Geraldo Nunes, jornalista e memorialista,
integra a Academia Paulista de História.
O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

Belém ou Belenzinho? Eis a questão

Belém ou Belenzinho? Eis a questão

Fiquei satisfeito em saber que o Parque Belém, inaugurado em 2012 no amplo terreno onde antes funcionava a antiga Fundação do Bem-Estar do Menor – Febem, leva também o nome de Manoel Pitta que conheci ao entrevista-lo no programa 'São Paulo de Todos os Tempos' da Rádio Eldorado, por volta de 1997

Manoel Pitta

Ele foi presidente da Sociedade Amigos do Belenzinho e lembrando dele agora, nesses tempos atuais, onde as pessoas fazem amizade pela internet e conversam nas redes sociais sobre mil assuntos, pensar na existência de uma sociedade de amigos onde as pessoas se reuniam periodicamente para discutir somente os assuntos específicos de um só bairro soa de modo romântico ao coração.

Manoel Pitta era filho de um imigrante sapateiro. Nasceu e passou a vida toda no Belenzinho, um lugar de gente operária, humilde, mas também alegre e disposta. Como repórter aéreo, sobrevoando a Radial Leste todos os dias para falar do trânsito, depois da entrevista onde ele me falou de sua casa, passei a identifica-la do alto. Um sobrado que permanece servindo de moradia para a família dele que segue administrando a loja Pitta Calçados, na Rua Herval.

Ainda jovem, Manoel assumiu os negócios do pai. Com o tempo, deixou de confeccionar ou reformar sapatos, mas passou a revendê-los nos moldes atuais de atacado e varejo. Permaneceu na direção da loja até o ano de sua morte, em 2011. Sempre interessado no progresso do seu querido bairro, ingressou para a Sociedade Amigos do Belenzinho (SAB), onde foi presidente por 35 anos. Dedicou grande parte de sua vida a conquistar melhorias e o reconhecimento de sua região.

Dizia que a construção da Radial Leste, mais o muro da linha do trem, limitou o entendimento das pessoas que passaram a achar que o Belenzinho se restringe à parte onde fica a linha do trem e o Rio Tietê. “Mas não é assim, alguns acham que a Rua Padre Adelino fica no Tatuapé, mas ali é Belenzinho”, dizia. “As contradições são tantas - explicava - que o Cemitério da Quarta Parada, que está no nosso bairro, leva o nome de Cemitério do Brás”, insistia Manoel Pitta que foi procurar a direção Federação do Comércio, depois da inauguração do Sesc Tatuapé, justamente na Rua Padre Adelino, para explicar que o nome não estava correto.

Vitrine da loja Pitta Calçados, na Rua Herval. Discutiu, batalhou e hoje aquele centro de convivência, com inúmeras atividades, recebe o nome de Sesc Belenzinho. Outras conquistas dele foram a instalação de uma Base Comunitária da Polícia Militar no bairro e a saída da Febem, palco de antigas e lamentáveis cenas de violência, além da implantação do atual Parque Belém, na Rua Ulisses Cruz, entre as Avenidas Celso Garcia e Salim Farah Maluf.

Na época em que havia a instituição que abrigava menores, os repórteres se referiam ao local como Febem do Tatuapé. Até isso Pitta conseguiu mudar, o lugar é agora leva o nome oficial de Parque Estadual do Belém, mas se ele estivesse vivo teria ido até o governador Geraldo Alckmin, que inaugurou o parque, para convencê-lo a mudar para Parque Belenzinho e faria isso até a exaustão, porque Manoel Pitta era desse jeito, trabalhava por uma causa, a defesa do Belenzinho.

A justificativa do governo estadual para o nome Parque Belém está no fato de que este é agora o nome oficial desse distrito municipal formado pelos bairros Belenzinho, Catumbi, Chácara Tatuapé e Quarta Parada. Os distritos limítrofes são: Vila Guilherme e Vila Maria, ao norte; Tatuapé, a leste; Água Rasa e Mooca, ao sul e Brás e Pari a oeste.

No livro escrito pelo jornalista Levino Ponciano, “450 bairros. 450 Anos”, é contado que o Belém era uma região aprazível pelos idos de 1880 devido aos vastos pomares e às grandes árvores e que o nome do lugar vem da fé cristã em referência à cidade onde Jesus nasceu. A paróquia de São José do Belém surgiu a 14 de julho de 1897, desmembrada que foi da igreja Bom Jesus do Brás. Em 26 de junho de 1899, foi criado o Distrito de Paz do Belenzinho, desmembrado também do Brás. Manoel Pitta, dizia, entretanto, que a data oficial de aniversário do Belenzinho é dia 30 de junho.

Levino Ponciano, no entanto, confirma a tese defendida por Pitta de que o nome Belém veio por causa do bonde 24, mas informa que o uso acabou caindo no agrado do povo e que o Belenzinho se tornou um pequeno bairro, dentro do distrito, cuja estação do metrô também leva o nome Belém. Mas há muitos moradores que ainda pensam igual ao antigo comerciante de calçados, ou seja, que o Belenzinho abrange todo o distrito.

Inicialmente batizado de Sesc Tatuapé, após muitas batalhas e dicussões de Manoel Pitta, passou a se chamar Sesc Belenzinho.Observando atentamente esse apelo popular, a jornalista Thaís Matarazzo, editora deste livro, “Vamos falar do Belenzinho”, inclui no título, um ponto de interrogação no título, atendendo aos que quiserem se referir simplesmente ao Belém. Vale ressaltar que também são bem-vindos os que defendem o nome Belenzinho. Afinal, para os nossos dias qual nome se encaixa melhor Belém, ou Belenzinho? Belém é mais curto, mais rápido de escrever e mais fácil de pronunciar, mas Belenzinho soa mais intimista, é mais carinhoso. O julgamento fica por conta de cada um. O mais importante é que o Manoel Pitta foi eternizado definitivamente estando seu nome agora associado ao Parque Belém.

(*) Geraldo Nunes, jornalista e memorialista, integra a Academia Paulista de História. (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.).

Mais artigos...

  1. “Novos Cangaceiros” agem no interior do Nordeste como nos tempos de Virgulino Ferreira, o “Lampião”
  2. Memórias de um repórter aéreo no aniversário da cidade
  3. A estrela sobe
  4. Circulando de carro por uma São Paulo que não volta mais
  5. Um passeio na história paulistana para quem visita a Liberdade
  6. Os 50 anos do álbum Revolver e a curiosa história de Eleanor Rigby
  7. Na festa da Rádio Nacional preocupação e saudades
  8. Paralimpíadas prometem marcar história no Brasil
  9. Morre o policial criador do Museu do Crime
  10. A curiosa passagem de um cronista inglês pelo Brasil de 1927
  11. Postura do povo paulista em 32 é exemplo para nossos dias
  12. Narrações esportivas da Copa 50 são doadas ao Museu do Futebol
  13. Vamos falar da Mooca?
  14. Os reis do futebol
  15. Esculápios, Boticas e Misericórdias na Piratininga D’Outrora
  16. A magia da vida nas canções de Gal Costa
  17. Conheça a verdadeira história da Revolução Constitucionalista
  18. A Era do Rádio
  19. São Paulo mantém mas não preserva a lenda do DC-3
  20. Os 20 anos do Windows 95 e o museu brasileiro do computador
  21. 50 anos depois a Jovem Guarda já é vista com melhores olhos
  22. Estados Unidos reabrem embaixada com festa e desconfiança
  23. Constellation: uma viagem aérea e musical pelo Rio de Janeiro antigo
  24. Há 60 anos surgia a fábrica de sonhos de Walt Disney
  25. Da maioridade de Dom Pedro II aos dias atuais, o Brasil sempre foi um país de “pedaladas”
  26. Marisa Monte reconhecida entre as melhores da MPB
  27. Estatuto da Pessoa com Deficiência: agora começa luta para qualificar a mão de obra
  28. A verdadeira história da Revolução Constitucionalista
  29. Marreco jogou melhor no tricolor do que Pato e Ganso
  30. Maria Bethânia: quinta melhor voz da MPB em todos os tempos
  31. Você já foi chamado de “coxinha”?
  32. Descubra o que São Paulo perdeu visitando acervo digital
  33. Descubra o que São Paulo perdeu visitando acervo digital (2)
  34. Livro e exposição resgatam chegada do zepelim ao Brasil
  35. Arqueólogas descobrem no Rio caminho secreto de Dom Pedro I
  36. Mostra desvenda a figura do Morgado de Mateus
  37. Em novo livro Gilles Lapouge declara seu amor ao Brasil