinta do início do século 20, ou das plataformas digitais atuais. Ou se rejeita ou se adere a uma determinada política de forma fundamentalamente emocional e não racional.
No sermão de um religioso anglicano, no século passado, uma injeção era uma mistura abominável de corrupção, borra de vício humano, resíduos de apetites venais que, na vida após a morte, podem esmagar a alma. Os mitos são propagados por grupos contrários à imunização como os que dizem que a homeopatia dá conta do recado, crianças nascidas em parto normal têm anticorpos necessários para qualquer tipo de proteção. Ou a ozonoterapia capaz de curar até as rugas da idade.
Graças ao compartilhamento digital, é possível encher ou esvaziar os postos de saúde ou apontar uma mulher no Guarujá como praticante de bruxaria e responsável pela morte de crianças por uma doença demoníaca. A reação foi imediata a tal bruxa foi morta a pedradas. Em suas mãos foi encontrado um livro. Manual de Bruxaria Sabática Medieval? Não, a Bíblia.
O cuidado que os jornalistas têm que ter com a difusão de informações e notícias é muito maior graças à propagação digital. É muito mais difícil corrigir uma noticia falsa hoje do que no tempo da tinta e papel. Não se pode esquecer nunca do fenômeno do compartilhamento por meio dos aplicativos. Será falsa a foto do pé do ídolo Neymar com dois parafusos espetados depois da operação que se submeteu para recuperar um pedacinho do dedinho mínimo?

(*) - É editor chefe e âncora do Jornal da Record News, emissora aberta de notícias.

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