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Dançarinas de aluguel que atuavam nos taxi-dancings de São Paulo

No momento em que se discute a questão levantada por atrizes internacionais reclamando do assédio sexual, a jornalista e escritora Thaís Matarazzo lança um livro que conta a vida das dançarinas de aluguel que atuavam nos taxi-dancings de São Paulo, ou seja, salões de baile como o Avenida Danças, na Av. Ipiranga, com garotas contratadas para dançar com os clientes: Taxi Dancings, Gafieiras e Histórias Musicais, é seu título

Garotas esperando parceiros para a dança.

Esse sistema de entretenimento funcionou na capital paulista até 1976. Depois acabou engolido por outro modismo, as disco-dances. Os taxi-dancings no Brasil surgiram na década de 1920 sob a influência dos espaços dançantes surgidos nos Estados Unidos e que se tornaram febre após a Primeira Grande Guerra, especialmente nos grandes centros urbanos. Essas casas destinadas ao público masculino tinham como pano de fundo a música de uma orquestra com seus cantores, pista de dança, bar, mesas, cadeiras e moças que sabiam dançar bem.

Os pares recebiam na entrada um cartão que era perfurado a cada música. O glamour fazia parte do ambiente, bem como a ilusão entre os rapazes que a mesma bailarina que o atendia na contradança pudesse estar depois em seus braços para uma noite de amor. Isto dava ao local um aspecto de sonho movido a galanteios e sedução. Para as taxi-girls, entretanto, se tratava de uma atividade profissional que se fazia respeitosamente entre pessoas bem trajadas, sendo obrigatório aos homens o terno e a gravata.

Thaís MatarazzoAo convidar uma das moças também elegantemente trajada para dançar, o cartão era picotado de acordo com a quantidade de músicas dançadas se pagando por isso na saída. As dançarinas recebiam uma parte do valor arrecadado a cada música e a outra parte, sempre maior, ficava a casa. Por isso interessava às moças dançar quanto mais vezes possível.

Evidentemente o galanteio e o assédio aconteciam e algumas dessas taxi-girls decidiam partir para uma “dupla jornada” depois, já fora do expediente. Outras acumulavam atividades durante o dia, atuando como enfermeiras, babás, cuidadoras, datilógrafas; antecedendo a atividade noturna que acontecia em lugares fechados, repletos de fumantes e insalubres. As histórias relatadas dão conta que muitas dançarinas terminavam vítimas da pneumonia ou da tuberculose, entre outras doenças, quase sem nenhuma assistência.

Outros relatos sobre o mundo e submundo da dança dão conta de amores perdidos, relações difíceis, triângulos amorosos; todos eles contados por dançarinas ou antigos frequentadores, como um advogado paulistano que se apaixonou por uma taxi-girl, mas esta depois de idas e vindas, acabou se casando com outro homem. A essa mulher foi dedicada uma poesia, guardada durante anos no fundo do baú e só agora revelada no livro.

Há também o caso pitoresco de uma bailarina da vida noturna que por ironia do destino se tornou a primeira pessoa na América Latina e a segunda do mundo, a receber um intestino transplantado no Hospital das Clínicas, em 18 de agosto de 1968, pela equipe do famoso médico Dr. Euryclides Zerbini, o pioneiro dos transplantes no Brasil.

A pesquisa traz também um amplo levantamento de anúncios de jornais e revistas de época de forma a envolver o leitor no assunto cujo tema vai se tornando mais interessante a cada página. Como dizem os editores, “um livro só termina quando é arrancado das mãos de seu autor”. Geralmente os escritores vão encontrando sempre algo a mais para complementar sua obra e ficam adiando o fechamento da obra.

Assim aconteceu com Thaís Matarazzo que durante as entrevistas foi descobrindo mais e mais pessoas com histórias interessantes sobre os taxi-dancings e seus bastidores, tanto que já cogita escrever uma sequência em futuro próximo com os novos relatos que estão sendo obtidos.

Materia 02 temproarioDona de sua própria editora, Thaís Matarazzo tem por especialidade transmitir nas letras as interpretações do passado recente em linguagem fácil para que todos compreendam como eram os corações e as mentes de um tempo ainda não tão distante. Os temas levantados nem sempre são assuntos conhecidos dos mais jovens, embora seja a autora, uma escritora bem moça, com menos de 35 anos de idade. Isso possibilita alcançar esse público, especialmente os que estão cursando as faculdades.

Os assuntos são apresentados com uma descrição inicial de como era o cotidiano em décadas passadas servindo agora de referência para o desenvolvimento de estudos sobre o comportamento da população que vivia nas grandes cidades durante o século XX. Quem quiser comprar o livro deverá entrar em contato pelo tel. (11) 33991-9506 ou (www.editoramatarazzo.com.br).

(*) Geraldo Nunes, jornalista e memorialista, integra a Academia Paulista de História. (O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.).

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