Vamos falar da Mooca?

Nunca morei na Mooca, mas fui convidado a participar de uma antologia literária promovida pela jornalista Thaís Matarazzo que criou sua própria editora e chamou colegas de profissão para lançar junto com ela um livro falando sobre este bairro

Fundada em agosto de 1556 por um grupo de jesuítas, o que viria a ser o bairro da Mooca só começou a ganhar as feições atuais no fim do século XIX.

Participaram, além dela e deste colunista, o especialista em histórias do futebol, Fernando Razzo Galuppo e o pesquisador musical Ayrton Mugnaini Jr e aproximadamente outros quinze autores. O livro lançado em 21 de maio último, ainda está em catálogo e leva um título convite: Vamos Falar da Mooca?

No texto conto que nunca morei neste bairro, mas o trago em meu coração por vários motivos. Um deles é que na Rua Javari assisti à minha primeira partida de futebol profissional, com jogadores uniformizados, torcida, árbitro e bandeirinhas. O jogo foi entre o Juventus e o XV de Piracicaba, terminando em 2 a 1 para o “moleque travesso”. Naquela época o futebol para mim era algo muito importante porque o Brasil havia sido campeão no México em 1970, tudo transmitido ao vivo pela TV, uma novidade.

Fiquei empolgado. Terminada a Copa do Mundo quis continuar vendo jogos ao vivo, mas não era como hoje, com canais a cabo que transmitem tudo quanto é jogo e a internet não existia nem nos filmes de ficção científica. Outra realidade, nesse tempo a televisão era em preto e branco e os jogos do fim de semana só passavam depois das dez da noite em vídeo – tape e em preto e branco. Quem quisesse ver a cor do gramado que fosse ao estádio. Para um são-paulino de 12 anos ir ao Morumbi, um lugar até então afastado, sozinho ou com os amigos da mesma faixa etária, era algo proibido pelos pais. Morando no Ipiranga, bairro vizinho à Mooca, nos restava ir ao modesto estádio Conde Rodolfo Crespi que por sinal só me deixa boas recordações.

Naquelas dependências, até hoje, quem comparece sente o cheiro da grama, escuta a conversa dos jogadores dentro de campo e aprende de ouvido a entender a lei do impedimento, por causa do barulho do chute na hora do lançamento. Enfim, conheci a Mooca graças ao futebol e depois, anos mais tarde, vim descobrir alguns de seus personagens eternos com suas histórias e as tradições desse bairro, berço da industrialização paulistana que deu emprego e moradia aos imigrantes que chegaram a São Paulo, especialmente da Itália, lá pelo final do século XIX.

Alfredo Di CuntoTal condição deu um modo especial de conversar que só a Mooca tem. O cronista Guido Carlos Piva apelidou esse sotaque de 'moconês', ou seja, a linguagem da população que mistura um pouco do italiano com o português pronunciado na capital paulista. Lançado em 2000, o livro “Orra Meu! O canto da Mooca”, de Guido Carlos Piva, é quase todo escrito no dialeto “moconês”. “Dentro de casa nossos pais e avós falavam italiano e a gente escutava tudo, depois na rua o povo falava português e a gente entendia, mas misturava as coisas”, explicava o cronista para arrematar no mais puro 'moconês': “ ...Orra Meu! Tenho uma sodadi no mio peito qui io nó queria nem falá! Sodadi daqüeli tempino qui io acordava cedino e ia prá igreja Dom Bosco rezá...”

O 'moconês' escrito por Guido Carlos Piva, no limiar do século 21, é na verdade, uma transcrição bem humorada do modo cantado meio a italiana de conversar graças ao convívio daqueles que ouviam os antigos imigrantes falando a língua portuguesa. Isto era observado também em outras épocas.

Um outro cronista, Antônio de Alcântara Machado, por volta de 1927 usava o termo “macarrônico” para definir o formato de linguagem dos italianos. Antes ainda, por volta de 1915, Juó Bananère, levou para os textos a linguagem falada pela numerosa colônia italiana de São Paulo até a primeira metade da década de 1930. Sua principal obra foi “La Divina Increnca”, publicada pela primeira vez há mais de cem anos e reeditada em 1994. Todos os seus textos, desde artigos publicados nos periódicos e panfletos, eram marcados por uma linguagem satírica.
Juó Bananère era, na verdade, o pseudônimo do escritor brasileiro Alexandre Marcondes Machado, que auto-intitulava-se “Gandidato à Gademia Baolista di Letteras” (Candidato à Academia Paulista de Letras). Um trecho interessante é a sátira do poema "Canção do Exílio" de Gonçalves Dias: “Migna terra tê parmeras, che ganta inzima o sabiá, as aves che stó aqui, tambê tuttos sabi gorgeá. A abobora celestia tambê, chi tê lá na mia terra, tê moltos millió di strella, chi non tê na Ingraterra. Os rios lá sô maise grandi, dus rio di tuttas naçó; I os matto si perdi di vista, nu meio da imensidó...”

Campo da Javari em 1930.Só pela leitura já se percebe que o sotaque “macarrônico” era mais carregado que o 'moconês' observado por Guido Piva que traz só uma ponta de sotaque italiano pronunciado a brasileira. Todos os imigrantes que chegaram no início do século XX, obviamente já morreram, mas seus descendentes continuaram morando na Mooca. O nôno deixou a casa operária que ele construiu com quintal, cerca e um pequeno pomar para o filho que nasceu no Brasil. Este, anos mais tarde, retirou a cerca e construiu um muro baixo com portão e um jardim na frente. Por sua vez o neto, que herdou a casa fez nova reforma, retirando o jardim da entrada, construindo uma garagem e substituiu o portão por uma grade de ferro para poder guardar o carro.

Na década de 1990 o jornalista Milton Rodrigues Alves, lançou um livro chamado “Casas Paulistanas”, onde mostrou fotos das antigas residências que se mantiveram com jardim e muro baixo, se constituindo na época em pequenos tesouros da memória. Essas casas, muitas delas, foram sendo demolidas e nos terrenos se ergueram torres de apartamentos. Embora algumas ainda resistem, o tempo e o mercado imobiliário se encarregará de dar cabo delas. Daí a importância do livro de Milton Rodrigues Alves, um verdadeiro documento que vai ajudar a contar a história da transformação de São Paulo. Na tradicionalíssima Mooca permanecem alguns bisnetos dos primeiros imigrantes e assim o sotaque italiano, embora diluído, vai sobrevivendo.

Dos antigos moradores com sotaque, tive a honra de conhecer Alfredo Di Cunto, nascido na Itália no ano de 1922, em San Marco di Castellabati, uma cidade perto de Nápoles. Ele foi o filho mais novo de uma família de dez irmãos cujo pai, Donato Di Cunto, montou uma padaria que se transformou em uma das maiores confeitarias da cidade, a Di Cunto que agora também tem um restaurante muito bom. Donato chegou ao Brasil por engano, em 1878, conforme me contou seu Alfredo. “Meu pai estava com dezessete anos e era analfabeto, tomou um navio para ir até Montevidéu, onde tinha parentes, mas se atrapalhou e desembarcou antes, no porto de Santos”.

Chegando à capital paulista, Donato conseguiu emprego logo em seguida e ficou por aqui, trabalhando direto até 1895 quando voltou à Itália para visitar a mãe dele. “Lá - disse Alfredo Di Cunto – a minha avó ficou preocupada por saber que depois de tanto tempo no Brasil, ele não tinha ainda se casado. Meu pai explicou que naquele tempo moça brasileira dificilmente se casava com estrangeiro e aí minha avó deu um jeito arranjando uma esposa para ele lá na Itália mesmo e foi assim que ele se casou com a minha mãe e pelo que percebi se gostaram porque tiveram dez filhos”, explicou.

Donato retornou ao Brasil, mas a esposa continuou na Itália, tanto que seu Alfredo era italiano. “Ele ia visitá-la a cada seis meses e conforme os filhos iam crescendo, trazia para o Brasil e punha para trabalhar”, informou Alfredo, como filho mais novo foi ficando por lá. O pai faleceu em 1932 e a mãe dois anos depois. Alfredo então, finalmente embarcou para o Brasil chamado pelos irmãos, logo após depois de completar 13 anos. Trouxe consigo uma receita de panetone escrita pela mãe. Por isso até hoje a Di Cunto se orgulha de ter fabricado, o primeiro panetone do Brasil.

“Quando cheguei, a Mooca já era considerada região urbana, onde não se podia, por exemplo, amarrar cavalos ou guardá-los durante a noite e por causa disso, eu tinha que levantar de madrugada, todos os dias às 4 horas da manhã e ir até um estábulo onde estavam os animais que eu colocava na carroça e saia para fazer a entrega do pão de porta em porta”, contou. Seu Alfredo se foi, mas a Di Cunto continua funcionando a todo vapor na Rua Borges de Figueiredo.

Apontamentos históricos sugerem que a Mooca surgiu em 1556, quando jesuítas construíram uma ponte sobre o Rio Tamanduateí. O nome do bairro tem origem tupi, uma junção de “moo” (fazer) e “oca” (casa). De lá para cá muitas transformações aconteceram, o perfil fabril do século XX ficou para trás, a Mooca hoje tem mais de 65 mil habitantes e vem crescendo cada vez mais em termos imobiliários.

A Mooca possui 7,7 km² de área e tem Hino, brasão e bandeira. Os moradores são extremamente bairristas e lutam, junto as autoridades, para preservar o patrimônio arquitetônico e cultural do bairro. Você adquire o livro “Vamos falar da Mooca?”, na Rua Javari, 403 – Associação Amo a Mooca ou em contato com (www.editoramatarazzo.com.br).

(*) Geraldo Nunes, jornalista e memorialista, integra a Academia Paulista de História. (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.)