Dorival Caymmi, a pedra que ronca no meio do mar

Tese mostra a criação e a manutenção da “mitologia caymmiana”, que continua sustentando a imagem do artista após sua morte

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Patrícia Lauretti/Jornal da Unicamp

“Dorival é ímpar, Dorival é par, Dorival é terra, Dorival é mar”. Dorival é um “buda nagô” que soube, ao longo de uma carreira de setenta anos, ser ouvido, sem necessariamente precisar falar. O silêncio, a ambiguidade e as alianças foram suas parcerias, além do violão e da mulher Stella Maris. “Para lidar comigo você vai ter que pensar de outro jeito” teria dito Caymmi ao pesquisador da Unicamp Vitor Queiroz, se ainda estivesse vivo. Porque Vitor, conhecedor da bibliografia sobre questões raciais no Brasil, e tendo a obra de Dorival Caymmi como objeto de estudo, estava acostumado a outro tipo de posicionamento diante do tema.

Polêmica não era com Dorival. Em 1979 Gilberto Gil regravou Marina num ritmo mais “acelerado”. “Cada um imagina uma Marina diferente”, foi a resposta de Caymmi a um entrevistador com vontade de causar furor, conta Vitor de Queiroz D’Avila Teixeira, na tese de doutorado “A Pedra que Ronca no Meio do Mar: baianidade, silêncio e experiência racial na obra de Dorival Caymmi”, defendida no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH). O pesquisador foi orientado pela docente Heloísa Pontes e co-orientado por Luiz Gustavo Freitas Rossi.

Baiano como Caymmi e avesso aos rótulos – “aprendi a comer pimenta em Campinas” – , o doutorando procurou na tese decifrar o segredo do sucesso de Dorival Caymmi “à luz da negociação de identidades locais/nacionais e das transformações que teriam ocorrido no âmbito das experiências raciais no Brasil do século XX”.

O poeta e músico Vinícius de Moraes diverte ao mesmo tempo Caymmi e o público da Boate Zum Zum num dos quadros cômicos do espetáculo estreado por ele, pelo Quarteto em Cy e pelo compositor baiano no local. Essa temporada de shows teria sido o fim de um longo ciclo de apresentações intimistas que Dorival fez ininterruptamente nos anos 40 e 50, nas casas noturnas da Zona Sul do Rio de Janeiro.O trabalho conta com capítulos dedicados à trajetória de Caymmi, uma discussão sobre o gênero autoral das canções praieiras e à análise de sua obra musical. “É um artista que nunca teve uma baixa de sucesso, não ficou datado, como muitos da sua geração”. Uma das razões apontadas na tese é criação e a manutenção de certa “mitologia caymmiana”, que mesmo após a morte de Dorival, em 2008, continua sustentando a imagem do artista ao longo dos tempos.

“Existem dispositivos para além dessa morte, seja ela física ou social, para manutenção de uma imagem, de um sucesso. São as pessoas que fazem isso na prática: quando, por exemplo, Gil canta uma música de Caymmi, faz com que Caymmi continue vivo no palco”, observa o autor da tese.

Por falar em Gilberto Gil, entrevistado por Vitor, ele comentou que “pertencia à ‘linhagem’” de Caymmi. Essa linhagem reúne, de acordo com o pesquisador, filhos não só os de sangue, que também são artistas, mas os aliados do candomblé ou da vida. “Já nos anos 50 Caymmi vira uma pessoa venerável. Quando João Gilberto lança o primeiro disco Chega de Saudade e Tom Jobim escreve na contracapa o PS ‘Caymmi também acha’, você tem a produção desse ancestral que está vivo, mas já é um ancestral, um patriarca”.

Caymmi e seu primeiro aparelho de televisão. Ele foi um dos artistas da chamada “Era do Rádio” que estrearam essa nova tecnologia de comunicação de massas no Brasil dos anos 50. Autor desconhecido, 1952, apartamento de Caymmi, Rio de Janeiro.No exílio, Caetano e Gil “se voltam para Caymmi como se ele fosse um talismã de retorno para a brasilidade”. “Há uma disputa por Caymmi até hoje. Tem o Caymmi jazzístico, sofisticado, tem o de Rosa Passos, tem o da família, o da Monica Salmaso, o baiano, o do candomblé e o de Gil e Caetano”.

Vitor Queiroz considera interessante como o artista foi “complacente” com essa disputa, flertando, durante a vida, com uma série de ambiguidades. "Dorival não era apenas par e ímpar, mãe e pai, céu e chão, como afirmava o samba de Gilberto Gil. Ele era culto e pouco escolarizado, foi velho desde cedo, sabia virar os olhos, incorporando os trejeitos de suas morenas no palco e, no entanto, era um sedutor notório, perigosíssimo, de mulheres solteiras e casadas, era baiano e carioca, tinha uma origem humilde e conseguiu congregar ao seu redor a nata da política, das artes, das finanças, etc. Só andava muito bem-vestido e sabia tirar a casaca da civilização para se converter num indígena folclórico, num primitivo, trabalhava obsessivamente enquanto cultivava sua preguiça lendária, mas, acima de tudo, era simultaneamente preto e branco", escreve o pesquisador na tese.


Racismo
Caymmi é negro, mas também não. “Olhando as fotos ele embranquece ou enegrece de acordo com o fotógrafo, com a luz... isso para mim é um dado muito sintomático. Caymmi é ‘não branco’ e isso foi lido de muitas maneiras”.

Vitor observou que quanto mais Caymmi era considerado um gênio, mais se afastava da vida pública e mais enegrecia. “Ele entra para o candomblé, passa a falar disso e a figura dele ganha signos muito nítidos”. Uma trajetória compartilhada com outros baianos, inegavelmente brancos e dois deles estrangeiros: Jorge Amado, o pintor Carybé e o fotógrafo Pierre Verger.

No terceiro capítulo da tese o pesquisador analisa as músicas Promessa de Pescador e Sargaço Mar, feitas com quase quarenta anos de intervalo. As duas músicas, salienta, tratam de um pescador que vai até o mar e faz uma oração para Iemanjá, mas de maneiras diferentes. “No primeiro caso parece que estamos diante de uma cena de cinema, não há uma adesão clara ao candomblé, tanto que a letra não causou nenhum constrangimento para Caymmi numa época em que o candomblé era perseguido pela polícia”.

Já no caso de Sargaço Mar, a adesão ao candomblé é bastante evidente. “Essa mudança aponta as modificações no racismo brasileiro. No início, sendo um ‘tipo’ de negro, ‘diferenciado’, Caymmi até podia falar de candomblé. Até determinado momento no país o racismo é mais palpável e há tentativas específicas, como por exemplo, vestir uma bela roupa, para diminuir as marcas raciais, embranquecer”.

“Um patriarca da música popular, uma família de músicos.” Dorival grava junto com sua filha mais velha, Dinahir Tostes Caymmi (Nana Caymmi), numa sessão de estúdio. Dori Tostes Caymmi, o segundo filho do compositor, dirige ambos. Sem identificação, décadas de 1970 ou 1980.Já a partir da segunda metade do século 20 houve uma mudança, “tanto no sentir quanto na consideração vinda de fora, do que é ser negro ou ser ‘de cor’ no Brasil”. Segundo o pesquisador passa-se então a ser possível ter uma série de “orgulhos negros”. “É quando Caymmi se sente confortável em vestir uma bata africana, colocar uma conta de orixá, cantar de outro modo.”

Não se trata de afirmar que a coisa melhorou. “Muito era negociado antes, e ainda hoje”, diz Vitor. Já Caymmi é, de acordo com o pesquisador, de uma época da aliança. “Ele não reconheceria esse mundo porque hoje não se pode fazer alianças entre religiões ou classes sociais da mesma maneira e com o mesmo alcance de antes”, opina o autor da pesquisa.

Vitor Queiroz emprega um termo que é “experiência racial” em vez de “negritude”, para falar de como o sujeito se vê e como é enxergado pelos outros. “Seja lá o que você for, a sua experiência racial é perigosa porque tangencia coisas inseguras”.

A tese de doutorado começa no último apartamento onde Dorival Caymmi morou e termina em seu enterro. “Fui entrevistar o filho Dori e vi o local onde ele morreu”. Vitor passou uma tarde por lá e deu aquela espiada na janela que dava para o mar, tão cantado por Caymmi em suas canções praieiras.