Os 60 anos da Bossa Nova e as reflexões sobre o destino da Música Popular Brasileira

Até o final da década de 1950, o violão não era bem aceito entre as famílias. Quem tocasse esse instrumento dentro de casa era chamado à atenção pelos mais velhos e ser considerado boêmio ou até mesmo malandro

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Homem que gostasse de música tinha também que mostrar masculinidade e deveria ficar longe também do piano, um instrumento para mulheres. O próprio Tom Jobim chegou a dizer ter compartilhado desse posicionamento em certa fase de sua vida deixando por preconceito o piano de lado para só sua irmã dedicar-se a ele no aconchego familiar.

Por conta desses valores, quem fosse homem e de boa cepa só deveria dar vazão ao talento musical através do acordeom. Certa vez em uma entrevista Edu Lobo disse que a harmônica, também chamada popularmente de sanfona, é um instrumento difícil de tocar e perigoso. “Se o cara errar um acorde todos percebem e não tem jeito de disfarçar”, explicou o premiado compositor ao relatar que, na adolescência, estudou acordeom durante sete anos.

Dessas explicações se percebe a importância da Bossa Nova, como divisor de águas na música brasileira. Surgida com o lançamento em disco da canção “Chega de Saudade”, na voz de João Gilberto, em julho de 1958, o novo ritmo permitiu a entrada do violão nas casas de família passando a ser aceito pelos bons modos da nova harmonia, menos incisiva, mais macia e melodiosa. A música passou ganhou sobriedade ao violão com João Gilberto que cantava baixinho, quase sussurrando, de modo até sensual para assim modificar de vez a maneira de se interpretar uma canção.

Antes o bom cantor tinha que ter voz forte e a Bossa Nova modificou essa estética ajudando até mesmo o piano (por conta de Tom Jobim) a obter a alforria e ser tocado por qualquer pessoa independente do sexo, raça ou cor. Não fosse o esse novo estilo talvez até mesmo Roberto Carlos não seria o sucesso que foi e ainda é. Exatamente um ano depois do lançamento de “Chega de Saudade”, Roberto entraria pela primeira vez, em julho de 1959, num estúdio de gravação para lançar seu primeiro disco, o 78 rpm com as canções “Fora do Tom”, de Carlos Imperial, e “João e Maria”, do próprio Roberto em parceria com Imperial.

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Sylvinha Telles se apresenta em São Paulo, março de 1963. Sylvinha foi a primeira cantora profissional a integrar o movimento da bossa nova. Foto: Conteúdo Estadão/AE

Esta última acabou ficando com o Lado A do disco lançado pela Polydor. Ainda não seria este o primeiro sucesso do “Rei”, mas o interesse de uma gravadora por sua voz parecida com a de João Gilberto demonstra que a Bossa Nova modificava a compreensão do sentido do que era música de qualidade.

Bossa Nova, escrita com letras maiúsculas, diz respeito a um movimento surgido entre jovens músicos da zona sul carioca que tinham nas figuras de Tom Jobim, Newton Mendonça, Carlos Lyra, Ronaldo Boscoli e Nara Leão, seus principais expoentes. Já a bossanova, em letras minúsculas, define a batida diferenciada de João Gilberto ao violão no ritmo de samba.

 

 

 

 

 

 

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João Gilberto em 1959 Foto: Iconographia

Roberto Carlos começou influenciado pela bossanova, mas a chegada dos Beatles levou as gravadoras a introduzir mais um novo ritmo que na definição tupiniquim levou o nome de 'iê,iê,iê', para mais tarde ser definido como Jovem Guarda, programa de televisão que passou a ser apresentado por ele. Com seu balanço mais agradável aos adolescentes abre-se uma caminho paralelo ao da Bossa Nova mais intelectualizada. Quase ao mesmo tempo surge a Tropicália, de Gilberto Gil e Caetano Veloso com suas canções de protesto bem aos gosto dos universitários da época.

Toda essa miscelânia cultural motiva uma contestação contrária à presença das guitarras elétricas na música brasileira. Em 17 julho de 1967, com o ambiente político também efervescente mas ainda permitindo manifestações (o AI-5 só viria em 1968), se faz uma passeata contra as guitarras em oposição ao que se considerava um subproduto da invasão cultural norte-americana.

Munidos de carro de som, altofalantes, faixas e cartazes, artistas sairam em uma quarta-feira, por volta das cinco da tarde, do Largo São Francisco, palco de históricas manifestações estudantis em São Paulo, na direção do Teatro Paramount, na Av. Brigadeiro Luiz Antônio, tendo Geraldo Vandré e Elis Regina à frente acompanhados por Gilberto Gil, Edu Lobo, Jair Rodrigues e outros cantores, além de uma multidão de manifestantes.

Chico Buarque, Caetano Veloso e Nara Leão não participaram. Logo depois, Gilberto Gil e Edu Lobo se disseram arrependidos e a própria Elis se redimiu ao aceitar o acompanhamento de guitarras elétricas ao gravar “Nas curvas da estrada de Santos”, de Roberto e Erasmo. A justificativa de defender um som mais acústico para a música brasileira, mostrou-se autoritária. Daquele dia em diante ficou claro que nem Bossa Nova, Jovem Guarda ou Tropicália sobreviveriam.

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Baden Powell e Vinícius de Moraes durante gravação, em janeiro de 1963. Foto: Folhapress

Da “Geleia Geral” cantada por Gilberto Gil, surgiu a MPB, sigla de uma abreviatura que buscou definir a Música Popular Brasileira de qualidade. Artistas considerados mais ao gosto do espírito estudantil fizeram parte deste seguimento. Roberto Carlos por sua vez, continuou seguindo um caminho diferenciado e mais maduro, passou a ser um cantor romântico de voz suave fazendo sucesso. Desde então, Bossa Nova e Jovem Guarda viraram sinônimo de nostalgia.
Agora, 60 anos depois e quase ao final da segunda década do século XXI com o Brasil passando por outra profunda crise econômica, política e de valores sociais, a conclusão que se chega é que os movimentos musicais do século XX quase não deixaram legado às gerações que vieram depois. O que se faz hoje na música brasileira pouco tem a ver com a Bossa Nova, Tropicália ou Jovem Guarda.
O jovem brasileiro atual até mesmo desconhece o significado da sigla MPB. Nosso país segue vivendo um turbilhão e a música brasileira, como expressão cultural, se mistura a esse redemoinho de incertezas.

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