Circulando de carro por uma São Paulo que não volta mais

Circulando de carro por uma São Paulo que não volta mais

Passeando de carro por São Paulo em um desses domingos vazios, desci pela Rua Dona Veridiana e cheguei a pensar que a decadência do centro que invadiu a Vila Buarque não tinha chegado até Santa Cecília quando vi, de pé e conservado, cercado de árvores e bem bonito, o palacete que pertenceu à senhora que hoje dá nome a essa rua, que começa justamente na confluência da Maria Antônia, outra senhora da alta sociedade de outrora, com a Avenida Higienópolis.

Palacete de D. Veridiana da Silva Prado - Av. Higienópolis, nº18, construído em 1883-1884.

Ali está o casarão mandado construir pela própria Veridiana Valéria da Silva Prado, uma mulher de fibra e de ideias avançadas para a sua época e por isso mesmo vítima do preconceito e das más línguas. Nascida em 1825, aos 13 anos, foi obrigada a se casar com um tio bem mais velho que ela. Com os filhos já adultos, Veridiana se separou do tio – marido e mandou construir a casa da rua que hoje leva o seu nome. Lá ela promoveu encontros literários com a intelectualidade da época, levando a sociedade conservadora e boquirrota a fazer seus comentários maledicentes, especialmente após sua separação. Veridiana tinha por dama de companhia uma senhora negra, que sabia francês e era pianista.

O mordomo era um índio sobrevivente da tribo dos botocudos, hoje extinta. Seu cocheiro era um suíço, que nos fins de tarde a levava para passear em uma charrete pelas cercanias. Dona Veridiana morreu em 1910 e descansa perto de sua antiga casa, no cemitério da Consolação.

Foi assim também, andando de carro pelas imediações, que fiquei tentando espiar por entre as frestas um pouco da casa, lembrando a importância dessa mulher, mãe do Conselheiro Antônio Prado, firme defensor da abolição da escravatura e da abertura do Brasil aos imigrantes estrangeiros. Mais tarde, ele também seria o primeiro prefeito da cidade no período republicano com um mandato que durou onze anos. Dona Veridiana morreu em 1910 e descansa perto de sua antiga casa, no cemitério da Consolação.

Roda dos Enjeitados: Amas de leite, em 1909: 4.696 órfãos foram criados na Santa Casa.Descendo mais um pouco a rua, avistamos o muro que dá fundos à Santa Casa de Misericórdia, um lugar santo que atende diariamente centenas de pessoas em seu pronto-socorro. Ali são atendidos os inúmeros motoqueiros que se acidentam no trânsito ou ainda as vítimas de atropelamento levadas pelo Samu ou pelos Bombeiros, e claro, também os feridos a bala em decorrência da violência urbana. No prédio em estilo gótico da Santa Casa, inaugurado em 1884, também funciona uma faculdade de medicina onde os médicos residentes auxiliam seus professores doutores nas cirurgias de urgência, na maioria gratuitas.

Não iremos aqui entrar em detalhes sobre a crise financeira que se abateu sobre a entidade criada pela rainha de Portugal, Dona Leonor de Lencastre, em 1498 e trazida ao Brasil pelos nossos colonizadores. A Santa Casa de São Paulo, como todas as demais, é maior, mais importante e mais sublime que a crise econômica, moral e política que atinge o país, pois seu objetivo principal é o de salvar vidas. Além desse objetivo, ao longo de sua história, a Santa Casa desenvolveu um papel social importantíssimo por ter acolhido inúmeras crianças, filhas de mães solteiras ou sem condições de criar seus filhos.

A Santa Casa manteve durante séculos a 'Roda dos Enjeitados', ou 'Roda dos Excluídos', também conhecida em Portugal como 'Roda dos Expostos'. Na Santa Casa de São Paulo existia, no muro da Rua Dr. Cesário Mota Júnior, entre os tijolos, uma portinhola que dava acesso a uma caixa de madeira com espaço de aproximadamente 50 centímetros, no formato de uma circunferência. A portinhola ficava voltada para a calçada e servia para que as mães abandonassem a criança sem precisar se identificar. Ao girarem a roda para o lado de dentro, soava um badalo avisando as freiras que recolhiam os recém-nascidos conduzidos depois a um orfanato.

Existem ainda milhares de filhos e filhas da roda, pois a 'Roda dos Enjeitados', surgida em 1726, funcionou na Santa Casa paulistana, até 1950. São pessoas que apesar de crescerem longe de suas famílias de origem, se fizeram dignas, graças ao amparo oferecido no início da vida, pela Santa Casa de Misericórdia. A 'Roda' foi muito importante para São Paulo e convenhamos, faz uma falta tremenda, porque ao se descer de carro pela Rua Dona Veridiana, chega-se facilmente ao baixos do minhocão, onde exclusão social atinge dimensões grotescas, abraçando famílias inteiras e não só as crianças, que por sua vez perambulam em meio à mendicância se tornando vítimas do crack, do alcoolismo e dormindo ao relento nos baixos da também santa marquise que pelo menos impede que durmam no completo relento de uma cidade onde infelizmente seus moradores vivem em completo individualismo, mal se cumprimentando.

Igreja de Santa CecíliaContinuando a descer a Rua Dona Veridiana, chegamos de carro à esquina da Canuto do Val. Dizem que o homem que agora dá nome a essa rua foi um importante médico sanitarista. Neste corredor as calçadas foram alargadas se tornado um “point” da fervilhante noite paulistana, com seus bares e restaurantes administrados pela sempre sorridente Lilian Gonçalves. Ela é a dona da Rede Biroska e responsável pela criação da 'Calçada da Fama' que funciona nos moldes da Hollywood Bulevar, em Los Angeles, ostentando em seu piso os nomes do cenário artístico nacional.

Dois nomes já estão lá colocados: o de Roberto Carlos e de Nelson Gonçalves, que Lilian assegura ter sido seu pai. Em uma cidade como São Paulo, não faltam críticos a qualquer projeto. Sendo assim, alguns consideram a ideia brega, outros aplaudem e defendem. Passando de automóvel, embora rapidamente, deu para perceber que o lugar está limpo, conservado e que ninguém sairá triste se for até lá. Querem saber? Lilian Gonçalves engrandece São Paulo e o Santa Cecília, tão carente e degradado.

Este bairro, a meu ver, é símbolo da diversidade cultural desde os tempos de Dona Veridiana Prado, cuja rua termina na esquina com a Frederico Abranches, nome de um advogado que se bacharelou em 1864 e exerceu brilhante carreira. No local, rememorei a decada de 80, quando ali existia o 'Espaço Retrô', um bar frequentado por góticos, metaleiros, punks, skatistas, adeptos do new wave e de outras tendências da época, que chegavam ali de todas as partes da cidade. São dessa época também os “carecas” e os “moicanos”, adeptos de neonazismo que apareciam por lá, sempre interessados em arrumar uma “treta”. O Retrô funcionava em uma residência construída nos anos 20 e fechou suas portas por volta de 1990. A casa que serviu ao bar foi demolida e virou um estacionamento.

Nas imediações também funcionou a 'Star Light”, uma discoteque dos anos 70 que funcionou na Rua Jesuíno Pascoal. O lugar era super apertado, a casa lotava e o calor era quase insuportável, mas o ritmo era tão dançante que ninguém arredava pé aos som dos Bee Gees, Donna Summer, Village People, Rita Coolidge, Frenéticas e Lady Zu. Só para complementar; Jesuíno Pascoal foi um coronel do exército e político de grande influência na São Paulo do pós proclamação da República.

Passando pela Rua Frederico Abranches, já na direção da zona sul, sentido da Avenida Amaral Gurgel, ainda deu tempo de observar com carinho, mesmo de carro, os fundos da Igreja de Santa Cecília ainda bem cuidados. No passado o templo era um dos favoritos das moças casadoiras. Muitos casamentos aconteciam ali, mas hoje, ao lado da saída da Estação do Metrô que leva o nome do bairro, as noivas buscaram refúgio em lugares mais nobres. Ao passar pela igreja da santa que é a protetora dos músicos, também me veio à mente uma canção de Caetano Veloso que fala de um sonho feliz de cidade onde se aprende depressa a chamar de realidade, “porque és, o avesso, do avesso, do avesso...”

(*) Geraldo Nunes, jornalista e memorialista, integra a Academia Paulista de História. (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.).