Discurso das novas dietas reforça padrões de beleza inalcançáveis

Preocupação em perder peso aumentou convertendo-se em neurose alimentada
pelo discurso da mídia atual, afirma pesquisa.

Montagem/Reprodução

De acordo com pesquisador, é espantosa a quantidade de publicações voltadas especificamente para ‘boa forma’ e ‘dietas’.

Denis Pacheco/Jornal da USP

Considerado um dos maiores sinais de legitimação na indústria da moda e entretenimento, ser capa de revista é a materialização de uma série de conquistas. Entretanto, a foto que estampa edições mundo afora ainda representa um objetivo inatingível para o público leitor. Uma pesquisa realizada em 2014, com 150 pacientes entre 10 e 24 anos de idade atendidas no Ambulatório de Ginecologia do Hospital das Clínicas da FMUSP e do hospital estadual Pérola Byington, mostrou que 85% das jovens acreditam que existe um padrão de beleza imposto pela sociedade, 46% acreditam que mulheres magras são mais felizes e ainda que 55% delas adorariam acordar magras.

A exacerbação de corpos magros pela mídia e a presença constante de retoques digitais – os chamados “corpos photoshopados” – utilizados para promover um infindável número de novas dietas são alvo de uma tese de doutorado em desenvolvimento na Fculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP. Segundo o pesquisador Rodrigo Daniel Sanches, a preocupação em perder peso aumentou e, para psiquiatras, tornou-se uma neurose que é constantemente alimentada pelo discurso produzido pela mídia atual e materializado em práticas sociais e condutas corporais. Dentre suas hipóteses, se destaca a noção de que a pauta constante das dietas pode estar por trás, por exemplo, do aumento nos últimos anos de transtornos alimentares, como anorexia ou bulimia.

Ana Hickmann afirmou não se reconhecer em uma foto de capa.“Desde o meu mestrado, quando trabalhei a questão do corpo enquanto suporte midiático, uma das coisas que mais me incomodavam era o espaço ao qual se destinam as questões que se autointitulam como ‘boa forma/saúde’”, explica o especialista. Ao notar, em revistas e sites dedicados ao tema, o crescimento de pautas sobre novas dietas ou alimentos “milagrosos”, sempre ilustradas por corpos magros e homogeneizados, Sanches decidiu investigar os fenômenos por trás daquele nicho midiático, caracterizado especificamente pela sua relação com o suposto “novo” dessas dietas.

Utilizando a perspectiva teórica da análise do discurso, o pesquisador procurou compreender como funciona a relação entre o sujeito e os efeitos de sentido produzidos pelo discurso midiático das dietas, que prometem resultados rápidos e fáceis na busca de um corpo muitas vezes irreal. Ao escolher a análise do discurso como foco principal da tese, Sanches esclarece que o campo procura a priori construir um dispositivo de interpretação que tem como característica colocar o dito em relação ao não dito; é investigar o outro lugar do enunciado, que está sempre suscetível de ser modificado.

O material de análise da tese foi composto de revistas e sites escolhidos com base em três fatores: a abordagem das dietas e suas novidades, o tempo de permanência no mercado e, além da publicação impressa, dispor de versão on-line com espaço para comentário dos leitores e internautas. O conteúdo das publicações foi analisado entre janeiro e dezembro de 2015. “Nesse período, eu busquei enxergar um recorte e as sequências discursivas que falavam sobre novas dietas e supostas novidades”, esclarece ele, afirmando que, dentre seus principais resultados, está a percepção de que todas as pautas estavam atreladas à imagem do que chamou de “corpo-projeto”.

Segundo a historiadora Louise Foxcroft, cujo livro 'A tirania das dietas' foi uma das bases bibliográficas de Sanches, a palavra grega díaita, da qual deriva nossa palavra dieta, descrevia um modo de vida, fornecendo um caminho completo, mental e físico, para a saúde, a própria existência e o sucesso. Entretanto, a partir do século 20, essa palavra sofreu uma ressignificação, abonada pelos discursos midiáticos na sociedade moderna ocidental, que, para a autora, é lipofóbica: odeia a gordura e os corpos gordos.

No século XX, ainda era possível visualizar dobras, como as da barriga do ícone de beleza do cinema americano Marylin Monroe.Apesar de ter analisado veículos que se posicionam como jornalísticos, Sanches acredita que, quando o assunto são novas dietas e emagrecimento, o posicionamento desse nicho da imprensa deixa o jornalismo de lado e se pauta pela linguagem da publicidade. “A publicidade trabalha com fatores simbólicos. Um carro não é algo que te leva do A ao B, ele é status, poder, sedução, virilidade, os chamados vetores simbólicos que não estão no produto palpável”, revela ele.

Para Louise Foxcroft, as pautas das dietas são continuamente versões requentadas de ideias anteriores. No decorrer da tese, Sanches levanta a suspeita de que o discurso midiático das novas dietas se legitima justamente pela saturação que se dá por uma repetição constante. O que essas revistas, sites e blogs fazem muitas vezes é trazer esses vetores simbólicos destacando que se aquilo que é novo, é mais eficaz, mas a única novidade é o discurso.

Além disso, a pesquisa reforça que não apenas as tais novas dietas trazem poucas diferenças entre si, no que se refere aos seus discursos, como também são apresentadas como universais.

Sanches, reforçando o fato de não ser um nutricionista ou profissional da área da saúde, compreende que, do ponto de vista da linguagem, existe uma banalização das diferenças fisiológicas e comportamentais no discurso das novas dietas. “Nós somos sujeitos, eu tenho um estilo de vida, você tem outro, temos alimentação diferente, horários, cargas de trabalho diferentes; como que uma revista ou site pode afirmar que aquela dieta serve para todos nós?”, questiona o estudioso.

“Modelos de corpos sempre existiram, mas o modelo de corpo vigente não é real, é um projeto inalcançável, e criado propositadamente para vender dietas, exercícios, tratamentos que vão oferecer isso à sociedade”, argumenta o pesquisador, ao citar a expressão “beleza da mídia”, criada por Umberto Eco. “É essa beleza extremamente magra, livre de imperfeições”, pontua.

20170328 00 tese-2-768x403 temporarioConforme o estudioso, se reconhecemos que estamos em uma época de pluralidades, temos que incluir a pluralidade de corpos também no ambiente midiático. “A mídia é um lugar do ‘poder dizer’. É ali que circulam as informações que acabam sendo o discurso vigente na sociedade”, destaca.

Com cada vez mais celebridades reagindo às manipulações digitais da própria imagem em revistas, como a modelo Ana Hickmann, que em dezembro de 2015 afirmou não se reconhecer em uma foto de capa, Sanches acredita que mudanças vão acontecer, mas não serão a curto prazo.

Atualmente, “o texto da mídia ainda institucionaliza um discurso que não dá margem para outros e promove um apagamento. Outros corpos não podem circular. Eles não têm vez, e não aparecem”, conclui, ao reforçar que o sujeito contemporâneo continua na encruzilhada entre a excelência imposta pelas ferramentas midiáticas e a imperfeição da realidade.