Ruy Barbosa desafiou elite e fez 1a campanha eleitoral moderna

Senador fez história em 1909 e 1910, quando disputou Catete e percorreu 50 cidades pedindo votos aos eleitores. Até então, oligarquias escolhiam candidato presidencial único, que vencia nas urnas sem nem sair de casa

c3d344f5-4639-40c1-b661-8d670f4452e3 temproario

Ruy Barbosa (à dir. da mulher) participa de corpo a corpo com eleitores em Ouro Preto em 1910. (foto: Fundação Casa de Rui Barbosa)

Ricardo Westin/Agência Senado

É na semana que vem que os candidatos à sucessão do presidente Michel Temer, na eleição de outubro, começam a viajar pelo Brasil pedindo votos. Não era assim nos primórdios da República. Dos quatro primeiros presidentes eleitos pelo voto popular, nenhum se deu ao trabalho de fazer campanha.

Prudente de Moraes, Campos Salles, Rodrigues Alves e Affonso Penna não precisaram se esforçar porque seus nomes haviam sido escolhidos previamente pela classe política, num conchavo de bastidores. Foram candidatos únicos e suas vitórias nas urnas, mais do que previsíveis.

A situação só mudaria no 20º aniversário da República. Na virada de 1909 para 1910, o Brasil assistiu à primeira corrida presidencial moderna, com um candidato desafiando o presidenciável oficial e se mexendo para conquistar os votantes.

Quem chacoalhou o país foi o advogado e senador Ruy Barbosa (BA). Tentando derrotar o marechal Hermes da Fonseca na disputa pelo Palácio do Catete, Ruy fez corpo a corpo com eleitores, participou de passeatas, distribuiu broches com sua foto, discursou em meetings (como se chamavam os comícios), proferiu ataques contra o adversário.

Papéis históricos guardados no Arquivo do Senado, em Brasília, contêm muitos dos discursos feitos tanto pelo senador candidato quanto por seus aliados e oponentes.

— É a primeira vez que, de fato, em uma eleição presidencial existe a contenda, e o escrutínio assume a forma precisa de um pleito — resumiu Ruy na tribuna do Palácio Conde dos Arcos, a primeira sede do Senado, no Rio de Janeiro.

545ca27f-c55f-4083-b81f-ec09b237b1d2 temproarioNa pioneira excursão eleitoral do Brasil, o candidato passou por 50 cidades em três meses. Em janeiro de 1910, ele visitou Salvador, sua terra natal. No palco de um teatro, lamentou que a viagem do Rio à capital baiana tivesse sido feita em navio para logo em seguida dizer que, sendo eleito, construiria uma linha de trens entre as duas cidades.

Diante da multidão no teatro, Ruy continuou com as promessas garantindo que jamais interviria nos tribunais, decretaria estado de sítio ou manipularia o resultado de qualquer eleição.

— Os exemplos indicados sobram para vos definir o espírito de moralidade, legalidade e justiça que, com o auxílio de Deus, caracterizaria a minha administração — assegurou.

De acordo com os jornais, a plateia soteropolitana reagiu com “estrepitosos aplausos e bravos”, as “senhoras dos camarotes” acenaram com lenços e o palco foi “juncado de flores”.

A engrenagem que moveu quase toda a Primeira República (1889-1930) foi a Política dos Governadores. Por meio dela, a escolha do presidente cabia às elites dos estados mais poderosos — São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. O candidato oficial entrava sozinho no páreo. Pedir voto era perda de tempo, já que o referendo das urnas viria de qualquer jeito.

O presidente eleito, em retribuição, jamais se intrometia nas brigas políticas locais, permitindo que os governadores e seus aliados reinassem tranquilamente e se perpetuassem no poder.

Em 1909, contudo, as oligarquias estaduais se estranharam, e a Política dos Governadores sofreu um abalo. Minas Gerais e Rio Grande do Sul escolheram para presidente o ministro da Guerra, marechal Hermes da Fonseca. São Paulo recusou-se a encampar a candidatura.
Os caciques paulistas temiam que Hermes, por ser do Exército e não fazer parte do esquema político, em algum momento ordenasse uma intervenção federal em São Paulo e tirasse o protagonismo do estado na Política dos Governadores.

Hermes era sobrinho do marechal Deodoro da Fonseca, o primeiro presidente do Brasil.

Os paulistas, então, bateram à porta do respeitado Ruy Barbosa, que topou o desafio de encarar o candidato dos mineiros e dos gaúchos na eleição de março de 1910. Ruy, contudo, não estava comprometido com a Política dos Governadores. Foi por convicção que entrou na briga.

— Candidato por uma surpresa do destino, tenho a consciência de estar desempenhando uma obrigação política — afirmou, no Senado. — Me considero volvido aos primeiros anos do regime [republicano], quando nos batíamos pela sua condição mais essencial e vínhamos aqui e fora desta Casa defender as suas liberdades mais elementares.

O candidato se referia às brutalidades cometidas por Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, os marechais que inauguraram a República e quase a transformaram numa ditadura. Para ele, a missão dos militares estava muito clara na Constituição: proteger as leis e a pátria, nada mais. Chegando um fardado ao poder, acreditava, seria impossível deter-lhe o ímpeto autoritário.

— As nações, senhores, não armam os seus Exércitos para serem escravizadas por eles. As nações não fazem os seus marechais para que eles venham a ser na paz os caudilhos de facções ambiciosas — argumentou.

Na visão dele, o presidente da República tinha que ser civil. Foi em oposição ao militarismo de Hermes que batizou sua candidatura de Campanha Civilista.

Os dois lados se enfrentaram na tribuna do Senado em diversas ocasiões. O senador Alfredo Ellis (SP) criticou o marechal:

— Prefiro e preferirei sempre um candidato civil. Os militares são uma classe nobre, não se contesta, mas não têm a educação necessária nem o preparo para a administração de uma grande nação como o Brasil.

Em resposta, o senador Antônio Azeredo (MT) lembrou que foi numa convenção realizada justamente no Senado, meses antes, que deputados e senadores, orientados pelos governadores, escolheram o candidato do establishment:

938392ab-78f1-468b-90ae-b22ba7000e4d temproario— Dentro desta Casa, os que aqui estavam e proclamaram a candidatura Hermes não viram um militar fardado. Candidatura militar seria se ela tivesse vindo dos quartéis. E quem poderá negar o prestígio e o republicanismo do marechal?

Em trem, Ruy Barbosa viajou do Rio a São Paulo em dezembro de 1909 e do Rio a Belo Horizonte em fevereiro de 1910, parando em todas as estações pelo caminho. Tanto nas cidades paulistas quanto nas mineiras, foi recebido com banda de música, fogos de artifício e salvas de tiros, ovacionado por multidões e cumprimentado por prefeitos, juízes e bispos.

Ruy tratava de desconstruir a imagem de Hermes. Num dos meetings, chamou-o de bronco:

— O meu competidor tem sido até agora homem exclusivamente de sua classe, militar dado só e só aos misteres da sua profissão. Ninguém sabia que tivesse ideias políticas. Ou, não as tendo revelado nunca, ninguém podia saber quais fossem.

De volta ao Rio após a turnê paulista, o deslocamento do candidato entre a Estação Central do Brasil, no centro, e seu palacete, em Botafogo, acabou se transformando numa festiva carreata. Por três horas, o candidato acenou de dentro da carruagem para as pessoas que pararam nas ruas da capital do país para gritar “viva” ao senador baiano e “morra” ao marechal.

O militar, por sua vez, teve grande apoio da imprensa, que pegou pesado nas caricaturas de Ruy, retratando-o como um aristocrata incapaz de falar a língua do povo e alheio aos reais problemas do país.

— Ele foi criticado por simplesmente fazer campanha. Para os conservadores, era um ato de demagogia e uma vergonha que um político se jogasse nos braços do povo, da “patuleia”, para pedir votos — afirma o cientista político Christian Lynch, da Fundação Casa de Rui Barbosa e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

A dedicação de Ruy à sua Campanha Civilista se torna uma proeza ainda maior quando se leva em conta que, àquela altura, ele tinha 60 anos — um ancião para os padrões do início do século passado.

Mais artigos...

  1. Sarampo: especialista alerta sobre a importância da vacinação
  2. Casos de suicídio motivam debate sobre saúde mental nas universidades
  3. Mortes de presos aumentam 10 vezes em quase vinte anos no Rio
  4. Petróleo, combustíveis e Refis reforçam receitas da União este ano
  5. Mulheres que fizeram aborto relatam momentos de medo e desespero
  6. Supremo Tribunal Federal debate hoje a descriminalização do aborto
  7. 44% dos empresários do varejo e de serviços estão otimistas com economia para o segundo semestre
  8. Ecossistemas tropicais abrigam mais de três quartos das espécies de plantas e animais
  9. Metade dos docentes no país não recomenda a própria profissão
  10. Projeto cria regras para proteger dados pessoais
  11. Censo mostra aumento da área destinada à agricultura no país
  12. População brasileira deve chegar a 233,2 milhões em 2047, diz IBGE
  13. Construtoras acreditam em multa maior por distrato; Procons condenam
  14. Museu Paulista e Sesc Ipiranga apresentam “Papéis Efêmeros”
  15. Radiografia do ativismo indica revitalização do papel político das cidades
  16. Canecão foi referência para música brasileira e revelou grandes nomes
  17. Saúde alerta que as baixas coberturas vacinais acendem a luz vermelha
  18. Em minoria, mulheres buscam liderar negócios de inovação e tecnologia
  19. Lei de proteção de dados vai mudar cotidiano de cidadãos e empresas
  20. Estudo destaca papel central da música nos ritos de incorporação da Umbanda
  21. Cientistas vão treinar robôs para identificação automática de plantas
  22. Combate a Lampião quase entrou na Constituição de 1934
  23. Estudo aponta 30 profissões que estão surgindo com a indústria 4.0
  24. Na era Trump, imigrantes buscam espaço na política dos Estados Unidos
  25. Acompanhar tramitação de lei ainda é desafio
  26. O maravilhoso universo das plantas e a força dos nutrientes
  27. Junho deixou sementes de participação popular
  28. Número de brasileiros em áreas de risco passa de 8 milhões, diz IBGE
  29. Vida verde: benefícios do vegetarianismo e veganismo à saúde atraem cada vez mais brasileiros
  30. Uso de energia solar no campo cresce com usinas flutuantes
  31. Vinho é a bebida alcoólica preferida dos brasileiros na melhor idade, aponta pesquisa
  32. Músicos amadores criam grupos para reviver antigos sambas esquecidos
  33. Projetos buscam evitar tragédias como o desabamento de edifício em São Paulo
  34. Quilombo a 50 km de Brasília luta para manter território e identidade
  35. Lei Seca soma dados positivos após 10 anos, mas levanta questões
  36. Junho aumenta riscos de acidente com fogos e balões
  37. Dom Pedro I criou Supremo Tribunal com poderes esvaziados
  38. "Sem solução, quem matou terá carta branca", diz pai de Marielle
  39. Livro sobre intelectuais negros põe em xeque ideia de democracia racial no país
  40. Carro elétrico ainda espera incentivos para crescer no Brasil
  41. Cora Coralina é inspiração para artesãs e doceiras na Cidade de Goiás
  42. Ascensão e queda de José Bonifácio, o 'Patriarca da Independência'
  43. Brasil perdeu mais de 430 mil empregos na construção entre 2015 e 2016
  44. Desmatamento e ocupação desordenada ameaçam conservação do Cerrado
  45. Poluição sonora prejudica a saúde e preocupa especialistas
  46. Senado deve aprovar incentivo para combater cartéis
  47. Cade propõe medidas para reduzir preços dos combustíveis
  48. O Brasil ocupa o oitavo lugar no ranking de número de tabagistas no mundo
  49. Entenda a composição do preço da gasolina e do diesel no Brasil
  50. Guimarães Rosa é recriado em prosas, pinturas e bordados
  51. Verdades e mentiras sobre o Cadastro Positivo
  52. Estudo da USP mostra como o álcool em dose moderada protege o coração
  53. Brasil pretende atrair mão de obra estrangeira qualificada para o país
  54. Bossa nova completa 60 anos: conheça a história do gênero musical
  55. Saí da Igreja do Rosário, andei por São Paulo e tropecei na história
  56. País busca soluções para aumento de judicialização na saúde
  57. Divisão de tarefas domésticas ainda é desigual no Brasil
  58. Cuidar da saúde é principal motivação dos que se planejam para aposentadoria
  59. Economia brasileira ainda não sentiu efeitos da Copa 2018
  60. Senado e Câmara aprovaram Lei Áurea em apenas 5 dias
  61. Dimension Data e Cisco expandem tecnologia anticaça na África
  62. Proteção de dados ganha importância na política e economia no Brasil
  63. Mais de 80 mil brasileiros migraram para Portugal em busca de segurança
  64. A cinco meses das eleições, Câmara e Senado trabalham em ritmo lento
  65. Jornais noticiaram Esquadrão da Morte de acordo com clima político
  66. Famílias sonham com clínica-escola gratuita para autistas
  67. Senado avança na definição de código que defende contribuintes
  68. Livro explica o poder e a consolidação dos Estados Unidos
  69. Pediatras lançam campanha para elucidar mitos sobre saúde infantil
  70. Mais de 40% dos brasileiros até 14 anos vivem em situação de pobreza
  71. Um milhão de indígenas brasileiros buscam alternativas para sobreviver
  72. Cuba elege 1º presidente após 60 anos de governo dos irmãos Castro
  73. Oito em cada dez brasileiros não se preparam para aposentadoria
  74. Vida de Adoniran Barbosa é tema de documentário
  75. Proximidade entre animais domésticos e silvestres traz riscos de doenças a humanos
  76. IBGE: ricos receberam 36 vezes acima do que ganharam os pobres em 2017
  77. Pesquisa revela que 58% dos brasileiros não se dedicam às próprias finanças
  78. Os mano e as mina na mira dos homi
  79. Maior virtuose do bandolim é lembrado no seu centenário
  80. Ferramenta auxilia na preparação tática de goleiros
  81. "Eu tenho um sonho!" - morte de Martin Luther King completou 50 anos e ex-assessor relembra lutas
  82. Multiculturalismo no futebol deve se expandir em seleções europeias
  83. Dia da Constituição comemorou avanços na cidadania desde a independência do Brasil
  84. Três anos depois de aprovada, Lei do Feminicídio tem avanços e desafios
  85. BC: Selic deve voltar a ter redução em maio e cortes se encerram em junho
  86. Em busca de um novo modelo de gestão para o uso da água
  87. Lei poderá dar segurança ao Farmácia Popular
  88. Acesso dos pobres à água só é possível com controle social, dizem especialistas
  89. Por que as mulheres “desapareceram” dos cursos de computação?
  90. Interiorização de venezuelanos para São Paulo e Manaus começa em abril
  91. Relatório da Unesco sobre água propõe soluções baseadas na natureza
  92. Veja quem luta contra quem no conflito na Síria
  93. Surto de febre amarela desafia vigilância de epidemias
  94. São Paulo, uma metrópole para poucos
  95. Mesmo com decisão do TST, governo não descarta privatização dos Correios
  96. Documento único estará disponível em julho
  97. Mulheres são donas de 31% de empresas nos Estados Unidos
  98. IBGE: mulheres ganham menos que homens mesmo sendo maioria com ensino superior
  99. Cadastro Positivo: Entenda o que é e quais são os reais benefícios ao consumidor
  100. CNI recomenda desburocratização, educação e pesquisa para indústria crescer
Mais Lidas

Strict Standards: Only variables should be assigned by reference in /home/storage/0/5e/4e/jornalempresasenegoc/public_html/modules/mod_sp_facebook/mod_sp_facebook.php on line 84

Rua Vergueiro, 2949, 12º andar – cjto 121/122
04101-300 – Vila Mariana – São Paulo - SP