Travestis comemoram entrada em universidades e esperam diálogo mais saudável

O Enem de 2015 teve 278 participantes que puderam usar os nomes sociais para fazer as provas. Nesta semana, com o resultado do Sisu, algumas dessas pessoas - travestis, mulheres e homens transsexuais - puderam celebrar a aprovação e as novas perspectivas de vida com a entrada na universidade.

8nov2014 temproario

Na edição do Enem de 2015, travestis, mulheres e homens transsexuais
puderam celebrar a aprovação e as novas perspectivas de vida.

O espaço acadêmico ainda é pouco ocupado por trans e travestis e a representatividade na universidade é, para Ana Flor Fernandes Rodrigues, de 19 anos, fundamental. A jovem, que é moradora de Várzea, bairro do Recife onde fica a Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), fez o Enem pela segunda vez e teve a felicidade de ver seu nome entre os aprovados no curso de pedagogia. Para Ana Flor, esta é uma oportunidade de ampliar a visão que a sociedade tem da comunidade trans: "A pedagogia agora vai fazer com que eu consiga falar sobre mim", explica.

''A partir do momento que eu começar a estudar [pedagogia], ela fará com que eu seja dona das minhas próprias narrativas, e não mais um objeto de estudo", disse Ana Flor. A opinião é compartilhada por Amanda Palha, aprovada em primeiro lugar para o curso de Serviço Social, também na UFPE. "O olhar de fora tem dificuldade de captar algumas nuances da nossa realidade. Sendo sujeitos dessa produção teórica, a relação entre a teoria e a realidade tende a ser mais fácil. Não é uma garantia, mas tende a ser mais fácil", explica a travesti de 28 anos.

Amanda Palha passou a ter interesse pela universidade depois de começar a trabalhar, em São Paulo, em um projeto de assistência à população de rua. Para ela, o curso de Serviço Social oferece um amplo campo de pesquisa, além de se relacionar com a sua área de estudo e militância. "Não acho que a academia seja o único espaço em que a teoria é feita, mas é onde isso acontece, então eu quero fazer mestrado, doutorado, trabalhar com pesquisa. Mesmo com as limitações que a assistência social tem, ela é uma ferramenta de redução de danos importante, principalmente para a nossa população, e eu vejo o quanto assistentes sociais mal preparados são danosos para os nossos processos. Garantir que a gente tenha pessoas bem preparadas também é importante", explica.

''A partir do momento que eu começar a estudar [pedagogia], ela fará com que eu seja dona das minhas próprias narrativas, e não mais um objeto de estudo", disse Ana Flor.A jovem Ana Flor também tem a perspectiva de desenvolver pesquisas que falem de sua própria realidade. Ela acredita que, com o tempo, a inserção da população de trans e travesti no espaço acadêmico possa mudar as relações na sociedade como um todo, reduzindo o preconceito. "Quando vejo mais pessoas trans e travestis entrando na universidade, consigo ver que elas vão usar o diálogo para destruir essa opressão estrutural. Futuramente será possível um diálogo mais saudável com as pessoas", espera.

O Enem foi a porta de entrada de Amanda e Ana Flor na universidade. Para Amanda, ter uma estrutura familiar sólida e contar com apoio no trabalho foram fatores determinantes para conseguir estudar e se preparar. "Foi possível para mim porque a relação com a minha família era positiva, porque consegui concluir o ensino médio, tive uma rede de amigos que me deram suporte, tive a chance de trabalhar na área e descobrir que gostaria de estudar serviço social. Eu tive acesso a uma educação popular de qualidade que poucas pessoas têm", explica.

A nova estudante de serviço social acredita que sua entrada na universidade pode inspirar não só pessoas trans a querer ocupar o espaço acadêmico, mas estimular que projetos sociais ajudem, cada vez mais, a favorecer esse contexto.

"O fato de ser primeiro lugar no curso tem que ser incentivo não só para as meninas [trans] acharem que elas podem, mas para todas as pessoas que têm interesse em ver a inserção acontecendo se movimentarem para isso. Criar condições sociais para que isso aconteça faz muito mais sentido do que a gente achar que é só uma questão de estudar muito, porque não é", afirma Amanda.

Ana Flor espera que sua aprovação seja um empurrão para que as pessoas do seu bairro possam se sentir capazes de estudar na universidade que está a dez minutos de suas casas: "Eu me sinto muito realizada, porque quando eu olhava para a UFPE, eu sempre via algo muito distante de mim. Acredito que, da minha rua, eu seja a primeira pessoa que conseguiu passar. Isso mostra que por mais que a UFPE esteja no bairro onde eu moro, as pessoas do bairro onde eu moro não estão na UFPE. Para além de travesti, negra, periférica, eu falo também do bairro onde eu moro", critica.

Apesar de não ter solicitado o uso de nome social para a prova, Amanda Palha chamada dessa forma durante a realização do exame. Ela afirma que o respeito é fundamental para que as pessoas trans e travestis consigam ficar mais tranquilas. "A hora de fazer a prova é muito tensa, e não é só pelo nome social. A gente é exceção, então as pessoas olham, fazem comentários, dão risadinhas, apontam", lamenta.

Ana Flor usou seu nome social no dia do Exame e afirma que se sentiu mais confortável por fazer a prova em uma sala que tinha apenas mulheres. Para ela, no entanto, o nome do RG deveria ser retirado da lista de candidatos da sala: ambos os nomes, oficial e social, aparecem na lista que todos os participantes da sala assinam. "O MEC pode tentar melhorar essa lista ou criar um mecanismo para que essas meninas não sejam expostas dessa forma, visando o bem estar, tanto físico quanto mental. Assim as pessoas vão se sentir melhor e, consequentemente, se sair bem na prova", acredita.

Amanda Palha, travesti aprovada em Serviço Social na UFPE.Ana Flor se emocionou ao ver que o tema da redação era a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira e ficou satisfeita ao poder falar, no texto, sobre a realidade que enfrenta no dia a dia. Com o desempenho em sua dissertação, a jovem conseguiu 880 pontos.

''Não fiquei tão feliz [com o tema da redação] porque infelizmente é um tema muito pesado, mas ao mesmo tempo eu pude falar sobre mim e sobre as minhas irmãs, as minhas iguais. Foi a primeira vez que eu poderia escrever no Enem algo em que eu podia narrar, de certa forma, a minha vida e a vida de minhas amigas, tendo como plano de intervenção algo narrado por nós, para nós e construído por nós também", diz Ana Flor.

Maria Clara Araújo, mulher trans que também foi aprovada pelo Enem e cursa pedagogia desde o segundo semestre de 2015.Na UFPE, Amanda e Ana Flor farão companhia a Maria Clara Araújo, mulher trans que também foi aprovada pelo Enem e cursa pedagogia desde o segundo semestre de 2015. "O fato de a gente estar próximas pode facilitar a construção de coisas juntas. Construir teoria para a nossa população, não só para entender quem a gente é, mas para dar subsídios para a nossa luta, assim como a luta de todas as pessoas oprimidas", acredita Amanda.

Ela é cautelosa ao falar que ainda há muito caminho a percorrer. "O que faz a diferença não é a gente simplesmente ocupar esse espaço acadêmico, mas o que a gente faz com a ocupação desse espaço. O que a gente vai fazer é o que vai permitir falar de vitória daqui a alguns anos", prevê (Fernanda Duarte/Portal EBC).

Mais artigos...

  1. Aída foi a primeira a voar
  2. Aquífero Guarani: estudo analisa as negociações do acordo
  3. Cães reconhecem o significado de expressões emocionais
  4. DOI-Codi sequestra e mata Manoel Fiel e diz que metalúrgico cometeu suicídio
  5. Modernidade traz novos significados aos contos de fadas
  6. Distúrbios na tireoide podem causar ansiedade e depressão
  7. Atletas se destacam pela persistência; relembre momentos das Olimpíadas
  8. Oferta de frutas é similar em regiões ricas e pobres de São Paulo
  9. Pesquisa traça panorama dos acidentes de trânsito no Brasil
  10. Liga acadêmica une teoria e prática em ação para a sociedade
  11. Licença para voar
  12. Economias de aglomeração podem ampliar desigualdade espacial
  13. A supressão da cidadania nas celas
  14. 2015: O ano que o futebol começou a limpar as chuteiras
  15. Crise migratória e atentados terroristas marcam cenário internacional em 2015
  16. Conheça mitos e verdades sobre a osteoporose
  17. Peixe do rio Negro coletado por Alfred Wallace há 160 anos é finalmente descrito
  18. Projeto proíbe revista vexatória de visitante de jovem infrator internado
  19. Pequeno príncipe, grande aviador
  20. Patrimônio histórico nas mãos das Geociências
  21. Mudança no crime organizado ajudou a reduzir homicídios
  22. Universalização da pré-escola traz desafio gigantesco aos municípios
  23. Falta de assistência no nascimento de bebês incomoda mães
  24. Gastar menos energia é melhor ação contra aquecimento global
  25. Revelando o turista-fotógrafo
  26. Cidades pretendem reduzir quase pela metade emissões de CO2 até 2020
  27. O Estatuto do Desarmamento sob ameaça
  28. Getúlio e Collor também passaram por processo de impeachment
  29. Políticas públicas também tratam a saúde como mercadoria
  30. Estudo indica que Zika vírus está cada vez mais eficiente para infectar humanos
  31. Padronizar tamanho de roupas é possível, mostra estudo
  32. Pesquisador investiga a privatização e a concentração de capital no ensino superior
  33. Desmatamento reduz tamanho de peixes em região amazônica
  34. Mobilização marca vida dos encarcerados nas prisões
  35. Decreto regulamenta publicidade de alimentos infantis
  36. Chá verde e cacau protegem contra complicações causadas por diabete
  37. Lei de drogas vem causando lotação no sistema penitenciário
  38. Paleontólogos descrevem anfíbio gigante de 260 milhões de anos
  39. O padre aviador
  40. Presídio paraibano ilustra realidade do cárcere no Brasil
  41. Às vésperas da Rio 2016, legado da Olimpíada ainda é incógnita
  42. Rota de ônibus é definida com base no conforto do passageiro
  43. Filmes levam discussão sobre cultura indígena para a escola
  44. Entenda o que é a microcefalia e porque há um aumento dos casos em Pernambuco
  45. Pesquisas na Argentina dão vantagem ao candidato da oposição Mauricio Macri
  46. Modelo de governança é adaptado para clubes de futebol
  47. Estudante precisará de carteira padronizada para pagar meia
  48. Filha de Carolina de Jesus diz que não conseguiu ler livro mais famoso da mãe
  49. Envelhecimento da população precisa ser priorizado nas políticas públicas
  50. Entenda as novas regras para aposentadoria
  51. Elefante no Cerrado exerceria papel que já foi de mastodontes
  52. Fórmula auxilia médicos a lidarem com pé diabético
  53. Trotes telefônicos podem custar R$ 1 bilhão por ano ao país
  54. Tecnologia 29/10/2015
  55. Pesquisadores criam métodos estatísticos para prever fraudes em operações financeiras
  56. As particularidades da linguagem humorística brasileira
  57. Pílula da USP usada em tratamento contra o câncer divide opiniões
  58. Como identificar infarto, AVC e angina
  59. Viagens longas propiciam uso de drogas por caminhoneiros
  60. Jogos Mundiais: com máquinas ainda trabalhando, indígenas se instalam em Palmas
  61. Religiosidade traz alívio para idosos em hemodiálise
  62. Pequeno agricultor minimiza efeito do agrotóxico à saúde
  63. Educação financeira e previdenciária deve e pode começar na infância
  64. Uma em cada quatro pessoas morre no mundo por causas relacionadas à trombose
  65. Aviação também é um negócio bizarro!
  66. Material particulado veicular predomina no nível de poluição
  67. Alunos com tendência antissocial buscam segurança na escola
  68. 15 motivos para amar/odiar a palavra “kamikaze”
  69. Brasil perde R$ 156,2 bilhões do PIB com a morosidade do trânsito em São Paulo
  70. Santos pode se tornar mais suscetível a inundações
  71. 01 de Outubro - Dia Mundial do Idoso: Como os idosos veem a saúde
  72. Tecnologia permite fabricação de gelo por meio da luz solar
  73. Sistema prevê a ocorrência de raios com 24 horas de antecedência
  74. 11 (+1) músicas que falam sobre aviões e aeroportos
  75. Dez dúvidas mais frequentes sobre o diabetes
  76. Prática de atividade física pelos pais pode proteger filhos da obesidade
  77. Práticas corporais são eficientes para a saúde coletiva
  78. Amostras de pescado apresentam conservação inadequada
  79. Postura errada pode levar a graves problemas de saúde
  80. Subfertilidade feminina: o que é e como tratar
  81. Deputados votam texto que altera Estatuto do Desarmamento
  82. Os 50 anos do TUCA – Teatro da Universidade Católica
  83. Estudo traça panorama da transição do Brasil para TV Digital
  84. Realidade de times femininos vai de atletas sem chuteiras a clubes bem equipados
  85. Não há limites para quem sonha em pilotar
  86. Mudanças climáticas causam alterações no comportamento de beija-flores
  87. Os sentidos do “jeitinho brasileiro” em nossa cultura
  88. Mulheres engravidam mais velhas e congelamento de óvulos cresce
  89. Metodologias propõem olhares diferentes para alfabetização
  90. Vacinas de terceira geração terão “vetores de DNA”
  91. Terapias complementares ajudam no combate à infertilidade
  92. Incor comprova eficácia de exercícios fonoaudiológicoas no combate ao ronco
  93. Anil é anti-inflamatório e antioxidante, revela estudo
  94. MPF recebe 614 ossadas de possíveis desaparecidos políticos
  95. Deslocamento com bicicleta caiu em São Paulo de 2007 a 2012
  96. Guia Alimentar propõe novo olhar sobre a alimentação
  97. O colapso dos grandes herbívoros
  98. Marcha das Margaridas: 32 anos depois, líder ainda influencia mulheres do campo
  99. Cientistas procuram por abelha invasora na América do Sul
  100. Julgamento no STF pode levar Brasil a descriminalizar porte de drogas

Rua Vergueiro, 2949, 12º andar – cjto 121/122
04101-300 – Vila Mariana – São Paulo - SP