Escolas rompem barreiras e levam crianças para ocupar e aprender na cidade

Ao fotografar a escultura de madeira Milon de Crotona, na qual o artista Pierre Puget retrata a luta entre o atleta grego e um leão, um aluno perguntou para a professora: “O rei da floresta existe de verdade? Eu só vejo leão em desenho, fotos, filmes e agora aqui, no Parque Buenos Aires”

 Passeio educativo da Monteiro Lobato desbrava o Parque Buenos Aires.

Passeio educativo da Monteiro Lobato desbrava o Parque Buenos Aires.

Danilo Mekari/Portal Aprendiz

A atividade buscava registrar o olhar fotográfico de cada criança da EMEI Monteiro Lobato, situada na região central de São Paulo. Representa apenas um dos muitos exercícios fora do ambiente escolar que a instituição de ensino possibilita às suas crianças – a escola promove também visitas pedagógicas ao Museu de Arte Brasileira (MAB), ao Instituto Moreira Salles e à Biblioteca Monteiro Lobato.

Bastou essa sutil e ingênua pergunta para que a gestão escolar agendasse mais uma visita a um espaço educativo da cidade: o zoológico municipal. Classificados pela diretora da EMEI, Eloisa Bassani, como “vivências diferenciadas”, esses momentos de aprendizagem externa se tornaram comuns na rotina escolar – são valorizados não apenas pelas crianças, mas também pelos docentes, funcionários e famílias.

“Para a criança estar apta a ler e escrever é necessário o desenvolvimento neurológico, que está intimamente ligado ao desenvolvimento físico: esses momentos são propícios para saltar, correr, pular e brincar livremente”, afirma Eloisa, que vê nessa abordagem da escola uma proximidade com a educação integral. Sua assistente, Tânia de Oliveira, observa no dia a dia o reflexo dessas aprendizagens. “Após os passeios, as crianças criam brincadeiras com elementos das aprendizagens externas. A conversa fica mais rica, pois trata-se de uma fase de descoberta e encantamento.”

“Como é que o sistema quer adultos educados se a criança não participa da cidade? Ninguém nasce aos 14!”, reclama Mônica Galib. Tirar o aluno do espaço escolar e levá-lo para a cidade, expandindo as possibilidades de aprendizagem e permitindo que aquela pessoa em desenvolvimento se aproxime da realidade do território onde vive e estuda, sempre foi uma premissa da educação integral. Questões urbanas problemáticas como segurança e mobilidade, contudo, ainda fazem com que muitas escolas mantenham as portas fechadas para a cidade.

“Antes de tudo, é preciso construir a ponte para a comunidade entrar na escola. Depois, o caminho de volta – ou seja, a escola sair para explorar a comunidade – torna-se algo natural”, aponta Mônica Galib, diretora da EMEI Gabriel Prestes, outra escola na região central de São Paulo que promove itinerários educativos pela cidade. Longe de omitir os desafios dessa empreitada, Mônica adverte: “Não se aproxima os pais da escola com uma reunião. É através da nossa prática pedagógica, sempre em busca de aprimorar o diálogo com a cidade, que estreitamos essa relação.”

As saídas da Gabriel Prestes variam entre os mais diversos destinos: Praça Roosevelt, Biblioteca Mário de Andrade, livrarias, feiras e sacolões localizados no entorno do espaço escolar. Muitas vezes, pais e até mesmo avós das crianças participam das atividades externas. “O aluno que chega aqui já passou pelo centro e tem contato direto com a cidade. Não posso fazer de conta que a rua não existe. É preciso mostrar o espaço urbano com o olhar pedagógico e até mesmo poético”, reflete Mônica.

A diretora também percebe nitidamente os resultados de um projeto pedagógico que aposta na rua e no espaço público. “Vejo através do comportamento da criança, sua desenvoltura, sua forma de comunicação. É uma criança que questiona e isso é saudável.” Para ela, a função da escola infantil não é alfabetizar, mas sim proporcionar um “letramento de mundo e de cidade”.

Há cinco anos, a parceria entre gestores, docentes, estudantes, funcionários e famílias tem sido responsável por trilhar o caminho de uma aprendizagem que transcende a sala de aula, consolidando processos de gestão democrática e contribuindo para a co-responsabilização pela educação das crianças nessas escolas.

Mas não para por aí. Uma das metas da gestão da EMEI Monteiro Lobato para o segundo semestre letivo de 2015 é ampliar as experiências voltadas para pais e mães de alunos. A escola também prevê a realização de uma formação externa voltada para os funcionários. “A ideia é que todo o corpo escolar saiba o que as crianças estão vivenciando lá fora e possa trocar experiências mais facilmente, tanto com as crianças como com os pais”, explica Tânia.

“Localização privilegiada”. As diretoras das EMEIs utilizaram essa expressão para definir o território onde estão inseridas. Elas identificam com facilidade as oportunidades educativas e culturais que o centro de São Paulo oferece e reconhecem as modificações que esse cenário sofre à medida que se aproxima das periferias.

Alunos da Chácara Sonho Azul passeiam em feira livre da região.A distância do centro e de equipamentos culturais consagrados, porém, não impede que escolas localizadas nos extremos da cidade organizem saídas, mapeamentos e visitas aos seus territórios. É o caso do CEU Alvarenga, o único equipamento cultural disponível na região da Pedreira, na zona sul do município. Lá, crianças saem para fotografar o bosque vizinho e jovens percorrem trajetos educativos pelas ruas, becos e vielas. Cortejos, saraus e contação de histórias completam as atividades realizadas no espaço público.

“Experiências como essa fazem com que os alunos se apropriem de suas identidades, trazendo suas vivências para dentro do espaço escolar”, opina Luci Guido, gestora do CEU. “Na rua, as crianças têm uma organização própria e é só fora que percebemos o quanto a escola está aquém do conhecimento. Explorando o bairro, elas nos contam histórias, vivências, lembranças. É um processo apaixonante, e vamos construindo pautas de formação a respeito dessas experiências.”
Os percursos são acompanhados por líderes comunitários locais e ainda contam com a presença de funcionários do CEU. “Quando estamos na rua somos todos iguais. Essa é a riqueza das experiências externas”, aponta a gestora.

Também na zona sul da cidade, a EMEI Chácara Sonho Azul fez questão de assinalar em seu projeto político-pedagógico que “a criança tem direito à cidade”. “Por estarmos na periferia, as famílias têm dificuldade de usufruir o patrimônio cultural paulistano. Por isso, achamos importante constar no currículo da escola”, defende Antonio Norberto, diretor da EMEI.

Localizada próximo à represa Guarapiranga, a escola tem levado as crianças às áreas verdes, aos parques ecológicos e até mesmo às feiras livres da região. Os trajetos costumam ser feitos a pé, valorizando o entorno da escola. “É essencial que a criança tome conhecimento da cidade. O quanto antes isso for feito, mais significativo será para a sua aprendizagem, pois sai de uma abordagem só de conteúdo e amplia para a experiência, vivência, criando um jeito legal de aprender”, opina Norberto (envolverde.com.br).

 

Alunos da USP ainda têm dúvidas sobre a carreira escolhida

O Núcleo de Orientação Profissional funciona desde 2004 e atende cerca de 30 alunos anualmente.Depois de passar pelo exame vestibular da USP, considerado um dos mais difíceis do País, alguns estudantes vivem momentos de dúvidas e angústias em relação à carreira escolhida.

Antonio Carlos Quinto/Agência USP de Notícias

É o que mostra uma pesquisa realizada com 115 alunos ingressantes da instituição. A tese "A crise com o curso superior na realidade brasileira contemporânea: análise das demandas trazidas ao núcleo de orientação profissional da USP", de autoria da psicóloga Yara Malki, traz uma análise dos principais motivos que geram as dúvidas e inseguranças em relação às escolhas e aponta para a necessidade de as instituições, públicas e privadas, constituírem centros de carreiras para orientação dos estudantes.

A pesquisa foi defendida em maio no Instituto de Psicologia (IP) da USP e teve como base a análise de 115 fichas e 58 relatórios de atendimentos realizados entre 2007 e 2012, no Núcleo de Orientação Profissional, ligado ao Laboratório de Estudos sobre o Trabalho e Orientação Profissional do IP, onde Yara atua. Segundo a psicóloga, o processo de escolha mal conduzido pode estar ligado a uma característica dos jovens nos dias atuais. “São muitos os motivos que os levam a se precipitar na escolha. Acredito que o ‘imediatismo’ seja um dos principais”, aponta a pesquisadora.

A pesquisa detectou que entre os alunos “insatisfeitos ou hesitantes” em relação às suas escolhas 23,2% cursavam ainda o primeiro semestre. Outros 10,7% e 14,3% cursavam os segundos e terceiros semestres, respectivamente. “Neste universo, a maioria é de jovens com 18 e 19 anos, representando 30,5% da amostra. Os ingressantes na faixa dos 20 aos 22 anos representaram 13%”, contabiliza Yara. Ela lembra que entre os dados analisados, não houve registro de estudantes com idade acima de 31 anos. Segundo ela, a dúvida sobre a carreira é comum tanto no ensino superior público quanto no privado.

Em relação às áreas de estudos, 51,8% cursavam humanidades, enquanto 27,7% cursavam exatas. Outros 20,5% cursavam as áreas de biológicas. Yara também analisou a questão da origem dos estudantes, sendo que 72% deles residiam na capital e na grande São Paulo. “Outros 28% vieram do interior e do litoral paulista e de outros estados”, lembra.

Muitos foram os motivos que levaram os alunos a procurarem o serviço. Yara os dividiu em oito “grupos de motivos” que, segundo ela, congregam as principais razões que levam à insegurança. “O principal deles está ligado à escolha inicial que muitas vezes foi feita com base na opinião de pais e amigos, em estereótipos da profissão ou ainda em pouquíssimo autoconhecimento”, destaca a pesquisadora. Há ainda a escolha que ela chama de estratégica, ou seja, quando o aluno opta por um curso próximo ao que ele gostaria. “Se um aluno acredita que seja difícil cursar Medicina pode optar por Enfermagem, por exemplo. Daí, posteriormente, poderá vir a dúvida e a insatisfação”.

Outro grupo de motivos que ela destaca são as questões emocionais, como as crises pessoais que alguns demonstraram. Há também aqueles que procuraram o serviço por motivos ligados ao próprio curso. “O aluno USP, em geral, é preocupado com o rendimento escolar que, em algumas situações, consideraram baixo”.
Houve também motivações ligadas à profissionalização, adaptação e rotinas da universidade, ao vínculo com a USP, ao planejamento da carreira e a razões financeiras. “Fica evidente a importância de ações como as semanas de recepção aos calouros”, ressalta. Para ela, as iniciativas não ligadas ao trote violento podem ser fundamentais num processo de integração dos novos estudantes.

De acordo com a psicóloga, a pesquisa abre espaço para a reflexão sobre as necessidades dos alunos que chegam à universidade. “Nosso estudo, certamente, servirá de base para outros que possam quantificar melhor tal situação”, acredita. Além disso, como ela destaca, chama a atenção para a importância que deve ser dada a um planejamento correto à carreira: “Hoje em dia, não basta ter um diploma universitário, é necessário fazer dele um projeto de carreira”, completa.

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