Senado do Império estudou transposição do Rio São Francisco

Assim que as comportas da barragem cravada na divisa de Pernambuco com a Bahia se abriram, as águas represadas do Rio São Francisco caíram num imenso canal de concreto e rolaram com fúria rumo ao norte, para dar vida às terras mais ressequidas do sertão

Biblioteca Nacional

Navios a vapor percorrem o São Francisco, em Alagoas, em 1870: províncias do Império brigaram para receber águas do grande rio.

A cena se deu em março, e quem acionou o botão das comportas foi o presidente Michel Temer. Após uma década de obras, era inaugurado o primeiro canal, com 220 km de extensão, da faraônica transposição das águas do Rio São Francisco. O outro canal, com 270 km, está quase pronto e irrigará outras paragens do semiárido.
Embora só agora se torne realidade, o sonho de fazer o sertão virar mar tem pelo menos dois séculos. O primeiro plano de transposição de que se tem notícia remonta à década de 1810, no fim da Colônia, mas a ideia só começaria a ser levada a sério anos mais tarde, no Império. Dom Pedro II esteve bem perto de executar o “encanamento” (a palavra usada na época) das águas do Rio São Francisco. Documentos históricos sob a guarda do Arquivo do Senado e da Câmara mostram que vários projetos que previam a transposição passaram pelas mãos dos senadores e deputados do Segundo Reinado. "Basta fazer um canal. Não é difícil. Cavar e atirar a terra para os lados pouco custa. As mesmas águas que correm farão o resto", disse o deputado França Leite (PB) no Plenário em 1846. "Uma enxada dirigida por um homem pode levar água até o fim do mundo", insistiu no argumento o deputado Venâncio de Rezende (PE) em 1852.
As secas cíclicas castigam o Norte (como se chamava a porção do país acima de Minas Gerais) desde sempre, dizimando plantações, matando rebanhos e levando sede, fome, doença e miséria à população. Mesmo assim, nenhum dos projetos do Parlamento imperial que previam o “encanamento” vingaria. Da nascente à foz, o São Francisco mede 2.700 km — quase a mesma distância entre Porto Alegre e Maceió. É o maior rio localizado integralmente no Brasil. As águas brotam no alto da Serra da Canastra, correm para o Nordeste, banham cinco estados (Minas, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe) e caem no Atlântico. Por percorrer uma faixa tão extensa do país, ganhou o apelido de Rio da Integração Nacional.
Senado 3 temproario"O Rio de São Francisco é o nosso Nilo, o nosso Mississipi", comparou o senador Fernandes da Cunha (BA) em 1871. Quem lança os olhos para o nosso sistema hidrográfico vê os Rios Paraná e Paraguai circulando todo o Império ao sul, vê no norte o vasto oceano do Rio Amazonas e vê no centro o patriarca das águas interiores do Império, o caudaloso São Francisco, rolando plácida e majestosamente. Quando cruza o semiárido, o São Francisco enfrenta escassez de chuva, evaporação intensa e falta de afluentes permanentes. Embora seu volume baixe, o rio se mantém relativamente caudaloso, o que faz de suas margens um enclave verde em pleno sertão.
No século 19, o Senado e a Câmara analisaram tanto projetos de lei que criavam comissões de engenheiros para desenhar o trajeto dos canais de água, quanto projetos que liberavam as verbas necessárias para tirá-los do papel. Os primeiros foram aprovados. Os segundos, não. Cada proposta previa uma província do Norte como a receptora das águas, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte ou Paraíba, a depender da origem do senador ou deputado autor da proposta. Na batalha interprovincial pela cobiçada vazão do Rio São Francisco, os parlamentares mais aguerridos foram os cearenses.
Eles sonhavam com um rio artificial que alimentasse o Riacho dos Porcos e os Rios Salgado e Jaguaribe. Até hoje, os três secam nos meses de estiagem. Uma vez concluído o “encanamento”, eles se tornariam perenes.
Em 1850, o deputado Araújo Lima (CE) aproveitou a discussão sobre um projeto que reajustaria o salário dos juízes e desviou o debate para a transposição: "No exame da conveniência de elevar o ordenado da magistratura, perguntarei: acaso não existem no país necessidades que com maior força podem ser satisfeitas? O Ceará carece de melhoramentos materiais. É preciso que se empreguem os meios convenientes para fazer desaparecer as secas que o assolam. Entre esses meios, o que se aponta como o mais apropriado é um canal que comunique o São Francisco com o Salgado".
Senado 4 temproarioO deputado continuou: "Na falência de melhoramentos materiais, o Ceará será despovoado, reduzido a um deserto. Dispensará, portanto, as vantagens de uma boa magistratura, porque os desertos não precisam de Justiça. Despesas com a abertura do canal, portanto, serão infinitamente mais úteis do que com a elevação dos vencimentos da magistratura". Em 1864, o deputado Liberato Cardoso (CE) recorreu a uma estratégia mais criativa. Ele narrou um cruzeiro iniciado em Minas:
"Nosso barquinho foi contemplar as maravilhas do Mississipi brasileiro. Ao chegar à província de Pernambuco, em vez de continuar pelo São Francisco, virei de proa, sulcando as águas do canal que se abriu do Cabrobó [PE] ao Riacho dos Porcos. Saudando a Serra do Araripe e a rica cidade do Crato [CE], entrei pelo Rio Salgado. Deixando à minha direita a bela e risonha cidade do Icó [CE], tomei o Rio Jaguaribe". Com tantos detalhes, os colegas que o escutavam sentiram como se estivessem a bordo do navio.
Terminada a narrativa, Liberato Cardoso trouxe os deputados de volta à realidade. Aquele lindo cruzeiro jamais fora feito. Motivo: faltava o canal que unisse o São Francisco aos rios cearenses. "Esse sonho, senhores, pode ser realidade no futuro", continuou ele. "O que convém? Que não viajemos com a imaginação, e sim com o orçamento em uma mão e o compasso na outra". Em outras palavras, a transposição exigia dinheiro e conhecimentos de engenharia. Na avaliação dos defensores da obra, o Império dispunha tanto do “orçamento” quanto do “compasso”.
O deputado paraibano França Leite afirmou em 1846 que o salário dos operários não pesaria nos cofres públicos: "Aquela gente do Norte acha-se sem trabalho e não duvidaria ganhar a subsistência por meio do seu trabalho. Um homem trabalha um dia inteiro de enxada por 100 réis e de machado por 160 réis. Com salários tão baixos, o trabalho se pode fazer sem grande despesa".
Dom Pedro II tocou com frequência no tema da estiagem nas falas do trono, os pronunciamentos que ele proferia duas vezes por ano no Senado. Em 1878, no meio de uma das secas mais violentas da história, discursou: "O flagelo da seca devasta há quase dois anos uma parte considerável do Norte do Império, afligindo profundamente o meu coração. Para minorar as consequências de tamanha calamidade, tem o governo empregado os meios a seu alcance". Os “socorros públicos” consistiam basicamente de cereais para a população carente e empréstimos para os fazendeiros.
As falas do trono nunca trataram da transposição. O tema, porém, constava da pauta do governo. Em 1852, dom Pedro II contratou o engenheiro alemão Henrique Guilherme Fernando Halfeld para elaborar dois projetos: um que tornasse o São Francisco integralmente navegável e outro que desviasse água do rio para outros pontos do semiárido. Os croquis de Halfeld seriam engavetados. O que movia dom Pedro II não era exatamente a benevolência. Ao mostrar-se consternado com o infortúnio dos “nortistas” abatidos pela seca, ele tinha um objetivo não declarado. O historiador Gabriel Pereira de Oliveira, professor do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e estudioso do São Francisco no Império, explica:
"No século 19, a ideia de nação ainda não estava cristalizada no Brasil. As províncias mais distantes não se sentiam parte do Império, e havia o temor de que nelas explodissem movimentos separatistas semelhantes aos da Colônia e da Regência. Dom Pedro II, então, se apoiou na seca para forjar a imagem do imperador que não se descuidava de nenhum ponto do país e criar nos nortistas o sentimento de que não sobreviveriam sem ele".
Por essa razão, o monarca fez em 1859 uma excursão ao Norte e conheceu o São Francisco. Ele, contudo, não conseguiu nem sequer iniciar a transposição. Faltou o apoio do Parlamento. Os senadores e deputados rejeitaram, ano após ano, todas as emendas ao Orçamento imperial que destinavam verbas à obra.
Segundo o historiador Pereira de Oliveira, do IFRN, o “encanamento” do Rio São Francisco não foi aprovado por causa da briga entre as províncias:
Os senadores e deputados do Norte estavam rachados, cada um querendo que a sua província fosse a beneficiada. E os parlamentares do restante do Império boicotaram todos os planos, desejosos de que a fortuna a ser consumida pela transposição fosse destinada a obras em suas próprias províncias".
O historiador do IFRN explica: "As províncias que esperavam pelas águas do São Francisco não tinham força para aprovar os projetos. Eram pobres, pequenas e sem peso político. Em meados do século 19, o Piauí contava com apenas 3 deputados e o Ceará, com 5. Não tinham como brigar no Parlamento com as províncias poderosas. Minas Gerais, por exemplo, era representada por 20 deputados"
Os parlamentares que pediam a transposição se irritavam com o desequilíbrio político. Como consequência, segundo eles, suas províncias eram tratadas pelo Império a pão e água enquanto as províncias poderosas nadavam em privilégios. "O Ceará não é considerado para os benefícios. Só é considerado para dar soldados e dinheiro para o Império", queixou-se o senador Pompeu (CE) em 1871.
Outro problema contribuiu para que a transposição naufragasse: nem sequer os parlamentares cearenses caminhavam unidos. Embora a maior parte dos projetos beneficiasse o Ceará, houve senadores e deputados da província que, incrivelmente, votaram contra as obras. Numa audiência na Câmara em 1854, o deputado Jerônimo Macário (CE) disse ao ministro dos Negócios do Império, Visconde do Bom Retiro, que seria um erro o Império “mandar engenheiros examinarem as possibilidades de um encanamento de águas do Rio São Francisco” até o Ceará:
O plano de irrigar pontos do semiárido com água do São Francisco ressurgiria de tempos em tempos. Presidentes como Epitácio Pessoa, João Figueiredo e Itamar Franco tentaram executar a obra, sem êxito. As prioridades acabaram sendo os açudes, os poços artesianos e as cisternas.
Após dois séculos de promessas, os canais do Rio São Francisco começaram a ser abertos em 2007, no governo de Lula. O primeiro canal está pronto. O segundo, quase concluído, depende do julgamento de uma ação judicial movida por empreiteiras que disputaram a licitação. Quando toda a obra terminar, a água chegará a 400 cidades de Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba, beneficiando 12 milhões de pessoas (Ag. Senado).

Senado 2 temproario

Mais artigos...

  1. Projeto reacende debate sobre alimentos transgênicos
  2. Lei cria documento único de identificação nacional
  3. Pesquisa e desenvolvimento são principais ferramentas para eficiência energética
  4. Cidades costeiras são mais vulneráveis a mudanças do clima
  5. As empresas precisam “sair do armário”
  6. Eleitores jovens se afastam da democracia tradicional
  7. Brasil poderá ter evento nacional destinado à prevenção do suicídio
  8. Brasil reduz mortalidade materna, mas continua longe do ideal, diz especialista
  9. Consumo excessivo de álcool na balada expõe homens e mulheres a riscos diferentes
  10. Conheça as regras para adotar uma criança no Brasil
  11. Ciclovias em expansão influenciam mercado imobiliário de São Paulo
  12. Em dias de intolerância, pesquisadores destacam valor das mensagens de Gentileza
  13. O fim do carro próprio?
  14. Congresso avalia projetos para atender configurações familiares modernas
  15. BGE: 123 milhões de jovens com 15 anos ou mais não praticam esporte no Brasil
  16. Metabolismo lento: como identificar e reverter o problema que pode prejudicar a perda de peso
  17. Temer nega ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda
  18. Sinal verde para o emagrecimento: combine chá e café para turbinar a queima de gordura
  19. Tese revela luta das brasileiras por direitos civis e trabalhistas
  20. Estudo investiga como vida conjugal influencia carreira feminina
  21. Maio Amarelo quer reduzir acidentes e vítimas de trânsito
  22. Reposição de vitaminas na terceira idade: o que é fundamental para manter o vigor e garantir mais saúde?
  23. Dorival Caymmi, a pedra que ronca no meio do mar
  24. Em São Paulo, 97,8% dos idosos não conseguem atravessar a rua no tempo dos semáforos
  25. Direito do preso de trabalhar é realidade só para minoria
  26. 10 alimentos para aliviar os sintomas do estresse e da ansiedade
  27. Veja o que muda com a reforma trabalhista aprovada na Câmara
  28. Mulheres podem ter direito a escolher o alistamento militar
  29. Cardápio energizante: Como vencer o cansaço e a fraqueza causados pela má alimentação
  30. Um em cada dez estudantes no Brasil é vítima frequente de bullying
  31. Livros infantis ganham espaço no mercado brasileiro
  32. Pesquisas resgatam história genética de remanescentes de quilombos
  33. Gorduras do bem: Conheça os diferentes tipos de Ômega e saiba porque eles são itens obrigatórios no cardápio
  34. Direto da Amazônia, livro revela como a castanha-do-pará ganhou o mundo
  35. Modo de vida camponês ainda resiste entre pequenos agricultores
  36. São Paulo de Todos os Tempos e o sentido de respeito à cidade
  37. Reforma trabalhista recebe 844 emendas; relatório deve ser apresentado na quarta-feira
  38. Proposta proíbe concurso público exclusivo para cadastro de reserva
  39. Há 40 anos, ditadura impunha Pacote de Abril e adiava abertura política
  40. Como a dívida pública afeta cada brasileiro
  41. Lanchinhos no trabalho: Quais substituições podem ajudar a evitar os deslizes da dieta
  42. Abelhas sem ferrão têm guardas especializadas para defender suas colmeias
  43. Discurso das novas dietas reforça padrões de beleza inalcançáveis
  44. Efeitos da seca acentuam de maneira permanente perda florestal na Amazônia
  45. Jogadores contam histórias do preconceito enfrentado na Europa
  46. Saúde e boa forma: aposte na dieta para eliminar a barriga e controlar a síndrome metabólica
  47. Brasil carece de legislação para reúso de água
  48. ONU: crise econômica emperra desenvolvimento humano no Brasil
  49. Livro revela o pouco conhecido Holocausto da Transnístria
  50. Lava Jato completa três anos de investigações com 260 acusados criminalmente
  51. Livro mostra as verdadeiras origens de Corinthians, Palmeiras e São Paulo
  52. Doença renal crônica leva mais de 120 mil brasileiros para hemodiálise
  53. Orçamento taxava dono de escravo e previa salário para Pedro II
  54. Desafiando o Império, há 200 anos Pernambuco criava primeira República do Brasil
  55. Reforma promete ensino médio mais atraente
  56. Maioria das mulheres no Brasil e no mundo prefere trabalhar a ficar em casa
  57. As mulheres e o direito ao esporte
  58. Onde se escondem as poucas onças-pintadas que sobraram
  59. Como apostar nas fibras para reduzir o inchaço e melhorar a saúde
  60. Construção de cisternas leva desenvolvimento à região do semiárido
  61. Bacalhau do Batata levou trabalhadores e foliões para as ruas de Olinda
  62. Novas regras para deportação geram apreensão entre imigrantes nos EUA
  63. Entra em vigor acordo global que pode gerar US$ 1 trilhão de comércio por ano
  64. Quando o carnaval questiona limites de sua própria liberdade
  65. Dieta e malhação: conheça os maiores erros antes e depois do treino e saiba como evitá-los
  66. Consumo de combustíveis no Brasil caiu 4,5% em 2016
  67. Brasil, um desperdiçador em dois mundos
  68. Polícia militarizada favorece manifestações como as do Espírito Santo, diz professor
  69. A explosão da economia compartilhada
  70. Não há nível de desmatamento seguro para o clima na Amazônia
  71. Nordeste entra no sexto ano do que pode ser a pior seca de sua história
  72. Crise do sistema de aposentadorias já preocupava dom Pedro II
  73. Estudo mapeia condições das favelas em São Paulo
  74. Guia alerta sobre consumo precoce de bebidas alcoólicas entre jovens
  75. O grande salto das mulheres em 2015
  76. Confira as eleições que podem mudar o mundo em 2017
  77. Mãe conta drama de enterrar filho degolado em Alcaçuz
  78. Nem leão, nem gazela
  79. A desigualdade posta à mesa
  80. Febre amarela: conheça os sintomas e saiba quando tomar a vacina
  81. Água incita disputa por terras no Nordeste 
  82. Obama termina mandato com boa aprovação e erros, mostram pesquisas
  83. Às vésperas da posse, brasileiros nos EUA estão apreensivos
  84. Oito homens mais ricos detêm mesmo patrimônio que a metade mais pobre do mundo
  85. Iphan completa 80 anos com grande patrimônio e poucos recursos
  86. Contribuições da Fiocruz à sociedade serão foco da nova presidente
  87. Passados 10 anos, ninguém foi condenado por acidente no Metrô
  88. Confira dicas para economizar e itens proibidos na lista de material escolar
  89. Brasil quer intensificar relações com os Estados Unidos e ampliar comércio
  90. Equoterapia estimula crianças com autismo
  91. Programa de cuidado com saúde mental auxilia idosos com depressão
  92. Temer terá de superar desafios políticos para conter crise, dizem especialistas
  93. O clube dos cidadãos de cor
  94. Aos 18 anos, reserva concilia geração de renda e conservação da Amazônia
  95. Ano Novo: Cardápio Novo: invista na reeducação alimentar e dê adeus ao eterno regime
  96. STF analisará em 2017 delações da Odebrecht e validade do aborto
  97. Veja fatos marcantes no cinema, na música e no teatro em 2016
  98. Baixo crescimento marcará economia em 2017, preveem especialistas
  99. Ondas gravitacionais e flor nascida no espaço; relembre fatos da ciência em 2016
  100. Reforma do ensino médio e ocupações em escolas marcaram 2016