Geraldo Nunes, jornalista e memorialista,
integra a Academia Paulista de História.
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Reflexões sobre a Revolução Constitucionalista de 1932

86 anos depois da revolução que mobilizou o povo paulista contra a ditadura instituída pelo poder central, se pede ainda coisas parecidas, como o respeito aos cidadãos e à cidadania, suas instituições e uma Constituição democrática

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Em 1932, pouco antes da morte, no leito hospitalar, um jovem com apenas 15 anos de idade, Dráusio Marcondes de Sousa, teria dito de maneira enfática “Se mil vidas eu tivesse, mil vidas eu daria pela nobre causa da libertação da terra que me viu nascer.” A data de seu nascimento, é 22 de setembro de 1917, sua terra natal: São Paulo.

Dráusio foi atingido por tiros quando assistia um ato público na Praça da República, na noite histórica, mas também violenta de 23 de maio. Seguira para lá de livre e espontânea vontade acompanhando seus colegas estudantes surpreendidos pelos disparos vindos da sede da polícia política instituída pelo regime ditatorial, localizada em um dos andares de um edifício próximo da esquina daquela praça com a Rua Barão de Itapetininga.

Outros três jovens foram feridos gravemente naquela noite e Dráusio morreria dias depois no hospital. Da comoção causada pela truculência, surgiu a sigla MMDC em homenagem aos quatro heróis que tombaram naquela noite; Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo. Com essas iniciais se fez um movimento que pedia respeito à democracia, com transparência e justiça, para usar palavras atuais.

São Paulo num anseio arrojado se levantou em luta armada e perdeu no confronto, mas deixou o exemplo que veio a comover todo o povo o brasileiro obrigando o governo a ceder favoravelmente a uma Carta Magna surgida em1934, que viria durar pouco tempo, mas que trouxe consigo direitos assegurados posteriormente em outras constituições que vieram permitir a livre manifestação e principalmente o direito do voto não só aos homens, mas também às mulheres.

Certa vez um amigo advogado, Gilberto Pereira Leite, nos disse: “A bandeira paulista que vemos tremular todos os dias em um dos mais conhecidos arranha-ceús do centro da cidade, é a mesma levantada pelos heróis que marcharam pelo Vale do Paraíba com armas em punho para colocar fim à ditadura. Não eram soldados, eram cidadãos e muitos dos quais nem sabiam atirar, mas corajosos seguiram à luta imbuídos de bons princípios de fé, amor e liberdade, sonhando por dias melhores a todos os brasileiros”.

De fato, famílias inteiras se mobilizaram: pais, mães, moças, rapazes, filhos menores; todos de alguma maneira colaboraram na busca de um resultado que se conquistaria aos poucos. Quando olharmos a bandeira paulista lembramos sempre daqueles que deram suas vidas em defesa de uma causa nobre.

Geraldo 1 temproarioDos admiradores desses heróis anônimos ficaram para nós inúmeras mensagens deixadas por ouvintes do programa ‘São Paulo de Todos os Tempos’ que apresentamos durante 14 anos pela extinta Rádio Eldorado AM. Guardamos quase todos em uma pasta digital que abrimos todos os anos para saudar o 9 de julho. São lembranças deixadas por ouvintes contando experiências deixadas pelos pais e avós que viveram e enfrentaram os percalços dos dias em que aconteceu a Revolução Constitucionalista.

Esther Saba, era uma dessas ouvintes. Residente na capital paulista e com página no Facebook, escreveu uma frase que arquivamos: “9 de julho, data que não pode ser esquecida pelos mais velhos para ser entendida pelos mais jovens. Ao compreender a importância de 1932, descobrimos que é possível ao povo brasileiro fazer deste país uma grande nação, com dignidade e persistência, sem desistir”. Wanderley Duck, um entusiasta da memória constitucionalista nos escreveu para dizer que guardava consigo logotipos alusivos à revolução herdados do pai.

Já o poeta Paulo Bomfim, também nosso ouvinte nas manhãs de domingo pela antiga emissora, ainda mantém numa das salas do Tribunal de Justiça, boa parte do acervo de sua família participante intensa dos combates que marcaram a epopeia. Costuma ele dizer em conversas informais que antes de 1932, entre os brasileiros, nem se conhecia a palavra democracia e muito menos o significado dela. Diante dessas reflexões feitas aos amigos, Paulo Bomfim fez publicar em seus contos a frase: “A Revolução Constitucionalista de 1932 foi a pia batismal da democracia brasileira”.

Esperamos de fato que um dia este país possa viver em seu real sentido a plena democracia que respeita as liberdades individuais e assegura a igualdade entre todos os cidadãos.

Salve, salve o 9 de julho! Viva São Paulo e Viva o Brasil!

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